05 outubro 2009

Diário de Campanha II - Primeira Guerra Mundial



DIARIO DE CAMPANHA

Do Capitão X...

Quarta-feira, 2 de Maio. Acordo pelas sete horas da manha. Sento-me sobre o meu leito de campanha, ponho em movimento as articulações e vejo, a um palmo do meu nariz, um prato onde uma talhada de prezunto fraternisa com um ovo estrellado. É o first-breakfast, que um tenente me estende. Devoro-o, bem como uma tapioca com assucar que sobrevem, regando-os com optima ceraveja. Uma chavena de chá, umas torradas, uma cachimbada de tabaco louro e o dia começa.
Cá fora da toca o sol está explendido. Passaritos cantam no terrapleno, soldados inglezes fazem a barba e nós oficiaes procedemos á nossa toilette. Nunca, nem mesmo nas trincheiras, um subdito de Sua Magestade britanica deixaria de se barbear todos os dias. Barbeiam-se de côr, sem espelho, com navalhas ageis e delgadas que passam como uma caricia sobre pelles maravilhosas de frescura e de côr.

D'alli a pouco partimos para a ronda da manhã. O mesmo itinerario da véspera, mas agora á luz clara do sol. Reconheço locaes entrevistos de noite, cruzo a cada passo os meus homens, que andam de parceria com os seus camaradas, fazendo a limpeza das trincheiras, esgotando agua á bomba, cavando regueiras, concertando parapeitos, isto emquanto outros nos postos de serviço entreteem o tempo limpando as armas. A desposição dos meus rapazes é excellente. Encontro-os a conversar no melhor portuguez com os inglezes que os escutam muitos sérios e como se entendem não sei. Ha frases que ouço a meúdo:
- « Quand guerre finish, bonne ! dizem os inglezes.
- « Yess! yess ! respondem os nossos.
- « Boches, pas bonnes...
- « Yess, yess, concordam os portuguezes.
De vez em quando um inglez toca no braço d'um soldado nosso e diz-lhe:
- « Come on. Promemade !
E lá vão os dois a uma fachina qualquer. Pergunto aos meus camaradas britanicos que impressão teem dos nossos soldados. Em cada posto peço ao capitão que consulte os seus sargentos e cabos. E, felizmente para mim e para honra de Portugal, a resposta é sempre a mesma.
- « Solids ! Bonnes !
Direi mesmo que para cavar e dar á bomba um portuguez valle bem dois inglezes. Quanto á sua serenidade sob fogo, basta que registe o espanto de um sargento inglez, que não podia perceber como, na ocasião do bombardeio, os nossos soldados ahiam dos abrigos para ir espreitar por cima dos parapeitos.
- « Para ver d'onde ellas vinham, meu capitão », explica-me um dos meus rapazes.
Um pouco de inconsciencia talvez, mas muita valentia afinal.
No fim da nossa ronda palmilhamos mais uns kilometros de trincheiras e chegamos ao posto de comando do batalhão.

Ahi, como sempre, o major e o comandante da brigada, que alli veiu de visita, me acolhem com toda a gentileza. Dentro da zona ingleza ha cerveja, cigarros e tabaco para cachimbo permanentes. O coronel e o major indagam do capitão o que se passou de noite e pedem noticias dos portuguezes. As companhias que me precederam deixaram boa impressão e a minha não desmerece da opinião formada. Visitamos o posto de socorro, primeiro escalão da assistência médica. Ha um major medico curiosissimo, fallando admiravelmente o francez e que passeiou o seu nariz exorbitante por Gallipolis e pelo Egypto antes de vir para França onde se sente felicissimo, sem querer largar o serviço das trincheiras.
Falla-se da duração da guerra. Acaba este anno, dizem todos.
O coronel diz-me que os portuguezes devem ser bons soldados. Respondo-lhe que a história da guerra peninsular, alem de outros documentos, é garantia das qualidades militares da nossa raça.
Shake hands fraternal e alliado, cerveja, cigarrada.

Regressamos, o capitão G. e eu ao nosso abrigo e já é hora de nova refeição. Continuo com um apetite admiravel. Um sargento informa-nos de que não há novidade. Apenas a arthilharia grossa continua o seu duêto. Sobre as nossas cabeças passam silvando granadas que, segundo consta, vão escavacar o acantonamento de onde saimos hontem. Um aeroplano inglez tenta voar sobre as linhas allemãs. Fazem-lhe uma barragem aerea e elle brinca, volta sobre as asas, sig-zagueia até voltar para trás. Faz calor e o captain senta-se á chineza sobre a cama e começa a escrever uma carta à que há-de ser M.me G., peut-être, apres la guerre...Tiro do meu saco La philosophie de Georges Courteline e leio algumas saborosas paginas. Pela porta aberta do abrigo, enquanto o sol escalda cá fora, passam soldados inglezes e portuguezes e busco adivinhar as preocupações d'estes. Vejo-os serenos, girando n'aquelle dedalo de caminhos enterrados como se estivessem n'uma parada de quartel, insensiveis ao perigo que nos ameaça a cada segundo. Chamo um e outro. Que tal? Uns estiveram de noite na primeira linha e acabam de ser rendidos. Contam a rir as suas impressões, enquanto os Tommies em volta os escutam interessados.

Ao cahir da tarde recomeça a musica. Os caminhos da rectaguarda e os da segunda linha principiam a levar a sua conta de metralha . E a pesca cega ao homem, dezenas de projecteis de artilharia e de balas de metralhadoras desperdiçadas para apanhar uma vida aqui, outra alem. E a Morte a entreter-se emquanto não chega a hora dos grandes golpes de fouce.
Entramos na segunda noite. O capitão G... já sabe a minha vida e eu já sei a d'elle. Era chemist antes da guerra e tenciona deixar o exercito mal ella acabe. Sabendo que ha de figurar n'uma cronica minha, pede que lhe envie o jornal. Quer alem d'isso no seu livro de guerra um autografo meu em francez: Escrevo este pensamento lapidar: - « Les boches sont des cochons et le capitaine G... est un frére. » Vamos dar outra volta
Ao atrevessarmos um caminho da B. Line, crepita ao longe uma metralhadora; sobre as nossas cabeças, na rama das arvores, silvam as balas. - «Pas bon!» - exclama o meu companheiro estugando o passo até á proxima trincheira cahiu cerca de um abrigo deserto. Tudo está a postos. Uma équipe que tenta ir collocar arame farpado tem de regressar e os meus portuguezes que a acompanham voltam furiosos por terem sido descobertos.

Vamo-nos deitar. De tempos a tempos um oficial ou um sargento de ronda vem fazer o seu relatório. No meio da noite acordo. Um rato dança o cake-walk sobre a minha barriga.
- «What is this? pergunta um capitão, que está acordado.
Explico-lhe de que se trata.
- « No confortable, diz-me elle na escuridão.
Readormeço, passados instantes.

PORTUGAL NA GUERRA - Revista Quinzenal Ilustrada nº 1 - 1 de Junho de 1917; Colunista Capitão X, que por motivos óbvios mantém sigilosa a sua identificação

27 setembro 2009

Esquadrilha Lafayette

A história do Esquadrão Lafayette é a história de um dos mais desconhecidos, mas mais gloriosos episódios da Primeira Guerra Mundial. Em agosto de 1914, quando rebentou a guerra entre a França e a Alemanha, muitos cidadãos americanos residiam em França. Muitos deles vieram de famílias ricas, que viviam uma vida de luxo, que participavam em competições com os seus iates ou aviões. Uma declaração do escritor suíço Blaise Cendrars, apareceu no jornal francês "LeFigaro", convidando todos os residentes estrangeiros para se alistar no exército francês.

Todos aqueles jovens aventureiros americanos estavam prontos para lutar pela França a fim de defender a sua liberdade. Mas nem tudo foi tão simples como parecia. Os Estados Unidos não estavam envolvidos na guerra contra a Alemanha e qualquer cidadão americano servindo num exército estrangeiro perderia os seus direitos constitucionais e de cidadania. Os jovens decidiram fazer uma visita ao Embaixador dos Estados unidos em Paris, onde encontraram uma solução em que eles deveriam se alistar na Legião Estrangeira Francesa ou no Corpo de Ambulâncias. Dito e feito.

Inicialmente chamado "Escadrille l'an Américaine", o nome foi mudado para l'Escadrille La Fayette na sequência de um protesto diplomático alemão ao Governo dos estados Unidos da América. Dois oficiais franceses, o capitãoThenault e o tenente Alfred de Laage de Meux foram nomeados para comandar os sete americanos selecionados. Eram eles: Prince, Thaw e Cowdin, Victor Chapman,Kiffin Rockwell, James McConnell e Bert Hall.
A nova esquadra foi organizada em Luxeuil-les-Bains perto da frente de combate no sopé das montanhas de Vosges.

A primeira vitória do Esquadrão foi ganha por Kiffin Rockwell, em 20 de Maio de 1916 onde ele abateu um avião de observação alemão de dois lugares ao pé da Hartmanns-willerkopf, na Alsácia. O esquadrão foi, então, condenado a Verdun a mais violenta batalha da guerra.

Durante 1916 e 1917, outros voluntários americanos continuaram a chegar, de modo que, apesar das perdas, as fileiras do La Fayette Escadrille nunca foram esgotados. O transbordamento do recém-formados pilotos americanos foi enviado para outras unidades francês. Como resultado, o La Fayette Escadrille tornou-se parte de uma organização muito maior chamado Lafayette Flying Corps.

Em agosto de 1917, o La Fayette Escadrille ganhou quatro Legiões de Honra, sete Medailles Militaire e trinta e uma citações, cada um acompanhado por uma citação Croix de Guerre. Pilotos americanos em outros esquadrões também foram ganhando a sua quota de medalhas.

A esquadrilha tinha uma reputação de ousadia, imprudência, e uma atmosfera de festa. Dois filhotes de leão, chamado "Whiskey" e "Soda", foram feitas mascotes do esquadrão.

A La Fayette Escadrille deixou de existir em 18 de Fevereiro de 1918, quando se tornou o primeiro esquadrão de busca norte-americano, "S103". Este manteve os aviões francês e a mecânica. Dos 265 voluntários americanos na Força Aérea Francesa 225 receberam asas de voo e voaram em 180 missões de combate na frente da batalha de uniforme francês. Cinquenta e um morreram em acção, seis morreram em acidentes de formação e mais seis morreram de doença. Os pilotos americanos foram creditados com noventa e nove vitórias aéreas.

Cartoons publicados pela Hall of Fame of the Air na década de 30 demonstrando as façanhas dos pilotos americanos durante a I Guerra Mundial

(clicar para ampliar)



Na fotografia:
"A Esquadrilha Lafayette combate de novo nos ares da Tunisia. O general de Divisão Carlos Spantz (ao centro) falando com dois oficiais franceses da famosa Esquadrilha"




Filme FLYBOYS (trailer) que retrata alguns aspectos da Esquadrilha Lafayette





20 setembro 2009

Diário de Campanha - Primeira Guerra Mundial



DIARIO DE CAMPANHA

Do Capitão X...


«Terça-feira, 1 de Maio. - Esta manhã, sou acordado em sobresalto na mess de officiaes inglezes, onde fui aboletado e acolhido com a mais idalga gentileza, pelas detonações precipitadas de uma bateria proxima. Na soleira da porta um grupo de alferes e tenentes britanicos miram o ceu azul sem uma nuvem. Um aeroplano allemão segue por cima das nossas linhas. No ar, em volta d'êle e sem ó atingirem, estalam granadas. Elle passa. Dez minutos depois deslisa a toda a velocidade, n'uma estrada perto, uma bateria automovel de anti-aeros, a que deixou escapar a presa. Vamos ter novidade.

Pelo meio dia a brigada ingleza a que a minha companhia está adida communica-me que devemos estar formados ao cahir da tarde sobre a estrada e em pequenos grupos para seguirmos para as trincheiras. Pouco antes da hora marcada a estrada que havemos de seguir, começa a ser bombardeada com violencia. Consequencia das informações recolhidas de manhã pelo laube. Chega-nos a todo galope da sua mula um chefe de carro a communicar-nos que uma granada atingiu as viaturas que seguiam para o parque de transportes. Um morto, dois feridos de outra companhia portugueza que partilha o nosso acantonamento e hade partilhar o nosso sector. Começo a dividir e a ordenar a minha gente. Continua o fogo de barragem allemão. A noite vae cahindo e aproxima-se a hora. Surge de automovel uma banda de musica ingleza e, quando os primeiros grupos se põem em marcha pela estrada bombardeada, rompe a Portuguêsa.
Momento impressionante, Officiaes e soldados inglezes veem desejar-nos boa sorte.

Os grupos marcham espaçados, mantendo as distancias, condusidos por guias Inglezes. Um pouco antes da barragem cortamos pelo campo perpendicularmente á estrada e vamos atingir uma outra paralela. Vêem-se estalar as granadas perto e, á luz poente, nos campos e sob a metralha, continuam a sua faina agricola os habitantes que ainda permanecem n'esta região. Um grande cavallo preto arrasta um arado sobre o qual se senta, tranquilamente cachimbando, um velho de cabellos brancos. Na estrada junto de nós passam carros de aprovisionamento. À nossa esquerda uma bateria, escondida n'um arvoredo, riposta ao fogo allemão. A certa altura fazemos alto para colocar em posição as mascaras contra os gazes asphixiantes. Continuamos a marcha e não tarda que deixemos a estrada para seguir um caminho coberto á margem d'ela. Estamos já na terceira linha ingleza e vamos calcando as passadeiras de madeira de que havemos de calcar kilometros. Tornamos a atravessar a estrada e entramos finalmente n'uma trincheira de communicação. E então uma longa, interminável marcha n'um corredor onde só cabemos a um de fundo e que de cinco em cinco metros muda de direcção. De quando em quando a trincheira alarga e tem uma banqueta. Outras vezes descobre-se a abertura de um abrigo. O sol dos ultimos dias ainda não secou toda a água do Inverno e na escuridão succede fugir-nos um pé da passadeira e enterrarmo-nos na lama até ao tornozelo. Passam alguns ratos galopando assustados. Sobre as nossas cabeças o ceu é cheio de estrellas e, em volta de nós, as espingardas automáticas e as metralhadoras, procuram com o seu tiro indirecto ir apanhar nos caminhos descobertos, a esta hora classiea de render serviços, os grupos de homens passam por acaso. Estamos chegando á segunda linha e ahi os grupos vão ficando distribuidos pelos abrigos e pelos postos inglezes. Um dos meus pelotões segue para a primeira linha. Mais trincheiras sempre eguaes.

Um sargento inglez, a certa altura, detem-me e com um gesto diz-me na mesela de inglez e mau francez, que é o nosso idioma n'estas paragens:
- « Captain ! Promenade avec moi...
Sigo-o. Caminha-mos dez minutos ainda. Chegamos a um terrapleno. Cortámos á esquina de uma rua - Hun's Street - e paramos defronte de um abrigo que tem uma taboleta á porta: Comanding officer. Estou no posto de comando. Baixo-me para entrar. À luz das velas, dentro d'um casinhoto de tres metros de largo por outros tantos de fundo, dois olhos claros me sorriem n'uma face rosada e moça, uma mão solida se estende para a minha e uma voz alegre com um forte sotaque sauda-me:
- « Bonsoir, Monsieur.
E o captain G... de um regimento que usa o nome de duas bellas cidades inglezas. Falla a very litlle de francez. Eu fallo outro tanto de inglez. Havemos de nos entender perfeitamente. N'um canto da caverna está dobrado em varias partes para poder caber o alferes R... O capitão tem vinte e quatro annos. O alferes vinte e um. Ambos dois annos de guerra e presentes no Somme o anno passado. Perguntam-me se jantei. Passados cinco minutos estou jantando. Apenas corta o silencio de vez em quando o tie-tae seco das espingardas e das metralhadoras. Conversamos. È a primeira vez que o capitain G... tem tropas portuguezas no seu sector de companhia. Explica-me que os meus homens já estão todos distribuidos pelos varios postos e que farão todo o serviço dos soldados inglezes. Tomado o chá e acêso um cigarro, peço para percorrer as trincheiras e ver a minha gente.

È cedo ainda: a ronda do capitão começa á meia noite e são onze se tanto. Examino então no mapa das trincheiras a disposição do sector e o meu camarada explica-me a posição dos postos especiaes, o raio de acção dos postos de observação, o campo das nossa metralhadoras. O chão que pisamos é historico. Em*** travou-se n'este local uma grande batalha. As nossas trincheiras serpenteiam atravez das ruinas do que foi uma pequena e linda cidade da qual não restam senão montes de pedra e de tijolo e algumas paredes ainda de pé, onde se organisaram abrigos e postos.
Chegou a meia noite. Sahimos e começamos a caminhar, a caminhar. De longe em longe, taboletas. As trincheiras tem nomes, alguns mesmo illustres, muito illustres: Oxford-street, por exemplo. Cortamos a Churche-road, ao Caminho da Egreja. Da egreja da cidade resta apenas um monte de escombros e um Christo que já andou em illustrações e magazines. Alguns santos, uma virgem, estão postos sobre campas de soldados inglezes. No que talvez tivesse sido uma capela florida, está um ninho de metralhadoras. Subo ás escuras os degraus d'uma escada de mão. Sobre o cano negro das armas desbruça-se a vigilancia dos serventes e por uma estreita abertura ve-se o campo mutio claro e lá adeante, a cem metros se tanto, a linha de trincheiras allemãs. Outras vidas alli palpitam, outros olhos nos espiam e nos esperam.

Para a nossa direira erepita uma espingarda automatica. Retumba um obus de trincheira. Ouve-se o silvo muito especial da granada. Cahiu perto, muito perto, na nossa primeira linha, diz-me o capitão. Esperamos. Outras detonações, sete n'um quarto de hora. Algum signal tiveram na trinchiera fronteira que lhes indicou um objectivo. Prosseguimos. Passamos a um posto de observação; um dos meus soldados espreita pelo periscopio emquanto um soldado inglez sorri. Colhemos informções. As granadas cahiram mais adeante. Continuamos. Espreito nos abrigos. Os meus homens lá estão e nos que não cabe a vigilancia, esses dormem tranquilamente ao lado dos seus camaradas. Cruzamos mais adeante fachinas inglezes e portuguezes condusindo chá quente, Indago. Andaram debaixo do fogo. Chegamos finalmente ao ponto bombardeado.

Um tenente de ronda conta que as granadas cahiram em volta. Uma acertou n'um charco alli visinho e encgeu-o de lama. Mostra-nos o seu uniforme todo salpicado.
Pergunto que tal se portaram os meus soldados adidos ao posto.
- « Splendid ! Very well ! No panie...
Entrevisto a minha gente.
- « Ah ! meu capitão ! Elles mandaram ahi umas garrafas de litro; mas cá a gente não cortou prego...
A quem ignore o portuguez da zona guerra, direi que os projecteis são dividos conforme o tamanho em barris de almude, garrafas de litro e copas de meio litro. Cortar prego é ter medo.
Sorrio satisfeito. É a primeira vez que os meus soldados, como eu de resto, estamos tão em contacto com o perigo. A experiencia é satisfatoria.
O capitão segue de mãos nos bolsos e cachimbo na bocca.
A certa altura pergunta-me se quero sahir da trincheira e ir fora do parapeito a um posto de observação collocado n'umas ruinas. Respondo-lhe que irei onde êle fôr. Caminhamos atravez da noite clara uns trinta passos.

Dois homens apenas cabem no abrigo que só é ocupado de noite. Espreitamos pela vigia. Na nossa frente temos um bosque, cuja historia singular e tétrica o capitão me conta com toda a sua fleugma. Voltarmos para as trincheiras e, apoz duas horas e meia de marcha, tendo pisado kilometros de passadeira, conversado varias vezes sentados a descançar sobre banquetas desertas, regressamos ao posto de commando. Ha duas camas: rectangulos de madeira sobre os quaes se estendeu rede de arame e que assentam a tres palmos do chão sobre caixotes.
Deito sobre mim o meu capote, o capitão enfia-se no saco da sua valise, apagam-se as velas depois de uns goles de whisky e adormeço d'alli a pouco, admirado de ter somno.»



PORTUGAL NA GUERRA - Revista Quinzenal Ilustrada
nº 1 - 1 de Junho de 1917; Colunista Capitão X, que por motivos óbvios mantém sigilosa a sua identificação

18 setembro 2009

Cartoons - Líderes mundiais

Joseph Stalin
1879-1953


Joseph Estaline foi uma das figuras mais influentes do século XX. Nascido na Geórgia, juntou-se aos bolcheviques, e depois da morte de Lenin, em 1924 tornou-se líder da União Soviética. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, assinou um pacto com Hitler, dividindo a Polónia entre si, mas depois que Hitler atacou a União Soviética, em 1941, juntou-se aos Aliados. Após a guerra, a Europa Oriental estava sob o seu controle até a sua morte em 1953.

Esta caricatura foi publicada durante a ponte aérea de Berlim.

Nikita Khrushchev
1894-1971

Nascido em 1894, Khrushchev tornou-se primeiro secretário do Partido Comunista Soviético após a morte de Estaline em 1953. Sobreviveu a vários golpes, líder da União Soviética durante a Crise dos Mísseis de Cuba, durante a construção do Muro de Berlim, o envio do primeiro homem no espaço. Foi deposto em 1964, e morreu em 1971.
Este cartoon mostra Khrushchev andando sobre o muro de Berlim, com uma bomba de hidrogénio na cabeça.

Charles de Gaulle
1890-1970

Filho de um professor, de Gaulle juntou-se ao exército e lutou durante a Primeira Guerra Mundial. Em 1940 havia-se tornado oficial superior, e foi feito Ministro da Guerra. Após a queda da França, levou o governo da França Livre para o Reino Unido, e quando a libertação da França, tornou-se chefe do governo 1945-1946. Foi nomeado primeiro-ministro em Abril de 1958, e nesse mesmo ano foi eleito presidente, cargo que ocupou até 1969.

Esta caricatura refere-se á posição de De Gaulle contra os comunistas, na França.

Winston Churchill
1874-1965

Winston Churchill serviu no exército até 1899, quando se tornou jornalista. Foi eleito para o Parlamento como um conservador em 1900, mas em 1908 desertou para os liberais. Realizou diversos trabalhos no governo até 1922, quando perdeu o seu lugar, então, retornou para os conservadores e voltou ao Parlamento dois anos depois. Em 1940, foi nomeado primeiro-ministro após a renúncia de Chamberlain, e conduziu Grã-Bretanha através da Segunda Guerra Mundial. Perdeu as eleição de 1945, mas voltou como primeiro-ministro entre 1951 e 1955.

Esta caricatura refere-se à eleição geral de 1945.

Franklin Roosevelt
1882-1945

Primo em quinto grau do presidente Theodore Roosevelt, Franklin Delano Roosevelt, ou FDR, foi eleito para o Estado de Nova York no Senado em 1910. Sofria de poliomielite, mas recuperou-se e foi eleito como governador do Estado de Nova York em 1928. Roosevelt ofereceu algo diferente para os eleitores americanos durante a Grande Depressão, e foi eleito como presidente em 1932. Tornou-se famoso pelo New Deal, um programa que oferecia segurança social e assistência para a indústria durante os tempos difíceis. Foi reeleito 3 vezes e no início da Segunda Guerra Mundial, ofereceu ajuda à Inglaterra e juntou-se aos aliados depois de Pearl Harbor em 1941. Morreu no escritório, poucas semanas antes do fim da guerra na Europa, em 1945.

Esta caricatura faz referência à Convenção Democrata em Chicago, onde os manifestantes convenceram Roosevelt a correr para um terceiro mandato.

Harry Truman
1884-1972

Truman assumiu a presidência do E.U.A. após a morte de Roosevelt em 1945. Foi o responsável pela decisão de largar as bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki, e ele teve um papel de liderança na criação da Organização das Nações Unidas. Ele desenvolveu políticas semelhantes às de Roosevelt, o Fair Deal, para regular a economia, e foi fundamental na elaboração do pacote de ajuda à Europa, conhecido como Plano Marshall. Eleito em 1948, foi presidente no momento do transporte aéreo de Berlim.

Esta caricatura faz referência ao Plano Marshall de ajuda económica à Europa.

Dwight D Eisenhower
1890-1969

Eisenhower, ou "Ike", foi eleito Presidente da E.U.A. em 1953, após uma longa e distinta carreira como general do exército durante a Segunda Guerra Mundial. Ele liderou a E.U.A. durante alguns dos períodos mais difíceis da Guerra Fria, trabalhou para uma trégua na Guerra da Coreia. Foi reeleito em 1956, e serviu até 1961, mas o seu segundo mandato foi marcado por problemas raciais. Chamou a Guarda Nacional para escoltar as crianças negras à escola em alguns estados.

Esta caricatura refere-se a tensão EUA-União Soviética.

John F Kennedy
1917-1963

Depois de servir na Marinha durante a Segunda Guerra Mundial, JFK foi eleito senador em 1953. Lutou numa campanha dura contra Nixon para ganhar a Presidência dos E.U.A. com uma pequena maioria na eleição de 1960. Principal objectivo era difundir o idealismo americano em todo o mundo, e era um forte defensor dos direitos civis. Enfrentou Kruschev durante a Crise dos Mísseis de Cuba, e incentivou o programa espacial, mas fez um erro de cálculo, permitindo que os exilados cubanos tentassem derrubar Fidel numa missão que falhou. Foi assassinado em Dallas, Texas, em 1963.

Esta caricatura refere-se à falha da invasão da Baía dos Porcos, quando exilados cubanos tentaram derrubar Castro com o apoio de Kennedy.


Mao Zedong
1893-1976

Mao tornou-se líder da China, em 1949, após uma longa guerra civil que terminou na derrota do governo de Chaing Kai-shek, que depois se retirou para a ilha de Formosa. Mao teve uma relação variada, com o seu vizinho comunista, a União Soviética, que se agravou no final da década de 1950. Modernizou a China através de uma série de planos quinquenais. Presidiu a Revolução Cultural na década de 1960, e viu a melhorias nas relações com o E.U.A. durante a década de 1970

Esta banda desenhada demonstra as tensões ao longo da fronteira entre a China e a Índia.
Fonte: National Library of Wales