17 maio 2009

Albert Battel


Albert Battel (21 de Janeiro de 1891 - 1952) foi um ( Wehrmacht) oficial alemão, advogado, e humanitário.

Battel nasceu em Klein-Pramsen, na Silésia prussiana. Após servir na I Guerra Mundial, estudou Economia e Jurisprudência em Munique e em Breslau (Wrocław).
Com cinquenta e um anos de idade era oficial de reserva. Battel estava estacionado em Przemyśl no sul da Polónia, onde era ajudante do comandante militar local, o Major Max Liedtke. Quando as SS se preparavam para lançar a primeira "reinstalação" (liquidação) de judeus em Przemyśl a 26 de Julho de 1942, Battel, em consorcio com o seu superior hierárquico, ordenou o bloqueio da ponte sobre o Rio San, o único acesso para a gueto judeu.

O comando local das SS tentou atravessar a ponte bloqueada, no entanto sargento-ajudante de guarda da ponte ameaçou abrir fogo a menos que se retirassem. Tudo isso aconteceu em plena luz do dia, para o espanto dos habitantes locais.

Pouco tempo depois, nessa mesma tarde, um destacamento do exército sob o comando de Albert Battel invadiu a área do gueto e utilizando camiões do exército, evacuou mais de 100 famílias judias para o quartel do comando militar local. Estes judeus foram colocados sob a protecção da Wehrmacht e foram, portanto, protegidos da deportação para o acampamento-extermínio de Belzec.

Após este incidente, as autoridades SS começaram uma investigação em segredo para averiguar a conduta do oficial do exército que ousou desafia-los sob as referidas circunstâncias. Ele viu que Battel, embora fosse membro do Partido Nazi desde Maio de 1933, já havia sido noticia no passado pelo seu comportamento amigável para com os judeus. Antes da guerra havia sido indiciado por ter feito um empréstimo a um colega judeu. Mais tarde, no decurso do seu serviço em Przemyśl, ele foi cordialmente advertido por "apertar" a mão do presidente do Conselho Judaico. Toda a questão chegou a atenção do mais alto nível da hierarquia Nazi. Nada menos do que Heinrich Himmler (Reichsführer-SS, chefe das SS), que teve um interesse nos resultados do inquérito e enviou uma cópia da documentação incriminatória para Martin Bormann, chefe da Chancelaria do Partido e braço direito de Adolf Hitler. Na carta de acompanhamento, Himmler jurou que o advogado fosse preso imediatamente após o fim da guerra.

Toda esta investigação permaneceu desconhecida para Battel. Em 1944, teve alta do serviço militar por causa de doença cardíaca. Quando voltava para sua cidade natal (Breslau), caiu em cativeiro pelos Soviéticos. Após a sua libertação, regressou Republica Federal Alemã, mas foi impedido de voltar a exercer a advocacia por decisão de tribunal. Morreu em 1952 em Frankfurt.

A sua posição contra as SS (bloqueando a ponte), só ficou reconhecida muito tempo depois da sua morte, especialmente, através do esforço tenaz do investigador israelita e advogado Dr. Zeev Goshen.

Em 22 de Janeiro de 1981, quase 30 anos após sua morte, Yad Vashem decidiu reconhecer Albert Battel como: "Justos entre as Nações", tendo uma árvore com o seu nome em Israel.


Fontes:

en.wikipedia.org

Righteous Among the Nations

Auschwitz - Os Nazis e a Solução Final, BBC, 3º episódio

10 maio 2009

Os Homens-Rãs

O ataque aos couraçados «Valiant» e Queen Elisabeth», fundeados no porto de Alexandria, realizado por seis homens-rãs italianos, transportados até ao próprio local do ataque pelo submarino «Sciré», deixou estupefacto o Almirantado Britânico J. D. Ratcliff faz aqui o seu relato desta proeza.


« Querida mãezinha:
Quando receberes esta carta, já terei deixado de existir. Ofereci-me como voluntário para realizar uma perigosa missão que fracassou...»
«Quinze dias antes do Natal de 1941, o tenente de marinha Luigi Durand de La Penne escrevera três cartas destinadas a sua mãe. Esta era a primeira; noutra anunciava-lhe que havia triunfado; e, na terceira, que caíra prisioneiro. Terminada a sua missão, enviariam a sua mãe a carta que correspondesse á realidade.

(Luigi DURAND DE LA PENNE)
La Penne, um belo rapaz de 27 anos, alto e de aparência desportiva, estava prestes a empreender uma empresa digna de figurar em lugar de relevo no livro de oiro da História: com o seu grupo - seis homens, na totalidade, e sem armas - devia atacar a Armada Britânica concentrada no porto de Alexandria. Nesse corpo a corpo, tremendamente desproporcionado, que oporia homens de 70 quilos a couraçados de 32000 toneladas, iria conseguir, além de uma brilhante vitória naval, a admiração do seu principal adversário. Winston Churchill afirmou que esta façanha representava «um notável exemplo de coragem e habilidade».
A guerra encontrava-se num momento crítico quando La Penne recebeu a missão de afundar as principais unidades da frota britânica do Mediterrâneo. Por causa da acção dos submarinos, os Britânicos acabavam de perder um couraçado e um porta-aviões.
Os dois couraçados que restavam á Inglaterra no Mediterrâneo tinham-se refugiado mo porto de Alexandria. La Penne e os seus voluntários deviam ir atacá-los, montados em três minúsculos submarinos que os homens-rãs denominavam «porcos» (Maiale).
Um «porco» media 6,50 m de comprimento; a sua propulsão, eléctrica, era silenciosa; a velocidade de 3 a 5 quilómetros por hora e o raio de acção de 16 quilómetros. O aparelho estava provido na «cabeça», de uma carga explosiva, desmontável, com o peso de 300 quilos. Uma vez no porto, cada um dos três grupos de dois homens devia aplicar a sua carga explosiva no casco do objectivo que lhe fora confiado e depois fugir - se pudesse.
As probabilidades de voltar são e salvo de semelhante missão eram mínimas. Por esse motivo, aconselhara-se a La Penne e aos seus homens que fizessem testamento e fizera-se um embrulho com os seus objectos pessoais, para serem enviados ás famílias no caso de que...

A 18 de Dezembro, os três grupos estão já a bordo de um submarino, o «Sciré», que repousa no fundo do mar, á entrada de Alexandria. Dentro do porto encontram-se, segundo confirmam os últimos boletins de informação, os couraçados «Valiant» e «Quenn Elizabeth».
La Penne e o seu companheiro de grupo, o contramestre Emílio Bianchi, terão o Valiant como objectivo; o tenente de marinha António Marceglia e Spartaco Schergart o «Queen Elizabeth». Quanto aos tenentes Vicenzo Martellotta e Mário Marino, deverão atacar um barco-cisterna de 16000 toneladas e semear em seguida bombas incendiárias flutuantes, confiando em que o petróleo derramado pelo barco-cisterna incendeie todo o porto. Terminado o seu trabalho, os três grupos dirigir-se-ão a nado para a margem e, dali, em algum barco de pesca roubado, seguirão para um lugar designado de antemão, onde irá recolhê-lhos, em 24 de Dezembro, um submarino Italiano.



Pouco antes das 21 horas, os tripulantes dos «porcos» envolvem-se, mal ou bem, nos seus apertados fatos de borracha. Depois os pequenos aparelhos são lançados á água e metem proa, lentamente até ao farol de Ras-el-Tin, que se destaca a 1500 metros de distância. Quando os seis homens montaram nos seus «porcos» apenas as cabeças emergem da água. As explosões hão-de ser provocadas por foguetes de efeito retardado. O barco-cisterna, segundo os cálculos irá pelos ares ás 5 horas e 55 minutos; o «Valiant» ás 6 horas e 5 minutos e o «Queen Elizabeth» ás 6 horas e 15 minutos. Os homens dispõem, portanto, de algum tempo para saborear o que será, talvez, a sua ultima refeição. Tiram frango frio e umas garrafinhas com champanhe, de uma caixa impermeável - e comem e bebem.

Chegou finalmente, o momento de se aproximarem das redes de aço que protegem a entrada do porto. Os «porcos» estão apetrechados com tesouras apropriadas, mas estas fazem demasiado ruído e as redes estão frequentemente carregadas de electricidade... La Penne hesita, reflectindo sobre o que lhe convém fazer. De repente, o farol e o porto iluminam-se: alguns barcos dispõem-se a entrar!
As redes afastam-se pra lhes dar passagem.
- Vamos! - ordena La Penne.
Três contratorpedeiros surgem da sombra; na sua esteira, saltando desordenadamente, vão os três pequenos «porcos».

Já no porto, os homens-rãs ocupam-se a localizar os seus alvos. La Penne e Bianchi aproximam-se do «Valiant», mas esbarram com uma rede protectora. Tentam levantá-la; pesa excessivamente. Para franquear o obstáculo, apenas há uma solução: passar-lhe por cima, sem despertar as atenções. A manobra resulta bem, com grande alívio deles. Voltam imediatamente a submergir.
O sítio melhor para a colocação da carga explosiva é debaixo da torre de comando. La Penne sobe á superfície para comprovar pela última vez a posição exacta e desenrola uma delgada corda que lhe servirá para regressar ao seu «porco». Mas, quando de novo submerge, o aparelhe nega-se a avançar: a corda - pensa - deve ter-se enrolado na hélice. Volta-se para Bianchi, para lhe indicar por sinais que a desenrede. Mas Bianchi desapareceu!
Agora tem de terminar o seu trabalho sozinho.
A carga explosiva encontra-se ainda a 30 metros da sua posição definitiva. Com as suas mãos nuas, que o fio entorpece, La Penne começa a arrastar pelo lodo, centímetro a centímetro, aquele fardo de 300 quilos. Depois de quase uma hora de trabalho esgotante, a carga fica no sitio desejado; mas La Penne está demesiadamente cansado para fixá-la ao casco. Tem a certeza, entretanto, de que fará o efeito pretendido, já que repousa no fundo a 1,50 m somente da quilha do navio. São 3 horas: faltam ainda mais 3 horas para a explosão.
La Penne está prestes a perder os sentidos.
Ao subir á superfície, produz um «clac» quase imperceptível, suficiente, contudo, para alertar o marinheiro de guarda na ponde do «Valiant». Projectores, saraivada de balas. La Penne descobre uma bóia de ancoragem e nada até lá. Por detrás dela estará protegido. Mas alguém ali se encontra também: Bianchi! Tendo-se-lhe avariado a máscara respiratória, desmaiou enquanto subia á superfície; logo que voltou a si, nadou até á bóia.
Não tarda a chegar uma lancha onde os dois homens são embarcados. No «Valiant», o oficial de guarda procede ao seu interrogatório: são 3 horas e 30 minutos. Os dois prisioneiros negam-se a dar qualquer informação. Separam-nos.
La Penne é encerrado num armazém da coberta inferior, por cima da carga explosiva, pouco mais ao menos. Um marinheiro compassivo dá-lhe um copo de aguardente e um maço de cigarros, para o reanimar. Já só lhe resta como andam depressa os ponteiros do seu relógio: 5 horas e 30, 5 horas e 40 minutos...

Ouve-se um estrondo longínquo. O grupo de Martellotta acaba de fazer saltar o navio-cisterna. A popa ficou completamente destruída e um contratorpedeiro que estava fundeado perto sofreu avarias; mas as bombas incendiárias não explodiram. São 5 horas e 54 minutos; só faltam 11 minutos. La Penne golpeia insistentemente com os punhos a porta da sua prisão; pede para ser levado á presença do capitão. É o comandante Charles Morgan.
- O barco vai pelos ares dentro de dez minutos - diz La Penne. - Não quero ser culpado de mortes inúteis. No seu lugar, capitão, eu faria subir toda a tripulação para a coberta.
- Diga-me - exige Morgan - o lugar exacto em que foi colocada a carga. Se se nega a responder, o meu dever á mandá-lo outra vez para baixo.
La Penne recusa-se; se Morgan soubesse que a carga repousa no fundo do mar, bastar-lhe-ia fazer o navio mudar de posição para o afastar do perigo. Enquanto é outra vez conduzido ao seu cárcere ocasional, o prisioneiro ouve os altifalantes de bordo difundirem a ordem: «Toda a gente para a coberta!»

Os olhos, agora, cravam-se no relógio, cujo ponteiro de segundos está a marcar, sem dúvida, os últimos instantes da sua vida. Terá, pelo menos, ajustado com exactidão o foguete de explosão retardada? É impossível fazê-lo com uma precisão de segundos. De súbito - são 6 horas e 6 minutos - a explosão produz-se.
O «Valiant» é agitado por sacudidelas convulsivas e enche-se de fumo. La Penne é atirado até ao outro extremo da sua cela e perde por momentos os sentidos. Ao recuperar o conhecimento, a onda explosiva abrira a porta. Sem que nínguem repare nele, sobe á coberta e fixa o olhar no «Queen Elizabeth», muito próximo do «Valiant»! Breve chegará a sua vez... São exactamente 6 horas e 15 minutos quando se dá a terrível explosão. Marceglia colocara a carga destinada ao couraçado precisamente por baixo da casa das máquinas; o óleo pesado sai pelas chaminés e derrama-se como um aguaceiro sobre o «Valiant» e sobre todo o porto. Os três barcos alcançados vão a pique mas ficam quase direitos, em virtude de não serem muito profundas as águas do porto.

As fotografias tiradas no dia seguinte á explosão, pelos aviões de reconhecimento, foram interpretadas correctamente pelos oficiais italianos: o «Valiant» estava escorado a bombordo; o «Queen Elizabeth» tinha a proa afundada; tornava-se evidente que os dois navios se encontravam seriamente avariados.
Mas Mussolini não ligou importância á informação dos especialistas. Como ninguém podia contradizê-lo, a frota italiana permaneceu nos portos e desperdiçou a sua melhor oportunidade, mas também é verdade que os Ingleses fizeram o impossível para manter Mussolini no seu tresloucado erro, mas isso já sãos outras histórias.

Quanto aos seis homens-rãs, foram feitos prisioneiros. Levaram La Penne para o Cairo e, depois, para a Palestina; daí consegui fugir para a Síria. De novo preso e embarcado para a Índia, voltou a escapar, mas uma vez mais foi aprisionado.
Foi posto em liberdade em 1943, pouco depois da assinatura do armistício com a Itália, e prestou serviços aos Aliados; foi em grande parte graças a ele que se descobriu um plano alemão que consistia, no momento de evacuar La Spezia, em obstruir a entrada do porto. Na entrada da barra deviam ser destruídos vários navios.
Mas os homens-rãs mergulharam oportunamente, tudo fazendo para os afundar antes que chegassem á barra; entre esses homens estava La Penne.

Em 1945 realizou-se uma cerimónia pouco vulgar. O príncipe herdeiro de Itália, Humberto, ia condecorar La Penne com a mais alta distinção nacional, a «Medaglia d'Ouro», quando um dos convidados se adiantou; era o contra-almirante Charles Morgan, comandante das forças navais britânicas com base em Itália, o antigo capitão do «Valiant». Não se esquecera de que, graças ao aviso dado por La Penne, a sua tripulação, composta por 1700 homens, não sofrera uma baixa sequer.
E o almirante britânico pediu ao príncipe que concedesse a honra de condecorar, com aquela insígnia da coragem, o homem-rã italiano».




Percursos das três equipas






Bibliografia:

«Italy's gallant frogman», The Reader's Digest, Pleasantville, Agosto 1958

Ministero Della Difesa, Marina Militare, LA NOSTRA STORIA

Comando Supremo, Italy at War

Foro Armas Blancas, Historia de buzos

05 maio 2009

Monumento aos Mortos na Grande Guerra - Aveiro










1 - Localização

Freguesia: Vera Cruz Rua/Lugar: Avenida Dr. Lourenço Peixinho (Placa Central no inicio da Avenida) Local Original: Sim

2 – Identificação

Designação: Monumento aos Mortos da Grande Guerra Data de colocação: 27 de Abril de 1934 Efeméride: Homenagem aos soldados de Aveiro mortos na Grande Guerra

3 – Promotor

Nome/Instituição: Câmara Municipal de Aveiro

4 – Caracterização

Autor: José Sousa Caldas, Vila Nova de Gaia Oficina: - Materiais: Granito, Calcário, bronze

5 – Descrição

O monumento é composto por uma base de formato ovalado do qual se destaca o pedestal, em pedra calcária, de onde sobressaem, em relevo, as armas da cidade de Aveiro. A coroar o conjunto surge a figura de um soldado em posição de atirador. As linhas simples e estilizadas do monumento, evidentes no tratamento dado às munições lavradas no pedestal, e o jogo criado pela alternância entre volumes de arestas bem marcadas e outros de formas arredondadas fazem dele um exemplar do Modernismo. A parte superior do pedestal tem inscritos, a baixo relevo, os nomes dos soldados do concelho desaparecidos em combate durante os anos do conflito. Circunda a parte posterior do monumento um pequeno canteiro protegido por gradeamento.

6 – Historial

Acompanhando a tendência nacional de se erguerem monumentos de homenagem aos mortos da Grande Guerra, motivada pela passagem de mais um aniversário do Armistício, surge, cerca de 1927, a ideia da construção desta escultura. É então criada, em Aveiro, uma Comissão Administrativa responsável por contratar o escultor, escolher o espaço apropriado e angariar os fundos necessários à sua prossecução. A obra seria executada por José Sousa Caldas, de Vila Nova de Gaia, sugerindo-se, numa primeira fase, que viesse a ser colocada na Praça Marquês de Pombal, junto ao Governo Civil. Contudo, considerou-se, posteriormente, que o lugar mais indicado seria a principal artéria da cidade, a actual Avenida Dr. Lourenço Peixinho, na época ainda designada por Avenida Central. Aprovado o projecto desde 1932, o monumento só viria a ser inaugurado a 27 de Março de 1934, numa cerimónia presidida pelo Dr. Lourenço Simões Peixinho, então presidente da edilidade e grande impulsionador da obra. Entre os presentes contavam-se, ainda, vários militares, bem como de vários estudantes das escolas da cidade.






Texto: Câmara Municipal de Aveiro
Fotos: Marcelo Sousa

04 maio 2009

Jaime Cortesão: médico do Corpo Expedicionário Português


Jaime Zuzarte Cortesão (Ançã, Cantanhede, 29 de Abril de 1884 — Lisboa, 14 de Agosto de 1960), foi um médico, político, escritor e historiador português.

Estudou no Porto, em Coimbra e em Lisboa, vindo a formar-se em Medicina em 1909. Lecionou no Porto de 1911 a 1915, quando foi eleito deputado por aquela cidade. Em plena Primeira Guerra Mundial defendeu a participação do país no conflito, tendo participado como voluntário do Corpo Expedicionário Português, no posto de capitão-médico, tendo publicado as memórias dessa experiência.

E dessas memórias extrai-se as seguintes passagens:

«Lá estava o soldado deitado na lama. Quando seguia, aqui perto, pim! uma bala dum-dum de metralhadora entrou-lhe pela boca e estoirou. Trouxeram-no em braços e deitaram-no ali. Debrucei-me. A sua cabeça era uma massa sangrenta e chata estendia no chão. Lembrava uma destes balões vermelhos de caoutchouc com que as crianças usam brincar e que tivesse estoirado. Perdera de todo a forma primitiva e humana. Este milagre de construção que nós trazemos sobre os ombros estava ali esborrachado sobre a terra, alastrando carne, miolos, sangue.
No dia seguinte veio outro, tal e qual na mesma. Só a bala entrara pelo temporal.»


La Lys

« A BATALHA DO LYS 9 de Abril de 1918
Lázaro, ergui-me do sepulcro. Vivo com a frescura de emoções de quem renasce.
Já vejo alguma coisa e dou o meu passeio pelo corredor do hospital.
Mas, porque a minha memória foi profundamente abalada e um véu de sombra me empana ainda os olhos, o mundo e a vida, onde eu reentro; surgem do Caos, brilham a custo, através de um nevoeiro espesso e primitivo. Não vejo as linhas contornais das coisas e dos seres. Lobrigo apenas manchas paradas e sombras que se movem.
Voltou-me com violência, o desejo de viver.
Consequentemente o interesse pelas novas da guerra.
Das nossas tropas vem a notícia de mais um raid, realizado com grande valentia. O Américo Olavo consegue levar a sua gente até á segunda linha boche, mas a noite chuvosa, a terra encharcada, e mais do que isso a rápida retirada dos alemães, não lhe dão os felizes resultados que o seu valor merecia.
Com este é o terceiro grande raid das nossas tropas, pois já antes Olavo, o capitão Vale de Andrade realizara uma incursão ás linhas inimigas com muito e feliz arrojo.
De toda a parte chegam sinais de que a luta se intensifica. Espera-se, a cada hora, que a ofensiva alemã, iniciada na direcção de Amiens se generalize a outros pontos da frente.
Mas - coisa inevitável - os nossos soldados começam a revoltar-se. Sim, inevitável. Pois se de Portugal não mandam reforços e nos esquecem, e os altos comandos, sem a coragem de protestar por todas as formas contra esse desprezo, fazem todos os dias aos soldados promessas de descansos e licenças que nunca chegam, e exigem alguns milhares de homens o dolorosíssimo esforço, que nos outros exércitos se distribui por centenas de milhares, que menos se poderia esperar?
O desfalecimento, a exaustão, o desespero atingiram o auge nas nossas fileiras.
Hoje enfim as nossas tropas da frente vão ser rendidas em massa. È uma deslocação total para a retaguarda. E como não há portugueses para essa rendição, o nosso pequeno sector vai cair em mãos dos ingleses, ficando nós sem um soldado nas linhas!
Eu estou no Hospital das Doidas, em St. Venaint, numa grande parte do qual se improvisou o nosso Hospital de Sangue n.º 2. È um vasto conjunto de casas apalaçadas, dispersas num grande parque, em cerca.
Há ali algumas centenas de mulheres loucas.
Às quatro horas da manhã, deitado na minha cama, acordo ao trovão estupendo duma granada de 31 ou 38, estoirando próximo. O alto e vasto edifício baila sobre os alicerces, e os grandes estilhaços, como bolidos incendiados, rugem e silibam, sinistros, cortando as paredes e os telhados. Depois outra. E não param. De espaço a espaço, um abalo fundo de terramoto é o espadanar estridulo da metralha. Para as linhas um rebentar de tempestade oceânica raiva, furibundo. O coração aperta-se á lembrança dos que andam àquela hora sobre as altas ondas de fogo e terra.
Quase todos os doentes, que podem levantar-se, vagueiam de luz acesa pelo hospital. Médicos e enfermeiros, tudo se ergueu. O trovejar da planície enche as almas de assombro. Só quando dealba a manhã, e as primeiras grandes novas chegam, eu e o Frazão nos erguemos.
Ás dez da manhã sabe-se já que os alemães, numa ofensiva de grande estilo, cuja largueza é por enquanto difícil de avaliar, romperam as nossas linhas e avançam.
Os feridos entram constantemente.
As faces andam pálidas e espantadas. A batalha aproxima-se. Aumenta o seu marulho tonitruante. As novas que chegam rasgam a cada passo o âmbito da tragédia.
A larga cerca do hospital povoou-se pouco a pouco de vultos, clamores e autos, ofegando.
Chego á janela: uma turba que a bruma do dia afunda invadiu as ruas do parque e a antiga solidão de grupos gesticulantes, acampamentos de acaso, de mantas, máscaras, mochilas e armas, abandonadas sobre a relva dos talhões. Mais e mais grupos entram. Uma ambulância automóvel desliza lentamente e para em baixo á porta. Do fundo; com vagar, saem em braços volumes humanos, as cabeças e os membros descaídos. Os meus olhos, cuja névoa de sangue deixa apenas entrever as coisas, desta distância enxergam tudo aquilo em sombras moventes.
Com o giro das horas inunda-se o parque; a turba vem ás ondas e reflui até se afogar nas casas e nas áleas, e cada vez mais o rumor, que exala, me inquieta e aflige:
- Vai encher-se tudo com feridos - dizem.
Resolvo então ir ajudar os camaradas, que lá em baixo se estenuam na faina cirúrgica. Esqueço a minha trémula convalescença e desço, agarrado ao corrimão, as escadas que levam á cirurgia.
- A meio do ultimo lanço chega-me, lá do fundo dos vastos salões, um bafo quente de fornalha e borborinho confuso.
Entro na primeira estância: regorgita de feridos, lançados em macas, a esmo sobre o ladrilho do chão, de lés-a-lés. Ao primeiro relance lobrigo apenas, lançada por terra, a massa azul cinzenta das fardas, manchada de lama e sangue.
Ouve-se um remexer dorido, gemidos baixos, rouquejos. E logo, distintamente, salta-me aos olhos a visão de um grupo tragicamente imóvel, ali ao pé, rente a mim, e á orla do amontoado humano: é um padre que reza, ajoelhado, as orações de ultima hora, dobrado sobre um vulto estendido e inerte com uma face branca e fria de gelar.
O meu olhar, que sai da escuridão recente, ao encontrar-se de novo com o Mundo, cerra-se aflito e atónito.
Para seguir ás salas da frente é mister entrar num cortejo de soldados, sopesando um macas mutilações humanas. Ali trabalham sem descanso três equipes de operadores.
Lançados ao acaso sobre as macas, os feridos de mais gravidade esperam a sua vez. Um cheiro pesado e morno a éter, sangue e entranhas violadas entontece e engulha. Á beira deste ou daquele pingam nascentes de sangue. O chão é todo manchado pelo rio vermelho da vida extravasa.
Oh! mas este odor a matança é intragável. Paro, hesito. Não, não posso. È demais para as minhas forças débeis. E depois, estes gritos! Alguns pasmodiam queixas lúgubres. E, a espaços, forma-se um coro desgarrado de apelos e uivos, como de reses mal abatidas.
Um homem com a cara de cor de chumbo e lama, sacode no ar um coto de braço empanado, todo rútilo de sangue, e implora, uivando:
- Não me deixem morrer! Tenham pena de mim!
Ali, para um canto, caiu uma horrível massa humana ensanguentada e informe; não se lhe vê a cabeça, todavia aquilo geme numa suprema despedida, muito baixinho, de cortar o peito:
- Ai! minha rica mãezinha! - como um degolado, cuja voz, tão sentida é, nascesse do próprio coração.»


Memórias da grande guerra,
de Jaime Cortesão, [1919].
BNP Esp. E25/17

Assinatura de Jaime Cortesão



Bibliografia:

Memórias da Grande Guerra (1916-1919), Jaime Cortesão

Biblioteca Nacional de Portugal, Espólios