Entrevista exclusiva do capitão de Abril, Salgueiro Maia.
















Fonte:
Centro de Documentação 25 de Abril - Universidade de Coimbra
“Trepava a água às viçosas plantações, depenando toda a terra que braços fortes tinham roçado para a obra da criação. E os mais desprevenidos viam até ir na corrente, desfeito com vigor daninho, o lar que haviam fundado ao alcance de intrusa. Era a desolação e era a pobreza que a grande toalha impura trazia nas suas dobras”.
A Selva
«Eu nasci a 24 de Maio de 1898. Mas, quando penso na minha idade, sinto-me sempre mais novo, sinto-me sempre beneficiado por quatro anos a menos. São quatro anos iguais a um noite escuríssima, onde não é possível acender luz alguma. Não os viveu o meu espírito. Não estão na minha memória. Não me pertencem. Para a minha realidade espiritual eu tenho 28 anos. É que em 1902 que começo a povoar o museu da minha vida, a decorar a galeria das minhas recordações. Foi numa tarde de sol – tarde de luz forte que eu vejo ainda – que dei início ao longo da casa onde nasci. A diabrura que pratiquei, desvaneceu-se no esquecimento, mas lembro-me, sim, que minha mãe, saindo do quinteiro e agarrando-me por um braço, castigou-me. Passava na estrada, enxada ao ombro, um homem alto, bigodes retorcidos festonando as faces trigueiras. Deteve-se, sorriu e disse:
«José Maria Ferreira de Castro nasceu a 24 de Maio de 1898, no lugar de Salgueiros, freguesia de Ossela, concelho de Oliveira de Azeméis. De origens humildes, órfão de pai, a sua educação foi rude e exigente, influenciando a sua personalidade triste e amargurada. Em 1904 entra para a escola primária de Ossela, que lhe confere as únicas habilitações que possui, motivo do qual se orgulhava. Interessa-se desde muito cedo pela leitura, adquirindo todas as obras de cordel que a sua parca condição financeira podia suportar.
" Preta e branca, preta e branca, o preto mui luzidio e muito níveo o branco, a pega, de cauda trémula, inquieta, saracoteava entre carumas e urgeiras, esconde aqui, surge ali, e por fim erguia voo até a copa alta do pinheiro, levando no bico ramo seco ou graveto.
" Fato branco, engomado, luzido, do melhor H. J. que teciam as fábricas inglesas, o senhor Balbino, com um chapéu de palha a envolver-lhe em sombra metade do corpo alto e seco, entrou na "Flor da Amazónia" mais rabioso do que nunca. “São os escritores os argonautas de todos os mares convulsos da alma e os aeronautas de todos os céus tranquilos da Beleza.
Eles são como espelhos onde a tragédia procura alinhar a sua cabeleira desgrenhada e as suas penas são como termómetros que marcam todos os graus da dôr humana. E adentro da Vida os escritores são maiores do que o mito de deus, poque êles não só desvendam a alma do Homem, como criam à margem da vida um homem mais perfeito do que aquele que a lenda afirma ter deus criado.”
“SCENA XI”
“ANNA: (Esfarrapada, cabelos em desalinho, sentada numa das margens do rio, soluça) -... Tão bonita foi a minha vida. Moça, adorada por todos da freguesia, era uma rainha. Cazei-me e com o meu marido que é um homem trabalhador, honesto, vivia feliz. A felicidade ainda chegou a redobrar, quando vieram os nossos filhinhos. Mas... não há bem que sempre dure... Veio a Allemnha querendo, com as suas forças superiores, tomar-nos o que mais do que legitimamente era nosso. (Pausa). O meu Manuel foi um dos primeiros que chamaram para defender a patria.
Foi, e nós, que vivíamos do seu trabalho, começamos a passar miseria.
Vendi a minha honra para arrancar á fome o ultimo dos meus filhinhos, mas já era tarde; como o primeiro, morreu por não ter que comer.
O malvado, o miserável que, valendo-se do meu amor materno, saciou os seus ludibinosos desejos, abandonou-me. (Aperta, com as mãos, a cabeça). Eu bem sabia que elle faria isso. Vendi-me, mas foi para salvar o meu filho, mas... Deus não o quis na terra. (Pausa).
Para que me serve agora a vida, ó meu Deus?! Sem filhos, esses pedaços do meu coração; deshonrada, indigna de unir-me ao meu marido; exhausta; esfarrapada; esfomeada; cheia de remorsos... para que quero eu a vida? (Levanta-se. Ao longe ouve-se um canto melancólico que se aproxima). Ó Alemanha, Alemanha, sê maldita! (Atira-se ao rio. O palco fica um momento deserto. Depois aparecem correndo para a margem do rio, duas pastoras).
Alma Lusitana (Peça em 6 quadros e 2 actos)

La Penne, um belo rapaz de 27 anos, alto e de aparência desportiva, estava prestes a empreender uma empresa digna de figurar em lugar de relevo no livro de oiro da História: com o seu grupo - seis homens, na totalidade, e sem armas - devia atacar a Armada Britânica concentrada no porto de Alexandria. Nesse corpo a corpo, tremendamente desproporcionado, que oporia homens de 70 quilos a couraçados de 32000 toneladas, iria conseguir, além de uma brilhante vitória naval, a admiração do seu principal adversário. Winston Churchill afirmou que esta façanha representava «um notável exemplo de coragem e habilidade».
A 18 de Dezembro, os três grupos estão já a bordo de um submarino, o «Sciré», que repousa no fundo do mar, á entrada de Alexandria. Dentro do porto encontram-se, segundo confirmam os últimos boletins de informação, os couraçados «Valiant» e «Quenn Elizabeth».
Pouco antes das 21 horas, os tripulantes dos «porcos» envolvem-se, mal ou bem, nos seus apertados fatos de borracha. Depois os pequenos aparelhos são lançados á água e metem proa, lentamente até ao farol de Ras-el-Tin, que se destaca a 1500 metros de distância. Quando os seis homens montaram nos seus «porcos» apenas as cabeças emergem da água. As explosões hão-de ser provocadas por foguetes de efeito retardado. O barco-cisterna, segundo os cálculos irá pelos ares ás 5 horas e 55 minutos; o «Valiant» ás 6 horas e 5 minutos e o «Queen Elizabeth» ás 6 horas e 15 minutos. Os homens dispõem, portanto, de algum tempo para saborear o que será, talvez, a sua ultima refeição. Tiram frango frio e umas garrafinhas com champanhe, de uma caixa impermeável - e comem e bebem.
Chegou finalmente, o momento de se aproximarem das redes de aço que protegem a entrada do porto. Os «porcos» estão apetrechados com tesouras apropriadas, mas estas fazem demasiado ruído e as redes estão frequentemente carregadas de electricidade... La Penne hesita, reflectindo sobre o que lhe convém fazer. De repente, o farol e o porto iluminam-se: alguns barcos dispõem-se a entrar!
Já no porto, os homens-rãs ocupam-se a localizar os seus alvos. La Penne e Bianchi aproximam-se do «Valiant», mas esbarram com uma rede protectora. Tentam levantá-la; pesa excessivamente. Para franquear o obstáculo, apenas há uma solução: passar-lhe por cima, sem despertar as atenções. A manobra resulta bem, com grande alívio deles. Voltam imediatamente a submergir.
condecorar La Penne com a mais alta distinção nacional, a «Medaglia d'Ouro», quando um dos convidados se adiantou; era o contra-almirante Charles Morgan, comandante das forças navais britânicas com base em Itália, o antigo capitão do «Valiant». Não se esquecera de que, graças ao aviso dado por La Penne, a sua tripulação, composta por 1700 homens, não sofrera uma baixa sequer.