20 maio 2009

Entrevista exclusiva do capitão Salgueiro Maia (1974)

Entrevista exclusiva do capitão de Abril, Salgueiro Maia.



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Fonte:

Centro de Documentação 25 de Abril - Universidade de Coimbra

17 maio 2009

Ferreira de Castro

"Nas noites de luar, quando o grande balão de oiro surge na lomba das montanhas, o vale enche-se de magia, dum sortilégio que paira desde os píncaros longínquos às águas sussurrantes do Caima. De manhã é o milagre, todos os dias há um milagre de luz sobre a terra quando o sol nasce em Vale de Cambra."

Sobre Vale de Cambra

“Trepava a água às viçosas plantações, depenando toda a terra que braços fortes tinham roçado para a obra da criação. E os mais desprevenidos viam até ir na corrente, desfeito com vigor daninho, o lar que haviam fundado ao alcance de intrusa. Era a desolação e era a pobreza que a grande toalha impura trazia nas suas dobras”.

A Selva




«Eu nasci a 24 de Maio de 1898. Mas, quando penso na minha idade, sinto-me sempre mais novo, sinto-me sempre beneficiado por quatro anos a menos. São quatro anos iguais a um noite escuríssima, onde não é possível acender luz alguma. Não os viveu o meu espírito. Não estão na minha memória. Não me pertencem. Para a minha realidade espiritual eu tenho 28 anos. É que em 1902 que começo a povoar o museu da minha vida, a decorar a galeria das minhas recordações. Foi numa tarde de sol – tarde de luz forte que eu vejo ainda – que dei início ao longo da casa onde nasci. A diabrura que pratiquei, desvaneceu-se no esquecimento, mas lembro-me, sim, que minha mãe, saindo do quinteiro e agarrando-me por um braço, castigou-me. Passava na estrada, enxada ao ombro, um homem alto, bigodes retorcidos festonando as faces trigueiras. Deteve-se, sorriu e disse:
- “Assim é que é, senhora Mariquinhas! Nessa idade é que eles se ensinam”.
Odiei aquele homem. Por que, em vez de me proteger com a sua força, ele estimulava minha mãe a castigar-me ainda mais? Por que era ele tão mau e por que sorria vendo-me sofrer, se eu não nunca lhe tinha feitio mal?
É esta a minha recordação. E foram de ódio e de sofrimento as primeiras sensações que a vida me deu. Eu tinha quatro anos e meio»

«Quando vinha com minha mãe ao mercado de Oliveira de Azeméis, passava por uma meia porta e via lá uma máquina a trabalhar, a tirar o jornal; aquilo parecia-me uma obra de Deus e o meu sonho todo, tinha 9 anos, seria escrever umas coisas para aquele jornal, para a «Opinião». Se alguém podia ter feito a felicidade de uma criança, seria aquele jornal.»

« ...Na minha aldeia fiz a instrução primária; no seringal, lia todos os livros que conseguia encontrar, o que estava muito longe de ser suficiente. Eu sou autodidacta. Não posso mesmo dizer que estudei no que isto significa de disciplina, pois tudo o que aprendi, desde as línguas que me permitissem conhecer o espírito dos outros povos, até à Sociologia e a Filosofia, que tanto me interessavam, o fiz sem esforço... e graças a isso, todas as minhas incursões no mundo do conhecimento humano foram agradáveis em vez de penosas»
Ferreira de Castro passou cerca de quatro anos em plena selva e só não foi cortar borracha por causa da sua idade, ficando empregado no armazém do “aviador”... Em plena selva amazónica, escreveu as primeiras tentativas literárias ... Aos 14 anos de idade, sua vocação literária levava-o a escrever a sua primeira novela, intitulada “Criminoso por Ambição”...




«José Maria Ferreira de Castro nasceu a 24 de Maio de 1898, no lugar de Salgueiros, freguesia de Ossela, concelho de Oliveira de Azeméis. De origens humildes, órfão de pai, a sua educação foi rude e exigente, influenciando a sua personalidade triste e amargurada. Em 1904 entra para a escola primária de Ossela, que lhe confere as únicas habilitações que possui, motivo do qual se orgulhava. Interessa-se desde muito cedo pela leitura, adquirindo todas as obras de cordel que a sua parca condição financeira podia suportar.
Passa os primeiros anos da sua vida em intensa comunhão com a natureza do vale banhado pelo rio Caima, em Ossela.

Aos 12 anos de idade emigra para o Brasil, passando parte da sua adolescência, de início no Seringal Paraíso, no interior da Amazónia, e posteriormente, em Belém do Pará, onde trabalhou arduamente para conseguir subsistir.

Em 1916 consegue publicar o romance "Criminoso por Ambição", que distribui porta a porta. A partir daí, começa a colaborar com alguns jornais locais, estabelecendo, a pouco e pouco, relações com pessoas que lhe abrem o caminho na vida jornalística. Produz e publica, por esta altura, algumas novelas, que, apesar de renegadas mais tarde, lhe começam a conferir alguma notoriedade.
Contudo, só em 1928, com a publicação de Emigrantes, se inicia definitivamente a sua carreira literária, alcançando notória consagração em 1930, ano em que publica a Selva, a obra lusófona com mais traduções feitas.
Com este sucesso editorial, quer em Portugal, quer no estrangeiro, consegue, através da publicação de diversos e sucessivos êxitos literários, alimentar a auréola da notoriedade até falecer, em 1974, com 76 anos de idade. Mas, para além da notoriedade literária, a personalidade humanista de Ferreira de Castro, que tão bem alimentou a sua obra, constituiu uma referência cívica e moral na luta contra o regime ditatorial e em prol dos direitos humanos.»



«Nasce o homem e, se não dispõe de riqueza acumulada pelos seus maiores, fica a mais no Mundo. Entra na vida -- já se disse e é bem certo -- como as feras nos antigos circos -- para a luta! Luta para criar o seu lugar, luta contra os outros homens, luta pelas coisas mesquinhas e não pelas verdadeiramente nobres, por aquelas que contribuiriam para uma maior elevação humana. Para essas quase não há tempo de existência de cada um.»
[do «Pórtico»], Ferreira de Castro, Emigrantes


Emigrantes

" Preta e branca, preta e branca, o preto mui luzidio e muito níveo o branco, a pega, de cauda trémula, inquieta, saracoteava entre carumas e urgeiras, esconde aqui, surge ali, e por fim erguia voo até a copa alta do pinheiro, levando no bico ramo seco ou graveto.
O pinhal, todo de troncos grossos, casca áspera e gretada, adormecia austeramente, no diáfano silêncio da tarde primaveril. As suas pinhas dir-se-iam incopuladas ou corroídas pelo antídoto maltusianista, porque, cá em baixo, no solo castanho e acidentado, nenhum pinheiro infante erguia para o céu os bracitos verdes. Os caules nus, quasi negros, assimétricos, eram colunas dum templo bárbaro, em cuja cúpula transparente o sol ia tecendo prateada e fantasiosa malha. Por vezes, o tecido incorpóreo esfarrapava-se e descia, em fluidos caprichosos, até aos galhos, onde formava pulseiras, ou até ao chão, onde coagulava em jóias bizarras.
Ao fundo, cortando o declive, estendia-se a linha avermelhada dum valado, que cedia terreno e entrincheirava uma multidão cerrada de pinheiros adolescentes e mui viçosos - a prole que os velhos não quizeram cobrir com as suas asas seculares.
Á esquerda, para lá ainda da falda do outeiro, es … "

In "Os Emigrantes", capitulo "Primeira Parte"

A Selva

" Fato branco, engomado, luzido, do melhor H. J. que teciam as fábricas inglesas, o senhor Balbino, com um chapéu de palha a envolver-lhe em sombra metade do corpo alto e seco, entrou na "Flor da Amazónia" mais rabioso do que nunca.
Ter andado de Herodes para Pilatos, batendo todo o sertão do Ceará no recrutamento dos tabaréus receosos das febres amazonenses e tranquilos sobre o presentes, porque há anos não havia secas, e afinal, depois de tanto trabalho, de tantas palavras e canseiras fugirem-lhe nada menos de três! Que diria Juca Tristão, que o tinha por esperto e exemplar, quando ele lhe aparecesse com três homens a menos no rebanho que vinha pastoreando desde Fortaleza ?. E o Caetano, que ambicionara aquele passeio por conta do seringal e que assistira, roído de inveja, à sua partida ? Rir-se-iam dele… Quási dois contos atirados por água-abaixo !
No topo da escada, esbatendo-se na penumbra, surgiu o abdómen e logo o rosto avermelhado de Macedo, proprietário da "Flor da Amazónia": … "

In "A Selva", capitulo I

A Curva da Estrada

" Encontavam-se os três à mesa de jantar e o velho relógio de pêndula onze horas menos um quarto. Mercedes mostrava-se impaciente.
-Ramona! -gritou. -Então o café? E dirigindo-se ao irmão e ao sobrinho: -Esta mulher está cada vez pior !
Ouviam-se já os passos da criada no corredor e, logo que ela entrou na sala, Mercedes censurou-a:
-Por mais que eu repita, há-de ser sempre isto! A comida nunca está pronta a horas! Jantamos sempre tarde.
Ramona não se justificou, mas, pelos seus modos, Soriano compreendeu que ela resmungava por dentro. E parecia que o silêncio e a imobilidade de Paco apoiavam e aumentavam a razão de Mercedes.
-Em Espanha janta-se sempre tarde demais -disse. Soriano, em tom conciliador, assim que a criada saiu, depois de ter servido o café. … "

In "A Curva na Estrada" capitulo I


“Os Escritores”

“São os escritores os argonautas de todos os mares convulsos da alma e os aeronautas de todos os céus tranquilos da Beleza.
Eles são como espelhos onde a tragédia procura alinhar a sua cabeleira desgrenhada e as suas penas são como termómetros que marcam todos os graus da dôr humana. E adentro da Vida os escritores são maiores do que o mito de deus, poque êles não só desvendam a alma do Homem, como criam à margem da vida um homem mais perfeito do que aquele que a lenda afirma ter deus criado.”

In “A Epopeia do Trabalho”, “Os Escritores”


“SCENA XI”
“ANNA: (Esfarrapada, cabelos em desalinho, sentada numa das margens do rio, soluça) -... Tão bonita foi a minha vida. Moça, adorada por todos da freguesia, era uma rainha. Cazei-me e com o meu marido que é um homem trabalhador, honesto, vivia feliz. A felicidade ainda chegou a redobrar, quando vieram os nossos filhinhos. Mas... não há bem que sempre dure... Veio a Allemnha querendo, com as suas forças superiores, tomar-nos o que mais do que legitimamente era nosso. (Pausa). O meu Manuel foi um dos primeiros que chamaram para defender a patria.
Foi, e nós, que vivíamos do seu trabalho, começamos a passar miseria.
Vendi a minha honra para arrancar á fome o ultimo dos meus filhinhos, mas já era tarde; como o primeiro, morreu por não ter que comer.
O malvado, o miserável que, valendo-se do meu amor materno, saciou os seus ludibinosos desejos, abandonou-me. (Aperta, com as mãos, a cabeça). Eu bem sabia que elle faria isso. Vendi-me, mas foi para salvar o meu filho, mas... Deus não o quis na terra. (Pausa).
Para que me serve agora a vida, ó meu Deus?! Sem filhos, esses pedaços do meu coração; deshonrada, indigna de unir-me ao meu marido; exhausta; esfarrapada; esfomeada; cheia de remorsos... para que quero eu a vida? (Levanta-se. Ao longe ouve-se um canto melancólico que se aproxima). Ó Alemanha, Alemanha, sê maldita! (Atira-se ao rio. O palco fica um momento deserto. Depois aparecem correndo para a margem do rio, duas pastoras).

Alma Lusitana (Peça em 6 quadros e 2 actos)






Fontes:

Casa Museu Ferreira de Castro


Centro de Estudos Ferreira de Castro


Biblioteca Municipal Ferreira de Castro

Associação Prémio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro

Albert Battel


Albert Battel (21 de Janeiro de 1891 - 1952) foi um ( Wehrmacht) oficial alemão, advogado, e humanitário.

Battel nasceu em Klein-Pramsen, na Silésia prussiana. Após servir na I Guerra Mundial, estudou Economia e Jurisprudência em Munique e em Breslau (Wrocław).
Com cinquenta e um anos de idade era oficial de reserva. Battel estava estacionado em Przemyśl no sul da Polónia, onde era ajudante do comandante militar local, o Major Max Liedtke. Quando as SS se preparavam para lançar a primeira "reinstalação" (liquidação) de judeus em Przemyśl a 26 de Julho de 1942, Battel, em consorcio com o seu superior hierárquico, ordenou o bloqueio da ponte sobre o Rio San, o único acesso para a gueto judeu.

O comando local das SS tentou atravessar a ponte bloqueada, no entanto sargento-ajudante de guarda da ponte ameaçou abrir fogo a menos que se retirassem. Tudo isso aconteceu em plena luz do dia, para o espanto dos habitantes locais.

Pouco tempo depois, nessa mesma tarde, um destacamento do exército sob o comando de Albert Battel invadiu a área do gueto e utilizando camiões do exército, evacuou mais de 100 famílias judias para o quartel do comando militar local. Estes judeus foram colocados sob a protecção da Wehrmacht e foram, portanto, protegidos da deportação para o acampamento-extermínio de Belzec.

Após este incidente, as autoridades SS começaram uma investigação em segredo para averiguar a conduta do oficial do exército que ousou desafia-los sob as referidas circunstâncias. Ele viu que Battel, embora fosse membro do Partido Nazi desde Maio de 1933, já havia sido noticia no passado pelo seu comportamento amigável para com os judeus. Antes da guerra havia sido indiciado por ter feito um empréstimo a um colega judeu. Mais tarde, no decurso do seu serviço em Przemyśl, ele foi cordialmente advertido por "apertar" a mão do presidente do Conselho Judaico. Toda a questão chegou a atenção do mais alto nível da hierarquia Nazi. Nada menos do que Heinrich Himmler (Reichsführer-SS, chefe das SS), que teve um interesse nos resultados do inquérito e enviou uma cópia da documentação incriminatória para Martin Bormann, chefe da Chancelaria do Partido e braço direito de Adolf Hitler. Na carta de acompanhamento, Himmler jurou que o advogado fosse preso imediatamente após o fim da guerra.

Toda esta investigação permaneceu desconhecida para Battel. Em 1944, teve alta do serviço militar por causa de doença cardíaca. Quando voltava para sua cidade natal (Breslau), caiu em cativeiro pelos Soviéticos. Após a sua libertação, regressou Republica Federal Alemã, mas foi impedido de voltar a exercer a advocacia por decisão de tribunal. Morreu em 1952 em Frankfurt.

A sua posição contra as SS (bloqueando a ponte), só ficou reconhecida muito tempo depois da sua morte, especialmente, através do esforço tenaz do investigador israelita e advogado Dr. Zeev Goshen.

Em 22 de Janeiro de 1981, quase 30 anos após sua morte, Yad Vashem decidiu reconhecer Albert Battel como: "Justos entre as Nações", tendo uma árvore com o seu nome em Israel.


Fontes:

en.wikipedia.org

Righteous Among the Nations

Auschwitz - Os Nazis e a Solução Final, BBC, 3º episódio

10 maio 2009

Os Homens-Rãs

O ataque aos couraçados «Valiant» e Queen Elisabeth», fundeados no porto de Alexandria, realizado por seis homens-rãs italianos, transportados até ao próprio local do ataque pelo submarino «Sciré», deixou estupefacto o Almirantado Britânico J. D. Ratcliff faz aqui o seu relato desta proeza.


« Querida mãezinha:
Quando receberes esta carta, já terei deixado de existir. Ofereci-me como voluntário para realizar uma perigosa missão que fracassou...»
«Quinze dias antes do Natal de 1941, o tenente de marinha Luigi Durand de La Penne escrevera três cartas destinadas a sua mãe. Esta era a primeira; noutra anunciava-lhe que havia triunfado; e, na terceira, que caíra prisioneiro. Terminada a sua missão, enviariam a sua mãe a carta que correspondesse á realidade.

(Luigi DURAND DE LA PENNE)
La Penne, um belo rapaz de 27 anos, alto e de aparência desportiva, estava prestes a empreender uma empresa digna de figurar em lugar de relevo no livro de oiro da História: com o seu grupo - seis homens, na totalidade, e sem armas - devia atacar a Armada Britânica concentrada no porto de Alexandria. Nesse corpo a corpo, tremendamente desproporcionado, que oporia homens de 70 quilos a couraçados de 32000 toneladas, iria conseguir, além de uma brilhante vitória naval, a admiração do seu principal adversário. Winston Churchill afirmou que esta façanha representava «um notável exemplo de coragem e habilidade».
A guerra encontrava-se num momento crítico quando La Penne recebeu a missão de afundar as principais unidades da frota britânica do Mediterrâneo. Por causa da acção dos submarinos, os Britânicos acabavam de perder um couraçado e um porta-aviões.
Os dois couraçados que restavam á Inglaterra no Mediterrâneo tinham-se refugiado mo porto de Alexandria. La Penne e os seus voluntários deviam ir atacá-los, montados em três minúsculos submarinos que os homens-rãs denominavam «porcos» (Maiale).
Um «porco» media 6,50 m de comprimento; a sua propulsão, eléctrica, era silenciosa; a velocidade de 3 a 5 quilómetros por hora e o raio de acção de 16 quilómetros. O aparelho estava provido na «cabeça», de uma carga explosiva, desmontável, com o peso de 300 quilos. Uma vez no porto, cada um dos três grupos de dois homens devia aplicar a sua carga explosiva no casco do objectivo que lhe fora confiado e depois fugir - se pudesse.
As probabilidades de voltar são e salvo de semelhante missão eram mínimas. Por esse motivo, aconselhara-se a La Penne e aos seus homens que fizessem testamento e fizera-se um embrulho com os seus objectos pessoais, para serem enviados ás famílias no caso de que...

A 18 de Dezembro, os três grupos estão já a bordo de um submarino, o «Sciré», que repousa no fundo do mar, á entrada de Alexandria. Dentro do porto encontram-se, segundo confirmam os últimos boletins de informação, os couraçados «Valiant» e «Quenn Elizabeth».
La Penne e o seu companheiro de grupo, o contramestre Emílio Bianchi, terão o Valiant como objectivo; o tenente de marinha António Marceglia e Spartaco Schergart o «Queen Elizabeth». Quanto aos tenentes Vicenzo Martellotta e Mário Marino, deverão atacar um barco-cisterna de 16000 toneladas e semear em seguida bombas incendiárias flutuantes, confiando em que o petróleo derramado pelo barco-cisterna incendeie todo o porto. Terminado o seu trabalho, os três grupos dirigir-se-ão a nado para a margem e, dali, em algum barco de pesca roubado, seguirão para um lugar designado de antemão, onde irá recolhê-lhos, em 24 de Dezembro, um submarino Italiano.



Pouco antes das 21 horas, os tripulantes dos «porcos» envolvem-se, mal ou bem, nos seus apertados fatos de borracha. Depois os pequenos aparelhos são lançados á água e metem proa, lentamente até ao farol de Ras-el-Tin, que se destaca a 1500 metros de distância. Quando os seis homens montaram nos seus «porcos» apenas as cabeças emergem da água. As explosões hão-de ser provocadas por foguetes de efeito retardado. O barco-cisterna, segundo os cálculos irá pelos ares ás 5 horas e 55 minutos; o «Valiant» ás 6 horas e 5 minutos e o «Queen Elizabeth» ás 6 horas e 15 minutos. Os homens dispõem, portanto, de algum tempo para saborear o que será, talvez, a sua ultima refeição. Tiram frango frio e umas garrafinhas com champanhe, de uma caixa impermeável - e comem e bebem.

Chegou finalmente, o momento de se aproximarem das redes de aço que protegem a entrada do porto. Os «porcos» estão apetrechados com tesouras apropriadas, mas estas fazem demasiado ruído e as redes estão frequentemente carregadas de electricidade... La Penne hesita, reflectindo sobre o que lhe convém fazer. De repente, o farol e o porto iluminam-se: alguns barcos dispõem-se a entrar!
As redes afastam-se pra lhes dar passagem.
- Vamos! - ordena La Penne.
Três contratorpedeiros surgem da sombra; na sua esteira, saltando desordenadamente, vão os três pequenos «porcos».

Já no porto, os homens-rãs ocupam-se a localizar os seus alvos. La Penne e Bianchi aproximam-se do «Valiant», mas esbarram com uma rede protectora. Tentam levantá-la; pesa excessivamente. Para franquear o obstáculo, apenas há uma solução: passar-lhe por cima, sem despertar as atenções. A manobra resulta bem, com grande alívio deles. Voltam imediatamente a submergir.
O sítio melhor para a colocação da carga explosiva é debaixo da torre de comando. La Penne sobe á superfície para comprovar pela última vez a posição exacta e desenrola uma delgada corda que lhe servirá para regressar ao seu «porco». Mas, quando de novo submerge, o aparelhe nega-se a avançar: a corda - pensa - deve ter-se enrolado na hélice. Volta-se para Bianchi, para lhe indicar por sinais que a desenrede. Mas Bianchi desapareceu!
Agora tem de terminar o seu trabalho sozinho.
A carga explosiva encontra-se ainda a 30 metros da sua posição definitiva. Com as suas mãos nuas, que o fio entorpece, La Penne começa a arrastar pelo lodo, centímetro a centímetro, aquele fardo de 300 quilos. Depois de quase uma hora de trabalho esgotante, a carga fica no sitio desejado; mas La Penne está demesiadamente cansado para fixá-la ao casco. Tem a certeza, entretanto, de que fará o efeito pretendido, já que repousa no fundo a 1,50 m somente da quilha do navio. São 3 horas: faltam ainda mais 3 horas para a explosão.
La Penne está prestes a perder os sentidos.
Ao subir á superfície, produz um «clac» quase imperceptível, suficiente, contudo, para alertar o marinheiro de guarda na ponde do «Valiant». Projectores, saraivada de balas. La Penne descobre uma bóia de ancoragem e nada até lá. Por detrás dela estará protegido. Mas alguém ali se encontra também: Bianchi! Tendo-se-lhe avariado a máscara respiratória, desmaiou enquanto subia á superfície; logo que voltou a si, nadou até á bóia.
Não tarda a chegar uma lancha onde os dois homens são embarcados. No «Valiant», o oficial de guarda procede ao seu interrogatório: são 3 horas e 30 minutos. Os dois prisioneiros negam-se a dar qualquer informação. Separam-nos.
La Penne é encerrado num armazém da coberta inferior, por cima da carga explosiva, pouco mais ao menos. Um marinheiro compassivo dá-lhe um copo de aguardente e um maço de cigarros, para o reanimar. Já só lhe resta como andam depressa os ponteiros do seu relógio: 5 horas e 30, 5 horas e 40 minutos...

Ouve-se um estrondo longínquo. O grupo de Martellotta acaba de fazer saltar o navio-cisterna. A popa ficou completamente destruída e um contratorpedeiro que estava fundeado perto sofreu avarias; mas as bombas incendiárias não explodiram. São 5 horas e 54 minutos; só faltam 11 minutos. La Penne golpeia insistentemente com os punhos a porta da sua prisão; pede para ser levado á presença do capitão. É o comandante Charles Morgan.
- O barco vai pelos ares dentro de dez minutos - diz La Penne. - Não quero ser culpado de mortes inúteis. No seu lugar, capitão, eu faria subir toda a tripulação para a coberta.
- Diga-me - exige Morgan - o lugar exacto em que foi colocada a carga. Se se nega a responder, o meu dever á mandá-lo outra vez para baixo.
La Penne recusa-se; se Morgan soubesse que a carga repousa no fundo do mar, bastar-lhe-ia fazer o navio mudar de posição para o afastar do perigo. Enquanto é outra vez conduzido ao seu cárcere ocasional, o prisioneiro ouve os altifalantes de bordo difundirem a ordem: «Toda a gente para a coberta!»

Os olhos, agora, cravam-se no relógio, cujo ponteiro de segundos está a marcar, sem dúvida, os últimos instantes da sua vida. Terá, pelo menos, ajustado com exactidão o foguete de explosão retardada? É impossível fazê-lo com uma precisão de segundos. De súbito - são 6 horas e 6 minutos - a explosão produz-se.
O «Valiant» é agitado por sacudidelas convulsivas e enche-se de fumo. La Penne é atirado até ao outro extremo da sua cela e perde por momentos os sentidos. Ao recuperar o conhecimento, a onda explosiva abrira a porta. Sem que nínguem repare nele, sobe á coberta e fixa o olhar no «Queen Elizabeth», muito próximo do «Valiant»! Breve chegará a sua vez... São exactamente 6 horas e 15 minutos quando se dá a terrível explosão. Marceglia colocara a carga destinada ao couraçado precisamente por baixo da casa das máquinas; o óleo pesado sai pelas chaminés e derrama-se como um aguaceiro sobre o «Valiant» e sobre todo o porto. Os três barcos alcançados vão a pique mas ficam quase direitos, em virtude de não serem muito profundas as águas do porto.

As fotografias tiradas no dia seguinte á explosão, pelos aviões de reconhecimento, foram interpretadas correctamente pelos oficiais italianos: o «Valiant» estava escorado a bombordo; o «Queen Elizabeth» tinha a proa afundada; tornava-se evidente que os dois navios se encontravam seriamente avariados.
Mas Mussolini não ligou importância á informação dos especialistas. Como ninguém podia contradizê-lo, a frota italiana permaneceu nos portos e desperdiçou a sua melhor oportunidade, mas também é verdade que os Ingleses fizeram o impossível para manter Mussolini no seu tresloucado erro, mas isso já sãos outras histórias.

Quanto aos seis homens-rãs, foram feitos prisioneiros. Levaram La Penne para o Cairo e, depois, para a Palestina; daí consegui fugir para a Síria. De novo preso e embarcado para a Índia, voltou a escapar, mas uma vez mais foi aprisionado.
Foi posto em liberdade em 1943, pouco depois da assinatura do armistício com a Itália, e prestou serviços aos Aliados; foi em grande parte graças a ele que se descobriu um plano alemão que consistia, no momento de evacuar La Spezia, em obstruir a entrada do porto. Na entrada da barra deviam ser destruídos vários navios.
Mas os homens-rãs mergulharam oportunamente, tudo fazendo para os afundar antes que chegassem á barra; entre esses homens estava La Penne.

Em 1945 realizou-se uma cerimónia pouco vulgar. O príncipe herdeiro de Itália, Humberto, ia condecorar La Penne com a mais alta distinção nacional, a «Medaglia d'Ouro», quando um dos convidados se adiantou; era o contra-almirante Charles Morgan, comandante das forças navais britânicas com base em Itália, o antigo capitão do «Valiant». Não se esquecera de que, graças ao aviso dado por La Penne, a sua tripulação, composta por 1700 homens, não sofrera uma baixa sequer.
E o almirante britânico pediu ao príncipe que concedesse a honra de condecorar, com aquela insígnia da coragem, o homem-rã italiano».




Percursos das três equipas






Bibliografia:

«Italy's gallant frogman», The Reader's Digest, Pleasantville, Agosto 1958

Ministero Della Difesa, Marina Militare, LA NOSTRA STORIA

Comando Supremo, Italy at War

Foro Armas Blancas, Historia de buzos