05 maio 2009

Monumento aos Mortos na Grande Guerra - Aveiro










1 - Localização

Freguesia: Vera Cruz Rua/Lugar: Avenida Dr. Lourenço Peixinho (Placa Central no inicio da Avenida) Local Original: Sim

2 – Identificação

Designação: Monumento aos Mortos da Grande Guerra Data de colocação: 27 de Abril de 1934 Efeméride: Homenagem aos soldados de Aveiro mortos na Grande Guerra

3 – Promotor

Nome/Instituição: Câmara Municipal de Aveiro

4 – Caracterização

Autor: José Sousa Caldas, Vila Nova de Gaia Oficina: - Materiais: Granito, Calcário, bronze

5 – Descrição

O monumento é composto por uma base de formato ovalado do qual se destaca o pedestal, em pedra calcária, de onde sobressaem, em relevo, as armas da cidade de Aveiro. A coroar o conjunto surge a figura de um soldado em posição de atirador. As linhas simples e estilizadas do monumento, evidentes no tratamento dado às munições lavradas no pedestal, e o jogo criado pela alternância entre volumes de arestas bem marcadas e outros de formas arredondadas fazem dele um exemplar do Modernismo. A parte superior do pedestal tem inscritos, a baixo relevo, os nomes dos soldados do concelho desaparecidos em combate durante os anos do conflito. Circunda a parte posterior do monumento um pequeno canteiro protegido por gradeamento.

6 – Historial

Acompanhando a tendência nacional de se erguerem monumentos de homenagem aos mortos da Grande Guerra, motivada pela passagem de mais um aniversário do Armistício, surge, cerca de 1927, a ideia da construção desta escultura. É então criada, em Aveiro, uma Comissão Administrativa responsável por contratar o escultor, escolher o espaço apropriado e angariar os fundos necessários à sua prossecução. A obra seria executada por José Sousa Caldas, de Vila Nova de Gaia, sugerindo-se, numa primeira fase, que viesse a ser colocada na Praça Marquês de Pombal, junto ao Governo Civil. Contudo, considerou-se, posteriormente, que o lugar mais indicado seria a principal artéria da cidade, a actual Avenida Dr. Lourenço Peixinho, na época ainda designada por Avenida Central. Aprovado o projecto desde 1932, o monumento só viria a ser inaugurado a 27 de Março de 1934, numa cerimónia presidida pelo Dr. Lourenço Simões Peixinho, então presidente da edilidade e grande impulsionador da obra. Entre os presentes contavam-se, ainda, vários militares, bem como de vários estudantes das escolas da cidade.






Texto: Câmara Municipal de Aveiro
Fotos: Marcelo Sousa

04 maio 2009

Jaime Cortesão: médico do Corpo Expedicionário Português


Jaime Zuzarte Cortesão (Ançã, Cantanhede, 29 de Abril de 1884 — Lisboa, 14 de Agosto de 1960), foi um médico, político, escritor e historiador português.

Estudou no Porto, em Coimbra e em Lisboa, vindo a formar-se em Medicina em 1909. Lecionou no Porto de 1911 a 1915, quando foi eleito deputado por aquela cidade. Em plena Primeira Guerra Mundial defendeu a participação do país no conflito, tendo participado como voluntário do Corpo Expedicionário Português, no posto de capitão-médico, tendo publicado as memórias dessa experiência.

E dessas memórias extrai-se as seguintes passagens:

«Lá estava o soldado deitado na lama. Quando seguia, aqui perto, pim! uma bala dum-dum de metralhadora entrou-lhe pela boca e estoirou. Trouxeram-no em braços e deitaram-no ali. Debrucei-me. A sua cabeça era uma massa sangrenta e chata estendia no chão. Lembrava uma destes balões vermelhos de caoutchouc com que as crianças usam brincar e que tivesse estoirado. Perdera de todo a forma primitiva e humana. Este milagre de construção que nós trazemos sobre os ombros estava ali esborrachado sobre a terra, alastrando carne, miolos, sangue.
No dia seguinte veio outro, tal e qual na mesma. Só a bala entrara pelo temporal.»


La Lys

« A BATALHA DO LYS 9 de Abril de 1918
Lázaro, ergui-me do sepulcro. Vivo com a frescura de emoções de quem renasce.
Já vejo alguma coisa e dou o meu passeio pelo corredor do hospital.
Mas, porque a minha memória foi profundamente abalada e um véu de sombra me empana ainda os olhos, o mundo e a vida, onde eu reentro; surgem do Caos, brilham a custo, através de um nevoeiro espesso e primitivo. Não vejo as linhas contornais das coisas e dos seres. Lobrigo apenas manchas paradas e sombras que se movem.
Voltou-me com violência, o desejo de viver.
Consequentemente o interesse pelas novas da guerra.
Das nossas tropas vem a notícia de mais um raid, realizado com grande valentia. O Américo Olavo consegue levar a sua gente até á segunda linha boche, mas a noite chuvosa, a terra encharcada, e mais do que isso a rápida retirada dos alemães, não lhe dão os felizes resultados que o seu valor merecia.
Com este é o terceiro grande raid das nossas tropas, pois já antes Olavo, o capitão Vale de Andrade realizara uma incursão ás linhas inimigas com muito e feliz arrojo.
De toda a parte chegam sinais de que a luta se intensifica. Espera-se, a cada hora, que a ofensiva alemã, iniciada na direcção de Amiens se generalize a outros pontos da frente.
Mas - coisa inevitável - os nossos soldados começam a revoltar-se. Sim, inevitável. Pois se de Portugal não mandam reforços e nos esquecem, e os altos comandos, sem a coragem de protestar por todas as formas contra esse desprezo, fazem todos os dias aos soldados promessas de descansos e licenças que nunca chegam, e exigem alguns milhares de homens o dolorosíssimo esforço, que nos outros exércitos se distribui por centenas de milhares, que menos se poderia esperar?
O desfalecimento, a exaustão, o desespero atingiram o auge nas nossas fileiras.
Hoje enfim as nossas tropas da frente vão ser rendidas em massa. È uma deslocação total para a retaguarda. E como não há portugueses para essa rendição, o nosso pequeno sector vai cair em mãos dos ingleses, ficando nós sem um soldado nas linhas!
Eu estou no Hospital das Doidas, em St. Venaint, numa grande parte do qual se improvisou o nosso Hospital de Sangue n.º 2. È um vasto conjunto de casas apalaçadas, dispersas num grande parque, em cerca.
Há ali algumas centenas de mulheres loucas.
Às quatro horas da manhã, deitado na minha cama, acordo ao trovão estupendo duma granada de 31 ou 38, estoirando próximo. O alto e vasto edifício baila sobre os alicerces, e os grandes estilhaços, como bolidos incendiados, rugem e silibam, sinistros, cortando as paredes e os telhados. Depois outra. E não param. De espaço a espaço, um abalo fundo de terramoto é o espadanar estridulo da metralha. Para as linhas um rebentar de tempestade oceânica raiva, furibundo. O coração aperta-se á lembrança dos que andam àquela hora sobre as altas ondas de fogo e terra.
Quase todos os doentes, que podem levantar-se, vagueiam de luz acesa pelo hospital. Médicos e enfermeiros, tudo se ergueu. O trovejar da planície enche as almas de assombro. Só quando dealba a manhã, e as primeiras grandes novas chegam, eu e o Frazão nos erguemos.
Ás dez da manhã sabe-se já que os alemães, numa ofensiva de grande estilo, cuja largueza é por enquanto difícil de avaliar, romperam as nossas linhas e avançam.
Os feridos entram constantemente.
As faces andam pálidas e espantadas. A batalha aproxima-se. Aumenta o seu marulho tonitruante. As novas que chegam rasgam a cada passo o âmbito da tragédia.
A larga cerca do hospital povoou-se pouco a pouco de vultos, clamores e autos, ofegando.
Chego á janela: uma turba que a bruma do dia afunda invadiu as ruas do parque e a antiga solidão de grupos gesticulantes, acampamentos de acaso, de mantas, máscaras, mochilas e armas, abandonadas sobre a relva dos talhões. Mais e mais grupos entram. Uma ambulância automóvel desliza lentamente e para em baixo á porta. Do fundo; com vagar, saem em braços volumes humanos, as cabeças e os membros descaídos. Os meus olhos, cuja névoa de sangue deixa apenas entrever as coisas, desta distância enxergam tudo aquilo em sombras moventes.
Com o giro das horas inunda-se o parque; a turba vem ás ondas e reflui até se afogar nas casas e nas áleas, e cada vez mais o rumor, que exala, me inquieta e aflige:
- Vai encher-se tudo com feridos - dizem.
Resolvo então ir ajudar os camaradas, que lá em baixo se estenuam na faina cirúrgica. Esqueço a minha trémula convalescença e desço, agarrado ao corrimão, as escadas que levam á cirurgia.
- A meio do ultimo lanço chega-me, lá do fundo dos vastos salões, um bafo quente de fornalha e borborinho confuso.
Entro na primeira estância: regorgita de feridos, lançados em macas, a esmo sobre o ladrilho do chão, de lés-a-lés. Ao primeiro relance lobrigo apenas, lançada por terra, a massa azul cinzenta das fardas, manchada de lama e sangue.
Ouve-se um remexer dorido, gemidos baixos, rouquejos. E logo, distintamente, salta-me aos olhos a visão de um grupo tragicamente imóvel, ali ao pé, rente a mim, e á orla do amontoado humano: é um padre que reza, ajoelhado, as orações de ultima hora, dobrado sobre um vulto estendido e inerte com uma face branca e fria de gelar.
O meu olhar, que sai da escuridão recente, ao encontrar-se de novo com o Mundo, cerra-se aflito e atónito.
Para seguir ás salas da frente é mister entrar num cortejo de soldados, sopesando um macas mutilações humanas. Ali trabalham sem descanso três equipes de operadores.
Lançados ao acaso sobre as macas, os feridos de mais gravidade esperam a sua vez. Um cheiro pesado e morno a éter, sangue e entranhas violadas entontece e engulha. Á beira deste ou daquele pingam nascentes de sangue. O chão é todo manchado pelo rio vermelho da vida extravasa.
Oh! mas este odor a matança é intragável. Paro, hesito. Não, não posso. È demais para as minhas forças débeis. E depois, estes gritos! Alguns pasmodiam queixas lúgubres. E, a espaços, forma-se um coro desgarrado de apelos e uivos, como de reses mal abatidas.
Um homem com a cara de cor de chumbo e lama, sacode no ar um coto de braço empanado, todo rútilo de sangue, e implora, uivando:
- Não me deixem morrer! Tenham pena de mim!
Ali, para um canto, caiu uma horrível massa humana ensanguentada e informe; não se lhe vê a cabeça, todavia aquilo geme numa suprema despedida, muito baixinho, de cortar o peito:
- Ai! minha rica mãezinha! - como um degolado, cuja voz, tão sentida é, nascesse do próprio coração.»


Memórias da grande guerra,
de Jaime Cortesão, [1919].
BNP Esp. E25/17

Assinatura de Jaime Cortesão



Bibliografia:

Memórias da Grande Guerra (1916-1919), Jaime Cortesão

Biblioteca Nacional de Portugal, Espólios

29 abril 2009

António Gonçalves Curado


Nasceu em Vila Nova da Barquinha a 29 de Setembro de 1894 e morreu na Flandres em 4 de Abril de 1917.
Mobilizado pelo Regimento de Infantaria n.º 28 embarcou para França em 22 de Fevereiro de 1917 tendo sido o primeiro militar português do CEP a morrer em combate, o que retirou do anonimato e fez com que fosse alvo de homenagens. Os seus restos mortais, pela acção do Município da Barquinha, foram transladados para Portugal, onde chegaram em 31 de Julho de 1929 e na Figueira da Foz - localidade onde estava sedeado o seu regimento - foi mandado erigir, pela comunidade francesa residente em Portugal, um monumento em sua memória.

«Chegou a comunicação oficial dos ingleses da morte do soldado e dos ferimentos dos outros. Afinal, não foram estilhaços da granada que o mataram. Caiu sobre o abrigo em que os homens estavam uma granada que fez abater o tecto e o soldado ficou com a cabeça esmigalhada e os outros, feridos. (…) Aquele pobre soldado que estava abrigado à retaguarda morre esmagado por um desabamento! "C’est la guerre!"». General Fernando Tamagnini

«No dia 11 de Novembro de 2008, foi comemorado o Dia do Armistício, dia que assinala o fim da I Grande Guerra Mundial, junto ao Monumento de homenagem aos mortos daquele conflito, existente em Vila Nova da Barquinha, onde está sepultado o primeiro militar morto em combate ( Flandres – França ), o Soldado António Gonçalves Curado, natural daquela Vila.»

Monumento / sepultura em Vila Nova da Barquinha


Bibliografia
:

História da I República | Biografias | Biografias | CURADO, António Gonçalves (1894-1917)

Marques, Isabel Pestana, Memórias do General 1915-1918, "Os meu três comandos" de Fernando Tamagnini

Liga dos Combatentes, Notícias, Arquivo de 2008

FREGUESIA DE VILA NOVA DA BARQUINHA

28 abril 2009

Aníbal Augusto Milhais


O SOLDADO MILHÕES


Aníbal Augusto Milhais nasceu em Valongo, concelho de Murça, em Trás-os-Montes. Filho de agricultores e ele próprio agricultor durante toda a vida, com excepção do tempo em que esteve na guerra.
Chegada a hora da tropa foi incorporado no Regimento de Bragança e mais tarde no de Chaves. Em 1917 partiu para a frente de combate. Um ano depois, chegava o "grande momento", o da Batalha de La Lys, na Flandres. O dia preciso: 9 de Abril.
Rezam as crónicas que uma força portuguesa se viu atacada pelos alemães. A nossa força chegou a ser destroçada e a situação era «a pior possível». Muitos portugueses foram mortos e os sobreviventes obrigados a retirar. O soldado Milhais viu-se sozinho numa trincheira e, então, ergue-se, de metralhadora Lotz em punho, e varreu uma coluna de alemães que vinham em motocicletas. Terá feito o mesmo ás colunas de "boches" que entretanto surgiram. Parece que os alemães terão julgado que, em vez de um camponês sozinho, enfrentavam um fortíssimo regimento de portugueses e ingleses. Mas, afinal, era apenas Milhais e a sua querida "Luísa", nome da metralhadora (já retratada neste blog).
O acto isolado deste soldado permitiu aos aliados tomar posição trinta e tal quilómetros mais atrás. Milhais, esse, continuou sozinho, a vaguear pelos campos, tendo apenas «amêndoas doces» para comer. Reza também a história que salvou um grupo de escoceses de serem capturados, disparando sobre os alemães que os perseguiam.
Quatro dias depois da batalha, encontrou um médico escocês que o salvou de morrer afogado num pântano. Foi este médico, para sempre agradecido, que deu conta ao exército aliado dos feitos do soldado transmontano. Chegado ao acampamento, Milhais foi efusivamente abraçado pelo seu comandante (General Tamagnini): «Tu és Milhais, mas vales milhões».
Por causa desse feito Milhões recebeu a Ordem de Torre e Espada de Valor, Lealdade e Mérito, em Isberg. Perante o soldado, que, no fundo, era apenas um homem simples e grande contador de histórias, desfilaram «em continência» 15 mil soldados aliados.
Depois de terminada a guerra, o soldado recebeu outras condecorações portuguesas e estrangeiras.
Em 1928, Aníbal Milhais decide emigrar para o Brasil (para ver se conseguia sustentar os filhos: uma pátria agradecida NÃO velava por ele…), mas em Agosto regressou á sua terra, depois de ter surgido uma iniciativa de outros emigrantes portugueses em terras de Vera Cruz que viram nele a «personificação completa de Portugal eterno». Remeteram Milhões para a Pátria com uma «boa soma» nas algibeiras.
«Há ideia de que ele matou muita gente...mas ele tinha a convicção de que, apenas, reagiu para se defender. Milhões ao folhear os jornais e fotografias da época, apenas se queria lembrar dos que não conseguiu salvar. Não se orgulhava dos números da mortandade nem dava muita importância a tantas medalhas. Foi, até ao fim da vida, um homem simples que as circunstâncias das lutas daquele tempo fizeram herói. «Ele achava que fez, apenas, o que qualquer um, em circunstâncias iguais, teria feito». Milhões evitava falar da guerra, apesar de considerar que o seu gesto «tinha sido corajoso». Trabalhava no campo e gostava de conversar, «com muita naturalidade e sem vaidade».
«Homem baixo, 1 metro e 55 centímetros. Testa inteligente. Olhar penetrante. Rosto simpático com farto bigode semi-grisalho.


«(...) Nesta guerra com milhões de mortos, não haveria lugar ao culto do heroísmo individual (ao culto da personalidade), daí a poderoso liturgia cívica europeia colectiva ao soldado Desconhecido, que a «Pátria» coroará nos vários monumentos aos mortos da Grande Guerra.
Contudo, em Portugal, deve relevar-se dentro do imaginário «guerrista» o heroísmo do soldado «Milhões», condecorado com a 4ª classe da Ordem de Torre e Espada de Valor, Lealdade e Mérito, que será sujeito a apropriações míticas, rosto concreto das «horas de provação» da batalha de La Lys, finda a qual, os portugueses, «num cortejo de silêncio e tristeza, [...] vão como sonâmbulos [...]»
(Augusto Casimiro, Cálvários da Flandres).




(...) « A verdade é que a maior parte dos seus descendentes adoptou o apelido Milhões, como Leonida, a neta que vai, connosco, relembrar o célebre soldado da Primeira Grande Guerra Mundial.
Leonida, que vive com as suas filhas na Guarda, prefere recordar o avô e não tanto o herói: «Ele era a pessoa com quem a gente brincava e acima de tudo era um amigo».«Era um homem de grandes valores, um homem de palavra e com grande sentido de justiça», recorda a neta. Sempre bem disposto: «Mesmo nos piores momentos, ele conseguia transmitir coragem». Milhões morreu quando Leonida tinha 17 anos mas ela lembra-se bem que o avô era um homem muito simples e bem disposto, capaz de contar uma boa história.»

(...)«O problema é que a comenda da Ordem de Torre e Espada valia apenas 15 tostões por mês. É que a Pátria precisa de heróis (quando não os tem, fá-los à pressa, em aviários) mas quando se trata de desembolsar uns cobres, o caso muda de figura. Em 1924 chegou, inclusive, a haver subscrições públicas para que o herói Milhões pudesse construir uma casinha. Para ele, para a mulher e para os oito filhos. Vasco Borges, um deputadíssimo figurão, emocionado, fez, na altura, um elogio choroso na Câmara dos Deputados: «O nome do humilde soldado transmontano que na epopeia da Flandres acendeu por suas mãos um facho de imortalidade; o nome desse obscuro soldado Milhões irradia na hora indecisa do presente um fulgor igual ao do Lampadário da Pátria sob as abóbadas solenes da Batalha». No melhor estilo, pois então. E, finalmente, o deputado lá sugeriu que a terra onde Aníbal nasceu se passasse a chamar Valongo de... Milhais, em homenagem ao nosso herói. Aprovado.»

«Saiu em Março mas em Agosto regressou à sua terra. Perguntaram-lhe se tinha regressado por causa do clima. «Não. Não me deixaram ficar lá!». É que os portugueses do Brasil ao saberem que «o seu herói, porventura ansioso de amealhar o mais possível para ter na Pátria uma velhice tranquila, revoltaram-se indignados até contra o Governo, porque assim se havia desprezado uma relíquia do Pátria, que se vira constrangido a emigrar um herói para quem todo o ouro da Nação deveria ser pouco e insuficiente para pagar a epopeia gloriosa que ele vivera, erguendo tão alto o nome de Portugal», conta a revista "Juventude". «Eis que surge uma iniciativa deveras comovedora: abre-se uma subscrição. Festeja-se aquele simples emigrante como o símbolo da raça, que visitou o Brasil e os seus compatriotas, os quais delirando, com ovações e lágrimas vêem nele a personificação completa de Portugal eterno». E, depois, remeteram Milhões para a Pátria com uma «boa soma» nas algibeiras, que um herói daqueles não podia ser emigrante.»

(...)«informa-nos a revista "Juventude", de 1963, que inclui Milhões na "Academia dos Imortais". Ele que, a acreditar na neta Leonida, era um homem que gostava de brincar com as crianças. Suspeito que, Milhões, na sua infinita sabedoria de homem do campo, em comunhão com a natureza, sabia que isso de ser símbolo da «heroicidade da nossa raça» não passava de treta . «Este soldadinho, afora façanhas de desprezo pela vida, que em muitas ocasiões levou a cabo com o seu sorriso e a inconsciência do seu valor», como dizia o articulista, sabia que o seu gesto de coragem correspondeu apenas a um impulso visceral.»







Bibliografia:

Terras da Beira 25/06/98, Opinião, Para a Pátria, o soldado Milhões valia quinze Tostões, Américo Rodrigues

Revista Combatente, Edição 345, Setembro 2008

Revista Alma Nova, página 65

Portugal, Grande Guerra 1914-1918, Edição Diário de Noticias

Visão História, nº4

Inatel, Viagens na História, João Aguiar

Municipio de Murça