08 novembro 2009

Sublevação das Caldas da Rainha

«Pela Secretaria de Estado da Informação e Turismo foi distribuída a seguinte nota:

"Na madrugada de sexta-feira para sábado alguns oficiais em serviço no Regimento de Infantaria 5, aquartelado nas Caldas da Rainha, capitaneados por outros que nele se introduziram, insobordinaram-se, prendendo o comandante, o segundo-comandante e três majores e fazendo em seguida sair uma companhia autotransportada que tomou a direcção de Lisboa.

O Governo tinha já conhecimento de que se preparava um movimento de caracteristicas e finalidades mal definidas, e fácil foi verificar que as tentativas realizadas por alguns elementos para sublevar outras unidades não tinham tido êxito.
Para interceptar a marcha da coluna vinda das caldas foram imediatamente colocadas á entrada de Lisboa forças de Artilharia 1, de Cavalaria 7 e da G.N.R..
Ao chegar perto do local onde estas forças estavam dispostas, e verificando que na cidade não tinha qualquer apoio, a coluna rebelde inverteu marcha e regressou ao quartel das Caldas da Rainha, que foi imediatamente cercado por unidades da Região Militar de Tomar.

Após terem recebido a intimação para se entregarem, os oficiais insubordinados renderam-se sem resistência, tendo imediatamente o quartel sido ocupado pelas forças fiéis, e restabelecendo-se logo o comando legítimo.
Reina a ordem em todo país."

"Os acontecimentos da sublevação

Cerca de 300 homens, deslocando-se em quinze viaturas, deixaram pelas 5 horas da madrugada de ontem o Regimento de Infantaria nº 5 nas Caldas da Rainha.
Comandavam-nos oficiais daquela unidade que momentos antes, haviam dominado o comandante, 2º comandante e três majores de guarnição.
A coluna avançou sobre Lisboa, passando por Santarém. Em Alverca, forças da G.N.R. e do Governo Militar em Lisboa barravam-lhe a passagem. A coluna retrocedeu, então, para o quartel, onde se verificou que faltava uma das viaturas, que se terá perdido na serra de Montejunto.
Às Caldas chegou, cerca das 13 horas, uma força militar autotransportada, sob o comando do 2º comandante da Região Militar de Tomar, sr. brigadeiro Pedro Serrano. Cercado o quartel, foram as forças rebeldes intimadas render-se.
Dado um prazo aos sitiados para se rendem, estes aceitaram a rendição passados cerca de 10 minutos, tendo os respectivos termos sido objecto de conversações até cerca das 21 horas.
Vários oficiais foram detidos e, ao que se supõe, levados sob prisão para Lisboa.
Continuava, entretanto, a desconhecer-se o paradeiro da viatura e do pelotão desaparecidos no regresso no quartel.
Entretanto, às sete horas da manhã na Estrada Nacional nº 1 tinham sido montados numerosos dispositivos de segurança com unidades do Exército, da G.N.R., da P.S.P. e da D.G.S. Vários sentidos de trânsito tiveram que ser desviados. Esta situação causou graves transtornos na circulação automóvel e, como é de calcular; interrogações das populações.
Em Lisboa, aviões e helicópteros da Força Aérea sobrevoaram a cidade, tomando indicações e posições. A cidade, por volta das 19 horas, estava, porém, mais calma".»

Em: Jornal de Notícias, de 17 de Março de 1974

Fundação Calouste Gulbenkian


O Ministério da Cultura que Portugal não tinha


«Pelo presente testamento é criada, nos termos da lei portuguesa, uma Fundação, que deverá denominar-se «Fundação Calouste Gulbenkian». As bases essenciais dessa Fundação são as seguintes:

a. é portuguesa, perpétua, a sua sede e em Lisboa, podendo ter, em qualquer lugar do mundo civilizado, as dependências que forem julgadas necessárias;

b. os seus fins são de caridade, artísticos, educativos e científicos;


c. a sua acção exercer-se-á, não só em Portugal, mas também em qualquer outro país onde os seus dirigentes o julguem conveniente;


d. será dirigida e administrada pelos «trustees» adiante designados e por outras pessoas por eles escolhidas ou como for estabelecido nos respectivos estatutos;


e. logo após a morte do testador, na hipótese de ele o não haver feito antes, os executores testamentários e «trustees» redigirão, e farão aprovar superiormente, os estatutos da mencionada Fundação, e praticarão todos os actos necessários, quer a legislação da Fundação criada por este testamento, ou a sua criação, caso se entenda que só pela aprovação dos estatutos ela pode considerar-se criada, quer à sua instalação e funcionamento. (...)
»
Extracto do testamento de Calouste Gulbenkian onde se refere á Fundação



«A Fundação Calouste Gulbenkian é uma instituição portuguesa de direito privado e utilidade pública, cujos fins estatutários são a Arte, a Beneficência, a Ciência e a Educação. Criada por disposição testamentária de Calouste Sarkis Gulbenkian, os seus estatutos foram aprovados pelo Estado Português a 18 de Julho de 1956.»

Calouste Sarkis Gulbenkian


«Em Abril de 1942, em plena II Guerra Mundial, Calouste Gulbenkian encontrava-se em França, mas em Vichy integrado na delegação diplomática Persa. A sua participação na Iraq Petroleum Company tinha sido temporariamente confiscada pelos britânicos uma vez que, como residente num país ocupado, Calouste era considerado tecnicamente “um inimigo” de acordo com a lei. Apesar do facto de se tratar tecnicamente de uma decisão legal e que depois da guerra a sua concessão lhe foi devolvida com indemnização, a atitude do seu país adoptado continuou a causar-lhe incómodo porque suspeitava que o Governo Britânico estava a ajudar os seus sócios a retirar-lhe os 5%. Decide então emigrar para os Estados Unidos da América. Como primeira etapa, a convite do embaixador de Portugal em França, Calouste deslocou-se a Lisboa para uma pequena paragem de repouso antes de prosseguir viagem para Nova Iorque. A pacatez social de Lisboa, o sistema fiscal que encontrou, e a não interferência dos media terão provavelmente pesado na sua decisão.


Em Lisboa sente-se bem acolhido - escreverá, depois, "que nunca havia sentido em mais lado nenhum" uma hospitalidade como a que o rodeou em Lisboa, uma cidade tranquila numa Europa devastada pela guerra.

O Hotel Aviz, em Lisboa, foi a sua casa durante 13 anos. Calouste Gulbenkian deixou em testamento (18.06.1953) importantes legados aos seus filhos, estabeleceu pensões vitalícias em favor de outros familiares e colaboradores de longa data. No seu testamento estabeleceu a constituição de uma fundação internacional, com o seu nome, que foi a herdeira do remanescente da sua fortuna, com sede em Lisboa, presidida pelo seu advogado de confiança, Lord Radcliffe. A este confiou a missão de agir em benefício de toda a “humanidade”. Esta fundação deveria reflectir o que considerava as suas maiores proezas: a sua colecção de obras de arte e o seu papel como “arquitecto de empreendimentos”, concebendo estruturas para englobar e reunir diferentes nações, grupos e interesses. A colecção de obras de arte logrou ficar exposta num museu especialmente construído para esse efeito, na sede da Fundação, o Museu Calouste Gulbenkian, mas divergências quanto ao peso da actividade internacional da Fundação e à composição do seu Conselho de Administração, designadamente a maioria de membros de nacionalidade portuguesa e o receio da interferência do Governo, conduzem Lord Radcliffe a renunciar, sendo a presidência da Fundação assumida por José de Azeredo Perdigão. A Fundação Calouste Gulbenkian é uma das doze maiores fundações do mundo.

Morreu em Lisboa, a 20 de Julho de 1955, com 86 anos.»


DN
Até 1942, Gulbenkian está em Vichy. O que o faz vir para Portugal?

Gulbenkian tinha um filho, Nubar, e uma filha, Rita. Nubar visitou várias vezes Portugal e conheceu o Aviz, hotel encantador. Descreveu Portugal ao pai como uma terra muito tranquila, onde não havia guerra e onde se pagavam poucos impostos. Gulbenkian sentiu-se atraído e instalou-se até à morte no Aviz.

Em Portugal, Gulbenkian teve uma boa relação com Oliveira Salazar?

Achava que Salazar era um grande homem porque tinha mantido o País em paz. E sabe-se que Salazar ficou tão feliz com a Fundação que até dizia sobre Azeredo Perdigão "Pode ser de esquerda, mas é um patriota."

O advogado Azeredo Perdigão foi decisivo para a Fundação ficar em Portugal?

Foi muito hábil. Era muito inteligente e compreendeu que Gulben-kian tinha uma maneira de se comportar que apreendeu muito bem. Que gostava de dizer às pessoas qualquer coisa que desejaria fazer e desejava encontrar nas pessoas razões para as fazer. E foi isso que cimentou uma grande amizade.


José de Azeredo Perdigão


«José de Azeredo Perdigão era um homem determinado - e que sabia ouvir as pessoas. Sem a sua habilidade negocial, a cultura em Portugal seria bem diferente. Soube transformar o testamento de Calouste Gulbenkian numa instituição que é um farol do saber. Azeredo Perdigão percebeu a importância da “realização da Fundação”, salienta o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles. A sua visão fomentou uma geração inteira de artistas.

Em 1942 foi apresentado a Calouste Gulbenkian, filantropo e milionário de origem arménia, que escolheu Portugal como refúgio durante a II Guerra Mundial. José de Azeredo Perdigão impressionou Gulbenkian, homem exigente e rigoroso. Foi contratado como assessor jurídico, com a tarefa de tratar de assuntos relativos às transferências de fundos, assuntos fiscais e contratos da aquisição de obras de arte.

Em 1948 Gulbenkian decidiu elaborar o seu testamento. Havia que dar rumo à sua fabulosa colecção de arte. A confiança que depositava em Azeredo Perdigão levou-o a partilhar os planos da criação de uma fundação que serviria para albergar o seu espólio artístico. A capacidade de Perdigão para ouvir as pessoas foi fundamental para esta base de confiança. Gulbenkian não gostava de ser contrariado pelos seus colaboradores. Portugal como sede da futura fundação era uma hipótese que ganhava consistência. Azeredo Perdigão começou a negociar com o governo português as condições mais favoráveis.

Calouste Gulbenkian morreu em 1955, e a sua morte marcou o início de uma luta entre Azeredo Perdigão e Cyril Radcliff, advogado inglês do magnata. O que estava em jogo era a nacionalidade da Fundação. A batalha terminou com a aprovação dos estatutos da Fundação Gulbenkian em 18 de Julho de 1956. Azeredo Perdigão ganhou em toda a linha. O passo seguinte foi convencer Salazar a não interferir na vida interna da instituição. A tarefa não foi difícil. Apesar de Salazar não gostar das opiniões políticas do advogado, estava convencido de que era um patriota.

José de Azeredo Perdigão foi nomeado presidente da Gulbenkian, cargo que desempenhou durante cerca de 40 anos. Implementou programas de atribuição de bolsas de estudo e de subsídios à criação artística, criou a Orquestra Gulbenkian e as bibliotecas itinerantes, que levaram a literatura a todos os pontos do País. O primeiro centro de arte moderna do País foi construído pela Gulbenkian. Hoje tem o nome de José de Azeredo Perdigão.

O legado deste homem é muito importante. Deu a Portugal uma instituição ao nível de qualquer outra relevante em Londres, Nova Iorque ou Paris. Como diz Gonçalo Ribeiro Telles, José de Azeredo Perdigão “foi uma grande figura para o desenvolvimento cultural do País”.»


Bibliografia:

DN-(entrevista) Pedro Saraiva,Leonídio Paulo Ferreira 20 Julho 2005


Fundação Calouste Gulbenkian

RTP - Os Grandes Portugueses

05 novembro 2009

Hans Conrad Schumann


Hans Conrad Schumann
28 de Março de 1942 - 20 de Junho de 1998

Nasceu em Leutewitz, serviu como soldado no Leste alemão na Bereitschaftspolizei. Depois de três meses de treinos em Dresden foi enviado para uma faculdade de oficiais em Potsdam, depois disso ofereceu-se para o serviço, em Berlim.

A 15 de Agosto de 1961 encontrou-se, com apenas 19 anos, a guardar o Muro de Berlim, então no seu terceiro dia de construção, na esquina da Ruppiner Straße e Bernauer Straße. Nessa fase de construção do Muro de Berlim, este era apenas uma cerca de baixo arame farpado. Foi ai que Conrad Schuman fugiu da então área que guardava (RDA) para o lado oposto (RFA), isto é de oriente pra ocidente, ou sem querer ferir susceptibilidades "dos maus para os bons". Nesse mesmo instante o Fotógrafo Peter Leibing capturou a fotografia da fuga, ficando esta conhecida como uma das imagens da Guerra Fria.

A 20 de Junho de 1998, sofrendo de problemas psicológicos, suicidou-se perto da cidade de Kipfenberg.

29 outubro 2009

BBC - Portugal


"Nation shall speak peace unto Nation"


«A BBC (British Broadcasting Corporation), é uma emissora pública de rádio e televisão do Reino Unido, fundada em 1922. Com grande reputação a nivel nacional e internacional. Durante muitos anos foi o único fornecedor de rádio e depois de televisão do Reino Unido. O seu lema é "Nation Shall Speak Peace Unto Nation".»

Portugal

«Os anos 40 deste século foram dominados pela Segunda Guerra Mundial. Em Portugal, o regime de Salazar adoptava uma posição neutra mas as suas simpatias tinham uma inclinação pró-Nazi. A censura e a repressão às liberdades civis ajudaram enormemente a popularização das transmissões em língua portuguesa da BBC, particularmente entre os círculos da oposição. E como é sabido: "O Estado Novo e, portanto, Salazar pessoalmente, tentou, e conseguiu em alguns casos, interferir na linha editorial da BBC de várias formas"
Ver: Salazar interferiu nas emissões da BBC para Portugal

Fernando Pessa, um dos principais apresentadores da altura, tornou-se numa figura de culto, apesar de ter sido isolado pelas autoridades portuguesas no seu regresso a Portugal a seguir à Segunda Guerra Mundial.

Depois da Guerra, as transmissões da BBC passaram a prestar mais atenção a programas e magazines radiofónicos. Os noticiários continuaram a ter alguma importância, em vista da reconstrução política e económica da Europa e da contínua presença de um regime autoritário de direita em Portugal. Contudo, os temas culturais dominaram o conteúdo das nossas emissões na década de 40. Entre o staff e os colaboradores recrutados na altura estavam alguns intelectuais de grande calibre como Afonso Casais Monteiro e António Pedro.

O novo clima de Guerra Fria na Europa e as boas relações existentes entre a Grã-Bretanha e a ditadura portuguesa levaram ao encerramento do Serviço de Língua Portuguesa da BBC no final da década de 40.


Contudo, em 1961, com o surgimento das aspirações independentistas de África e com o início das guerras coloniais em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, e as consequentes pressões internacionais sobre o regime português, os novos transmissores da BBC em Ascenção permitiram o reinício das transmissões em português para a Europa e para África. Do início dos anos 60 a meados dos anos 70, assistiu-se à "era dourada" da Secção. A maioria do seu pessoal era composta por jornalistas portugueses bem conhecidos da imprensa escrita e a Secção reconstruiu uma nova reputação pela sua cobertura imparcial dos acontecimentos noticiosos, transmitindo para uma vasta área de ouvintes de língua portuguesa afectados pela censura política e de guerra. Contudo, é importante notar que os programas para África eram feitos por jornalistas europeus para uma audiência maioritariamente europeia em África.


Em 1974, como resultado da Revolução Portuguesa que levou à queda do regime de Lisboa e à queda do Império Português em África, a BBC continuou a desempenhar um importante papel numa fase muito conturbada, em que a liberdade de expressão permitia o acesso a notícias de opinião sólida. Contudo, e porque a democracia não era de todo amiga da BBC, as audiências começaram a diminuir, e durante alguns anos a sobrevivência da Secção acentou muito mais em exposições, seminários e exercícios de relações públicas do que no impacto directo das suas emissões.


Foi em 1982 que o primeiro jornalista africano de língua portuguesa foi recrutado. A iniciativa reflectiu um novo pensamento na preparação de terreno para a transferência de mais atenção e recursos para as transmissões para África.Vários outros profissionais africanos foram subsequentemente contratados.


As novas tecnologias faziam também a sua entrada na Secção; as retransmissões via satélite permitiam que se tentasse injectar uma nova vida aos programas da Secção para as audiências de língua portuguesa na Europa. Na verdade, a Secção de Língua Portuguesa da BBC foi a primeira da Bush House a retransmitir diariamente em directo - em FM - para a Rádio Renascença que, por sua vez, transmitia à escala nacional Portugal. Essas transmissões começaram em Janeiro de 1988. Nos finais dos anos 80, as guerras civis devastavam Angola e Moçambique, e noutras partes dos recém independentes países africanos de língua portuguesa estava em curso a aposta no estabelecimento de democracias parlamentares. A Secção estava agora a transmitir tanto para a Europa como para África e tinha uma equipa de profissionais africanos e europeus. As suas transmissões estavam finalmente a fazer um impacto que mais nenhuma estação estrangeira conseguia, incluindo a própria rádio portuguesa, apesar mesmo dos velhos laços culturais e novos laços políticos com as suas antigas colónias africanas.


Em 1994 - com Portugal então já membro de pleno direito da União Europeia e da NATO, e a gozar de uma estabilidade política e plena liberdade de imprensa, por entre uma explosão de novas rádios e crescente impacto da televisão - a BBC encerrou as suas operações em língua portuguesa para Portugal. A Secção passou para a nova Região Africana da BBC. Mas continua a transmitir para a Europa, alcançando um vasto número de ouvintes portugueses e africanos espalhados por Portugal, França, Bélgica, Holanda e pelos países da Europa do Leste. Contudo, a ênfase é agora colocada muito mais nos ouvintes africanos em África, onde as emissões da BBC desempenharam um importante papel nos processos de paz ocorridos nos últimos anos. A BBC contribui agora para uma nova consolidação da democracia e responde às novas necessidades de programas educacionais. Com a descentralização da informação em muitas partes da África de Língua Portuguesa, as transmissões em Onda Curta continuam a jogar um papel importante na penetração em vastas áreas de difícil acesso e de grandes necessidades. Em resposta a um novo clima informativo, foram assinados acordos de retransmissão em FM com a Rádio Nova de Cabo Verde, com a Rádio Cidade da capital moçambicana, Maputo, e com a Rádio Bombolom, na Guiné-Bissau(...)»


Fontes:

Wikipedia.org

BBC Portuguese History

25 outubro 2009

Invasão de Espanha a Portugal - SGM

«Em 1940, o Alto Estado-Maior espanhol elaborou, a pedido de Franco, um plano de ataque a Portugal, com a ocupação de Lisboa e a tomada de toda a costa nacional. O documento foi descoberto pelo historiador espanhol Manuel Ros Agudo(...)


O plano não permitia qualquer falha. Tudo começaria com um ultimato (impossível de cumprir) e um prazo limite de 24 horas ou 48 horas, findas as quais teria início a invasão de Portugal.

A operação incluía intervenções por terra, ar e mar e as primeiras incursões terrestres, realizadas por um contingente de 250 mil combatentes espanhóis, avançariam em direcção a Ciudad-Rodrigo, Guarda, Celorico da Beira, Coimbra, Lisboa, Elvas, Évora e Setúbal - a ocupação da capital e a divisão do país em três parcelas constituíam os passos fundamentais para a conquista de Portugal. Ao longo de quase 70 anos, o Plano de Campanha nº 1 (34), o grande projecto de Franco para invadir Portugal, delineado em plena II Guerra Mundial (1940), esteve "adormecido" nos arquivos da Fundação Francisco Franco. Os rumores da tentação franquista de conquistar Portugal há muito que circulam no meio historiográfico - até porque uma das grandes orientações da política externa de António de Oliveira Salazar, durante o conflito mundial, consistia na independência nacional face à ameaça da anexação espanhola. Mas só recentemente foi possível confirmar que os temores de Salazar tinham justificação.

Em 2005, o historiador espanhol Manuel Ros Agudo foi o primeiro investigador a aceder às cem páginas que compõem o plano de ataque contra Portugal, elaborado pela 1ª secção do Alto Estado-Maior (AEM) espanhol no segundo semestre de 1940. O ineditismo da descoberta levou o investigador, de 47 anos, a dedicar-lhe um capítulo na sua obra A Grande Tentação - Franco, o Império Colonial e o projecto de intervenção espanhola na Segunda Guerra Mundial, recém-editada em Portugal pela Casa das Letras. Na próxima terça-feira, Ros Agudo é um dos oradores da conferênciaA Península Ibérica na II Guerra Mundial - Os planos de invasão e defesa de Portugal, a realizar no Instituto de Defesa Nacional, a partir das 14h30, numa iniciativa conjunta com o Instituto de História Contemporânea.


Devastador e célere

O projecto de invadir Portugal não configurava uma "acção isolada", como se pode ler numa das alíneas dos documentos analisados por Ros Agudo. Tratava-se de uma operação preventiva, no âmbito da ambição franquista de declarar guerra à Inglaterra. Numa altura em que França já caíra sob o domínio da Alemanha nazi, Espanha, então com o estatuto de país não-beligerante, acalentava o sonho de um império norte-africano. Nem Hitler nem Mussolini podiam, em 1940, garantir a Franco a concretização deste desejo. Mas isso não fez esmorecer as ideias expansionistas e bélicas do "Caudilho".

A guerra contra a Inglaterra teria início com a tomada de Gibraltar. Porém, os estrategas do AEM prenunciavam que a primeira resposta britânica a este ataque fosse "um desembarque em Portugal com a ideia de montar uma cabeça-de-ponte para a invasão da península". Por isso, no plano ofensivo, determinava-se o emprego dos "meios necessários para bater o Exército português e o seu Aliado; ocupação do país e defesa das suas costas".

Tudo isto seria realizado sem o conhecimento prévio de Hitler e Mussolini. Porque Franco "queria manter o carácter secreto das operações, ter liberdade de manobra e também por questões de orgulho", explicou Ros Agudo ao P2. Contudo, após iniciados os ataques a Gibraltar e a Portugal, Espanha previa o apoio da aviação alemã, "nomeadamente com o reforço de bombardeiros e caças". A participação da aviação espanhola estava também definida no plano de ataque (com as missões de "destruir a aviação inimiga e as suas bases" e de "atacar os núcleos de comunicação, especialmente nas direcções da invasão, e os transportes de tropas"). Mas Espanha receava que o vasto contingente de homens em terra se confrontasse com a superioridade luso-britânica no ar. Neste âmbito, o reforço alemão seria indispensável. Assim como se afigurava prioritário um ataque terrestre devastador e célere.

Para a Marinha, o AEM planeara um conjunto de acções de defesa ("exercer acções com os submarinos sobre as comunicações inimigas", "proteger as comunicações com o Protectorado de Marrocos e Baleares"; "efectuar acções de minagem nos próprios portos") que pressupunham uma reacção rápida da Marinha britânica.


E Salazar?

Em Dezembro de 1940, quando Franco escreveu, assessorado pelo AEM, que decidira atacar Portugal - "Decidi [...] preparar a invasão de Portugal, com o objectivo de ocupar Lisboa e o resto da costa portuguesa" -, o Tratado de Amizade e Não Agressão, firmado pelos dois países em Março de 1939, não passava de um documento sem importância para o "Caudilho". Mas foi a partir desse acordo que os franquistas intensificaram as pressões diplomáticas para Portugal deixar de respeitar os compromissos da aliança luso-britânica: fizeram-no através de Nicolau Franco, irmão do ditador espanhol e embaixador em Lisboa; e também "aconselharam" o então embaixador português em Madrid, Pedro Teotónio Pereira.

Perante os planos de anexação, Espanha não desprezava apenas o pacto de não agressão, mas também a intervenção activa e material do Governo de Salazar no apoio aos franquistas durante a Guerra Civil de Espanha - três a cinco mil "viriatos" combateram nas fileiras das milícias da Falange, do Exército e da Legião espanhola, muitos deles recrutados através de anúncios nos jornais pagos pelo Estado; a rádio emitia propaganda franquista; e Salazar promoveu a mobilização anticomunista (recolhendo benefícios para a sustentação do Estado Novo).

Atentando no rigor e na determinação plasmadas no Plano de Campanha nº 1 (34), urge questionar qual o destino que reservava Franco para o ditador português, na eventualidade de a ocupação ter avançado.

A documentação descoberta por Ros Agudo cinge-se aos aspectos puramente militares e não contempla a "sorte pessoal" do presidente do Conselho. Mas o historiador, professor de História Contemporânea na Universidade San Pablo, em Madrid, avançou ao P2 duas hipóteses: "O destino de Salazar e do seu Governo, no caso de Portugal não conseguir resistir à invasão, seria estabelecerem-se nas colónias (Angola ou Moçambique); ou podiam exilar o Governo em Londres, como aconteceu com alguns países europeus ocupados pelo Eixo".


Palavras encomendadas

Quanto ao futuro de Portugal, não há qualquer referência nos documentos, ficando sem resposta a pergunta sobre se a ocupação seria ou não temporária. No entanto, Ros Agudo cita no seu livro as "inquietantes" palavras de Serrano Suñer, ministro dos Assuntos Exteriores espanhol, ao seu homólogo alemão, Joachim von Ribbentrop, datadas de Setembro de 1940: "(...) ninguém pode deixar de se dar conta, ao olhar para o mapa da Europa, que, geograficamente falando, Portugal na realidade não tinha o direito de existir. Tinha apenas uma justificação moral e política para a sua independência pelo facto dos seus quase 800 anos de existência".

Ros Agudo acredita que estas palavras, proferidas em Berlim, foram "encomendadas" a Suñer por Franco, com a intenção de averiguar "a reacção de Hitler perante a ideia de um Portugal integrado num futuro grande Estado ibérico". Mas "oFührer não quis fazer qualquer compromisso sobre este assunto", nota o historiador.

Apesar das declarações de Serrano Suñer, Manuel Ros Agudo não crê que Franco pretendesse "uma integração pura e dura num Estado ibérico" Porque isso arrastaria "muitos problemas". "É possível que, sob uma Nova Ordem europeia, na eventualidade da vitória fascista e da derrota da Grã-Bretanha, Franco tivesse permitido a existência de um Portugal marioneta, fascista e inofensivo", diz. E, continuando num exercício de História virtual, acrescenta: "Se a Rússia tivesse sido eliminada por Hitler, o grande confronto, ou a Guerra Fria dos anos 50 e décadas porteriores, teria acontecido entre os EUA, por um lado, o grande bloco euro-africano fascista, pelo outro, assumindo este último um papel semelhante ao bloco soviético que conhecemos. Tanto Espanha como Portugal teria feito parte desse bloco constituído pelas potências do Eixo".

Nos últimos meses de 1940, o Plano de Campanha nº 1 (34) esteve prestes a ser realizado. Franco ordenara a prontidão militar para o ataque. Mas o que lhe sobrava em meios operacionais faltava-lhe em condições políticas, nomeadamente a garantia dos apoios alemão e italiano e a concretização das ideias imperialistas. "Os requisitos políticos para dar esse passo - as garantias de obtenção de um império em África - acabaram por não ser dados", explica Ros Agudo.

O plano foi então depositado em arquivo e tornado inacessível durante quase sete décadas.»


Em: Público,P2 - 23/10/09, por Maria José Oliveira


21 outubro 2009

Rio de Frades - Minas do Volfrâmio

«O Volfrâmio foi para as populações do Norte, deserdadas de Deus, o que o maná foi para os Israelitas através do deserto faraónico.»
Volfrâmio, Aquilino Ribeiro


«Aquando da Primeira Guerra Mundial, iniciou-se em Arouca a corrida ao Volfrâmio, minério utilizado no fabrico de armas e munições, com vista ao seu endurecimento e maior resistência.»

«O antigo Couto Mineiro de Rio de Frades localiza-se na freguesia de Cabreiros, junto à povoação de Rio de Frades, concelho de Arouca e distrito de Aveiro; as primeiras minas de volfrâmio foram aqui demarcadas em 6-5-1914. A exploração destas minas, no período das Guerras Mundiais, foi efectuada pela Companhia Mineira do Norte de Portugal, pertença de alemães. A mina de Poça da Cadela, a mais importante de Regoufe e próximo da aldeia homónima foi concedida em 9-9-1915, tendo sido extinta pelo decreto lei nº88/90. Estas minas foram exploradas, no seu período áureo, pela Companhia Portuguesa de Minas, que na realidade pertencia a ingleses. Os dois centros mineiros distam, apenas, cerca de 5 km.
Como é referido em Silva e Ribeiro (2004), as minas de Rio de Frades e Regoufe constituem, no concelho de Arouca, o primeiro grande movimento de industrialização e de proletarização, e ainda, o maior investimento estrangeiro, até à actualidade.

De entre as várias minas na região de Rio de Frades, a mina de Vale da Cerdeira, situada numa abrupta escarpa ribeirinha a cerca de 1 km da aldeia, foi a mais importante. Os filões eram sub-horizontais (inclinando 10º-15 º para W) e de direcção N10º-30º W, encaixados em xistos. No plano de lavra desta mina, realizado no ano 1916, encontram-se dados interessantes acerca da exploração. O desmonte do minério consistia em abrir galerias com a direcção do filão, a diferentes cotas. De 30 em 30 metros abriam-se galerias inclinadas ao longo do pendor do filão, ficando este, assim, seccionado em prismas rectangulares, que eram desmontados através do método dos degraus invertidos (isto é, da parte inferior para a superior). Pelo menos onze filões, sub-paralelos e a diferentes níveis, eram conhecidos já em 1916, na mina de Vale da Cerdeira. O minério e o estéril eram despejados em chaminés, sendo recolhidos na galeria de extracção existente a uma cota inferior à do filão mais baixo.

Em Rio de Frades foram abertas mais de 6 km de galerias. Uma delas (na foto) , acessível perto do aglomerado de habitações designado "Bairro de Cima", tem cerca 157 m e fura o monte em linha recta, indo desembocar, junto a uma queda de água, num cenário de grande beleza.

Os escassos documentos existentes, minimamente fidedignos, apontam para que Rio de Frades fosse a terceira mais importante área mineira portuguesa à época (a seguir às minas da Panasqueira e da Borralha)

Do ponto de vista social, e a título de comparação, nas minas de Rio de Frades, chegaram a trabalhar mais de 3000 pessoas (Vilar, 1998)
Segundo depoimentos orais de uma pessoa que teve no local com cerca de dez/doze anos de idade acompanhando o Pai nos trabalhos de extracção, Rio de Frades comparado com as terras de onde estes vinham, era muito mais "viva" e de grande azafama, chegando mesmo a haver posto da GNR.

Também se conta as histórias dos "pilhas" que eram «todos aqueles que demandaram a serra sem contrato nem projecto definido na procura do volfrâmio. No tempo da dita «febre do volfrâmio», e que no que se refere à população arouquense (e não só) , terão sido mais os que andaram na «pilha» do que aqueles que optaram pela dura profissão de mineiro. No período do auge da guerra, os «pilhas» aventuraram-se a abrir à picareta a dura rocha na esperança de encontrarem o «ouro negro» que lhe permitia fazer uma pequena fortuna». (Vilar. 1998).
Muitos enriqueceram, mas não só em Arouca. Também nas terras vizinhas com as "pilhas" e com o negócio se ganhou bom "dinheiro; em Vale de Cambra ouve um surto migratório para Arouca onde se procurava fortuna, alguns conseguiram o que procuravam, outros não, e esses vieram "com uma mão á frente e outra atrás"como contam agora algumas pessoas dos seus oitenta's e muitos anos.


Conta-se que havia homens que fumavam notas enroladas como demonstração da abundância deste. Ainda hoje me dizem: esta casa foi construída com o dinheiro do negócio do Volfrâmio.
E até chegaram em Vale de Cambra a "esburacar" os montes (monte de Vila Cova de Perrinho) mas pelo que consta o "filões" eram na vertical, o que os tornava de muito difícil exploração, e a sua abundância era muito mais reduzida do que em terras de Arouca.

«De Arouca saíram muitos milhares de contos de volfrâmio; um legal e a maioria levado pelas redes de contrabando. As fortunas efémeras assim criadas, foram esbanjadas e, terminado o conflito mundial, voltava-se à pacatez do amargo pão de cada dia, num concelho tutelado e triste que só via esperança nas migrações.»

O volfrâmio em 1942 estava oficialmente cotado ao preço de 150 escudos o quilo; no entanto no mercado livre vendia-se a 500 escudos chegando no pico do conflito mundial a transacionar-se a 1000 escudos. Nessa altura um mineiro ganhava 18 a 20 escudos por dia e um trabalhador rural 7 a 8 escudos, importâncias que permitem relativizar o valor do metal na altura.
Assim é virtualmente impossível saber quanto volfrâmio foi extraído nas serras de Arouca, porque muito do volfrâmio era vendido pelos "pilhas" ilegalmente.



Foto: Ruínas das oficinas, da lavaria (do outro do caminho) e do armazém (mais ao fundo)












Foto: a meia encosta, uma escombreira com material estéril saído das galerias.











«Além de toda a carga histórica e mineira que aqui se respira, o arranjo cénico da paisagem envolvente é também inesquecível. Esta é marcada por vales fortemente encaixados onde correm águas límpidas e cristalinas como a ribeira da Covela e a ribeira da Pena Amarela, que confluem ali bem perto. A ribeira de Covela forma até uma queda de água que prende o olhar do pedestrianista».

No entanto, «as minas de volfrâmio de Arouca constituem património da arqueologia industrial mas estão ainda ao abandono e a aguardar urgente intervenção».

Por ali «passaram aquando das duas guerras, mas principalmente na Segunda Guerra Mundial, para além dos mandatários de ambas as potências, ingleses e alemães, milhares de mineiros, de aventureiros, de gente de toda a espécie e, terminada a guerra, ficou ao abandono toda a arqueologia utilizada na exploração do minério, bem como muitas construções então utilizadas, quer na extracção, quer na logística.

Rio de Frades e Regoufe são hoje dois lugarejos perdidos nos confins da serra, ambos situados em locais paradisíacos, que constituem um dos mais ricos patrimónios naturais do concelho, a merecer o tratamento adequado, no sentido de perpetuar na memória, um tempo de grandezas e misérias de um povo que aí buscou fortuna e encontrou quase sempre a glória efémera.

No lugar de Rio de Frades podemos ver ainda, em bom estado de conservação as muitas construções edificadas pela Companhia alemã, para alojar os muitos mineiros e também para os escritórios da empresa que durante cerca de cinco anos aí se dedicou à exploração de volfrâmio.

Acabo isto com este pequeno excerto da pequena escola básica de Rio de Frades: «Nessa altura, chegaram a trabalhar em Rio de Frades mais de 3000 pessoas. Havia Hospital, escola, refeitório, estradas... Com o fim da Guerra, o volfrâmio deixou de ter procura e a exploração das minas foi abandonada. Passou de um centro “avançado” à “cidade abandonada” que é hoje. ...Sem estradas, sem Hospital, sem comércio...»


Bibliografia:
Fotos: Jorge Russo
Câmara Municipal de Arouca
Percurso na Geologia de Arouca
VALORIZAÇÃO DO PATRIMÓNIO GEO-MINEIRO DA SERRA DA FREITA (NORTE DE PORTUGAL), António Moura, Dep. Geologia- Centro de Geologia, Universidade do Porto
Rota do Ouro Negro
Resumo Histórico de Arouca



18 outubro 2009

Neutralidade na II Guerra Mundial

Nota do Governo ao País

"Apesar dos incansáveis esforços de eminentes chefes de governo e da intervenção directa dos chefes de muitas nações, eis que a paz não pôde ser mantida e a Europa mergulhada, de novo, em dolorosa catástrofe. Embora se trate de teatro de guerra longínquo, o facto de irem defrontar-se na luta algumas das maiores nações do nosso continente - nações amigas e uma delas aliada - é suficiente para o grande relevo do acontecimento e para que dele se esperem as mais graves consequências: não só se lhe pode ficar estranho pelo sentir, como há-de ser impossível evitar as mais duras repercussões na vida de todos os povos.

Felizmente, os deveres da nossa aliança com a Inglaterra, que não queremos eximirmos a confirmar em momento tão grave, não nos obrigam a abandonar nesta emergência a situação de neutralidade.

O governo considerará como o mais alto ou a maior graça da Providência poder manter a paz para o povo português, e espera que nem os interesses do país, nem a sua dignidade, nem as suas obrigações lhe imponham comprometê-la.
Mas a paz não poderá ser para ninguém desinteresse ou descuidada indiferença. Não está no poder de homem algum subtrair-se e à Nação ás dolorosas consequências de guerra duradoura e extensa. Tendo a consciência de que aumentaram muito os seus trabalhos e responsabilidades, o Governo espera que a Nação com ele colabore na resolução das maiores dificuldades e aceite da melhor forma os sacrifícios que se tornarem necessários e se procurará distribuir com equidade possível.

A todos se impõe viver a sua vida, mas agora com mais calma, trabalho sério, a maior disciplina e união; nem recriminações estéreis nem vãs lamentações, porque em muito ou pouco fique prejudicada a obra de renascimento a que metemos ombros. Diante de tão grandes males, faz-se mister ânimo forte para enfrentar as dificuldades: e da prova que ora derem, sairá ainda maior a Nação."

Em: Jornal de Notícias, 2 de Setembro de 1939

15 outubro 2009

Agostinho Lourenço


Agostinho Lourenço da Conceição Pereira nasceu a 5 de Setembro de 1886 na freguesia de S. Mamede, em Lisboa. Alistou-se como voluntário na Companhia de Equipagens, sendo incorporado em 24 de Junho de 1906. Em 1912 é promovido a Alferes.
Oficial de Infantaria, foi promovido a capitão após a I Guerra e colocado no Estado-Maior do Exército (Carreira de Tiro de Lisboa (Pedrouços)). Com a Ditadura Militar, abandona a sua carreira nas forças armadas e ingressa na PSP onde é nomeado Comissário da 3ª Divisão da PSP de Lisboa. Exonerado a seu pedido de Comandante de Divisão da PSP de Lisboa, em 1931, torna-se director da Polícia Internacional e, dois anos depois, da PVDE. Durante a II Guerra, garante uma imagem de neutralidade (ainda que por vezes lhe sejam imputadas simpatias anglófilas). Após a extinção da PVDE, continua a assegurar a direcção do organismo que a substituiu - a PIDE -, cargo que manteve até finais dos anos 50. Esteve, assim, à frente dos destinos das polícias políticas do Estado Novo - Polícia Internacional, PVDE e PIDE - durante mais de vinte anos.

De um relatório dos serviços de espionagem ingleses de 16 de Julho de 1941 sobre alguns responsáveis da PVDE extrai-se o seguinte sobre Agostinho Lourenço:

O Capitão Lourenço dirige-se sempre aos seus subalternos como Director. É uma pessoa particularmente activa e disciplinadora. As decisões importantes não são tomadas pelo staff sem obterem a sua aprovação e consentimento. Chefia os serviços com mão de ferro. O Capitão Lourenço é amigo pessoal do Presidente do Conselho. Quando Salazar chegou ao poder, pediu a Lourenço para chefiar a PVDE. Ele concordou, na condição de poder actuar sem interferências de qualquer espécie, Salazar acedeu. (...) Creio que Lourenço é um homem sem preconceitos, indiferente a rumores. É uma pessoa de princípios (...) 1

No entanto, os serviços secretos suspeitam que Agostinho Lourenço tenha sido comprado pelo serviço de informação alemão, provavelmente terá recebido mil contos (meio milhão de euros, hoje). Agostinho Lourenço acredita na invencibilidade dos alemães e possui aquilo que considera mais importante: poder e autoridade.
Os Britânicos equacionam também a "compra" do director, mas chegam á conclusão que a «aquisição» é improvável. Acreditam que a melhor opção é subornar os colaboradores de Lourenço. 2

De outro relatório dos serviços britânicos, passado algum tempo do primeiro, com acusações particularmente graves:

A deterioração do estado físico de LOURENÇO é tal que Portugal já não lhe interessa. Apenas se preocupa com as costuras dos seus bolsos sujos. Os alemães sabem pertinentemente que o homem é doente e tratam-no agora como um criado e não como um colaborador. Cada vez mais a sua actividade é contrabando (...) Vendeu toneladas de alimentos á Alemanha. Os alemães enganam-no ás claras, e ao menor sinal de resistência a alguns dos seus pedidos maís incríveis, ameaçam contar tudo. É um esquema que resulta sempre porque é a coisa que ele mais teme. Lucrou bastante com o negócio do volfrâmio. Conseguiu comprar volfrâmio ao preço legal e vendeu-o ao ministro romeno Cadere pelo dobro. Cadere cobrou ainda mais ao governo romeno. Toda a gente sabe que ele também está metido no caso KRAIS. Sacou o seu antes de KRAIS ser descoberto (Friederich KRAIS confessou que um agente alemão transportou para Portugal acções, obrigações e dinheiro que supostamente pertenciam a Hermann Goering e que os alemães transferiram quantidades importantes de ouro e demais valores para o Banco de Portugal). Os britânicos sabem do que é capaz e quanto mais se enterrar no lodaçal pior vai ser para ele. O novo embaixador vai entregar pessoalmente a Salazar um dossier sobre as suas actividades. O dossier prova que ele é pior do que um vigarista - é um traidor. 3

Salazar não demite o responsável da PVDE. No final da guerra, o Capitão Agostinho Lourenço é nomeado pelo Presidente do Conselho director da recente-criada PIDE. Só resta saber, portanto, se o dossier comprometedor foi entregue a Salazar...

Agostinho Lourenço morre em 1964.

___________
1 , 2 e 3 : O Diário Secreto que Salazar não Leu, Rui Araújo, Oficina do Livro

Bibliografia:
Serviço de Informações de Segurança (SIS)
O Diário Secreto que Salazar não Leu, Rui Araújo, Oficina do Livro
Sábado

14 outubro 2009

Vôo 777 - A ( Lisboa - Whitchurch )



O Douglas DC-3 Ibis da BOAC, Lisboa - Grã-Bretanha é abatido por caças da Luftwaffe na manhã de terça-feira, 1 de Junho, quando sobrevoa o Golfo da Biscaia. O incidente é amplamente noticiado na Europa e nos Estados Unidos, sobretudo pela presença entre as vítimas da estrela de cinema de Hollywood, Leslie Howard, e as circunstâncias misteriosas que o rodeiam. As agências noticiosas internacionais emitem despachos no dia 2.» Jornais portugueses também relatam os factos tendo o Século publicado 8 notícias, incluindo honras de primeira página.

Em 1939, Leslie Howard interpreta o papel mais importante da sua carreira: o do gentleman Ashley Wilkes, em Tudo o Vento Levou. O filme é um sucesso, mas o actor (judeu) inglês instala-se em Londres e começa a participar nas operações de propaganda antinazi, designadamente como realizador de cinema. O Diário da Manhã (afecto ao regime) é, no dia 3, um dos primeiros jornais portugueses a noticiar a tragédia.

Reproduzem-se as interrogações da imprensa londrina sobre o desastre:
As carreiras aéreas entre a Inglaterra e Portugal gozaram de imunidade até ao dia em que um avião desse serviço é atacado pelo inimigo. Qual é pois a razão deste ataque?» - pergunta Ward Price, jornalista britânico muito conhecido pelas suas viagens aos diversos países da Europa, antes da guerra. É de presumir - diz ele - que os alemães se esforçassem especialmente por interceptar determinado avião.»

António Leite Faria, primeiro secretário da embaixada de Portugal em Londres nessa altura, contou ao escritor Fernando Dacosta que o ataque podia resumir-se a uma tentativa para assassinar Winston Churchill.

Parece que os serviços secretos alemães viram um senhor muito gordo embarcar na Portela e pensaram que podia ser o Churchill. Lisboa era na altura, dada a ocupação da França, um ponto de passagem obrigatório para a Inglaterra, para a América, para o Norte de África, para o Médio Oriente.

O "senhor muito gordo" que fumava charuto e embarcou nessa manhã na Portela de Sacavém é Alfred Chenhalls, amigo e contabilista de Leslie Howard. Uns anos mais tarde, o próprio primeiro-ministro britânico menciona este boato no IV volume das suas memórias de guerra:
A brutalidade dos alemães só era comparável á estupidez dos seus agentes. É difícil imaginar que com todos os recursos da Grã-Bretanha ao meu dispor, eu fosse marcar passagem num avião comercial sem escolta para regressar a Londres á luz do dia.

De repente, surgiu a voz do piloto holandês no rádio: «Estou a ser seguido por aeronaves estranhas. Estou a aumentar a velocidade...Estamos a ser atacados. Tiros de canhão e tracejantes estão a penetrar na fuselagem. Tenho esperança e faço o melhor que posso». A partir dai, o silêncio».

No dia seguinte, Berlim emitia um comunicado em que reivindicava ter abatido um aparelho inimigo que sobrevoava a Atlântico. Londres anunciava que o Douglas com quatro tripulantes e 13 passageiros, incluindo o actor Leslie Howard, estava atrasado e presuvilmente perdido. Pela primeira vez, um aparelho comercial sem armamento, que efectuava a carreira Lisboa - Londres desde 1940, foi abatido. Qual a razão?
O Douglas tinha deslocado da Portela, um aeroporto utilizado por aviões dos Aliados e do Eixo. A carreira da tarde de Londres servia para transportar jornais ingleses para a Legação Alemã. E permitia obter (através da Suíça) informações sobre os prisioneiros de guerra. Os aviões que passavam pela Portela beneficiavam de um estatuto implícito de imunidade.
Os ingleses consideram a violação do salvo-conduto um incidente integrado na caça a Winston Churchill, que viajava para Inglaterra, em proveniência da América do Norte e do Norte de África.

Segundo o perito de aeronáutica Chris Goss, o Douglas não foi atacado intencionalmente porquanto os pilotos dos oito Junkers Ju 88 do Grupo V Kampfgeschwader 40, que deslocaram de Bordéus nessa manhã, desconheciam a presença de aviões civis na zona que patrulhavam, Há pelos menos, três teorias para explicar o ataque da aeronave da BOAC:

1 - Confusão entre Winston Churchill e o passageiro Alfred Chenhalls.
2 - Confusão entre Leslie Howard e o guarda-costas de Churchill, Walter H. Thompson.
3 - Erro da Luftwaf.

Viajavam também no avião com destino a Londres o Sr. Stonehouse, redactor chefe da Reuter em Washington e o gerente da Shell em Portugal, Sr Sheringtow além de várias senhoras e crianças.
O ataque do Douglas da BOAC é considerado pelo governo de Londres um «crime de guerra» e a morte de Howard é sentida como uma tragédia nacional.
Não houve mais aviões comerciais (da carreira de Lisboa) abatidos durante a guerra.

Em: O Diário Secreto que Salazar não Leu, Rui Araújo, Oficina do Livro

Mussolini - Espião ao serviço de Inglaterra


Mussolini foi um espião inglês durante a I Guerra Mundial

«O ditador italiano Benito Mussolini foi um agente secreto inglês antes de ter fundado o regime fascista que lutaria contra os exércitos do Reino Unido durante a II Guerra Mundial, revelou o diário britânico Guardian.

Um historiador de Cambridge, Peter Martland, descobriu nos arquivos britânicos documentos que provam que em 1917 Benito Mussolini foi pago pelo MI5, os serviços secretos de Londres, para escrever artigos a favor da continuação da Itália na I Guerra Mundial ao lado dos aliados e atacar manifestantes pacifistas.

Mussolini, então um jornalista de 34 anos, editava o jornal "Il Popolo d’ Italia" e controlava grupos de antigos veteranos do exército, que atacavam manifestações contra a presença italiana na guerra em Milão.

“Depois da Rússia revolucionária ter saído do conflito, a Itália era o aliado mais falível dos britânicos no conflito. Mussolini recebeu uma soma de cem libras por semana a partir do Outono de 1917 durante pelo menos um ano para manter a campanha pró-guerra – uma verba equivalente a seis mil libras hoje (cerca de 6400 euros)”, disse Peter Martland ao Guardian.

“A última coisa que a Grã-Bretanha queria eram manifestações a favor da paz e greves que parassem as fábricas de armamento em Milão. Era muito dinheiro para um jornalista naquela época, mas comparado com o esforço financeiro britânico – quatro milhões de libras diários – eram apenas trocos”, acrescentou.

O caso já fora mencionado em 1954 nas memórias de Sir Samuel Hoare, o agente do MI5 que recrutou Mussolini, mas esta foi a primeira vez que foram encontradas provas documentais, como os pagamentos feitos ao ditador italiano.»

Fonte: Público

12 outubro 2009

General Fernando Tamagnini

Fernando Tamagnini de Abreu e Silva (1856-1924)

Comandante do CEP


Nasceu em Tomar a 13 de Maio de 1856 e faleceu, em Lisboa, a 24 de Novembro de 1924. Oficial da arma de Cavalaria foi o general escolhido para comandar a Divisão de Instrução mobilizada em Tancos e o Corpo Expedicionário Português (CEP) constituído e enviado para França, em 1917, para apoiar os Aliados na guerra contra a Alemanha. Alguns meses depois da batalha de La Lys (9 de Abril de 1918), em que o CEP foi destroçado por uma poderosa ofensiva alemã, foi substituído, em 25 de Agosto, no comando daquele Corpo pelo general Garcia Rosado.


A primeira proclamação do General Tamagnini ás tropas Portuguesas em França



Serviço da Republica
______

Corpo Expedicionario Portuguez

Soldados!


Ao assumir, em França, o Comando do Corpo Expedicionario Portuguez, com que o governo da Republica Portugueza me honrou, saúdo-vos, cheio de entusiasmo, expressando-vos o meu desvanecido orgulho por vos comandar.

Tenho a certeza de que, na luta em que vamos entrar para a defeza do Direito da Liberdade, e da nossa propria Honra, pelos nossos inimigos ultrajada sabereis revelar todo o conjunto de qualidades e sentimentos, que, em todas as epocas, distinguiram os soldados de Portugal.

Tenho a maior fé de que regressareis ás vossas terras, ao seio das vossas familias, com a consciencia do dever cumprido, depois de aqui terdes, ao lado dos valoros exercitos Britanico e Francez, vingado os nossos irmãos da afronta recebida em terras d'Africa e honrado a nossa querida Patria, em cuja bandeira se contemplam as imorredouras quinas, até hoje cobertas de gloria em todas as partes do Mundo.
Ao enviar-vos a minha saudação, sei que dentro de vossos peitos palpita, como no meu, o mesmo entusiasmo fervoroso pela vitória dos Aliados, que é a vitoria da nossa propria Causa, e que comigo repetireis:

Vivam os Aliádos! Viva Portugal! Viva o Exercito Portuguez!

Fernando Tamagnini
General


Bibliografia:

| História da I República | Biografias | Biografias | TAMAGNINI de ABREU e SILVA, Fernando (1856-1924)

PORTUGAL NA GUERRA - Revista Quinzenal Ilustrada nº 1 - 1 de Junho de 1917

Blog: Ilustração Portuguesa

09 outubro 2009

Anne Frank - Imagens únicas

Imagens únicas de Anne Frank, a menina judia alemã que se escondeu dos nazis em Amesterdão, Holanda, e morreu num campo de concentração aos 15 anos, podem ser vistas na Internet, no YouTube.Nas imagens, Anne Frank assoma à janela da sua casa, de onde observa uma das suas vizinhas no dia do seu casamento, a 22 de Julho de 1941. Trata-se de 20 segundos com que a Fundação Anne Frank, impulsionadora da ideia, pretende que "as pessoas de todo o mundo conheçam o significado da vida" da menina judia.

Através do YouTube, os cibernautas podem ainda aceder a entrevistas com Otto Frank, pai de Anne, e a testemunhos de pessoas como Miep Gies, contemporânea da rapariga e que sabia que a sua família permanecia oculta.

A Fundação Anne Frank propõe-se inaugurar, em Abril, uma ala virtual do seu museu para que possa ser visitado através da Internet.

Anne Frank (1929-1945) viveu durante dois anos num anexo de um quarto de uma casa em Amesterdão com a sua família. Durante esse tempo escreveu um diário, que foi publicado pela primeira vez em 1947, dois anos depois do fim da II Guerra Mundial.




SIC/LUSA

08 outubro 2009

Operação Cólera de Deus

Operação Cólera de Deus, foi uma operação secreta dirigida por Israel e pelos seus serviços secretos Mossad, para assassinar pessoas que estiveram directamente ou indirectamente envolvidos no massacre dos Jogos Olímpicos de Munique de.

Os alvos da operação incluíam membros do grupo terrorista palestiniano Setembro Negro, que foram responsáveis pelo ataque de Munique, e membros da Organização de Libertação da Palestina (OLP), tambem acusada de estar envolvida. Com o aval da primeira-ministra israelita Golda Meir, no Outono de 1972, a operação começou e pode ter continuado por mais de 20 anos.

Durante esse tempo, unidades encobertas de assassinos israelitas mataram dezenas de conspiradores suspeitos em toda a Europa, incluindo o assassinio de um inocente (por engano) em Lillehammer, na Noruega, que ficou conhecido como o caso Lillehammer. Um assalto militar adicional foi lançado pelo exército israelita no interior do Líbano para matar vários alvos palestinianos de alta "patente". Essa sequência de assassinatos estimulou ataques de retaliação pelo Setembro Negro contra uma variedade de alvos do governo de Israel em todo mundo. Ouve tambem muitas críticas a Israel sobre a sua escolha de alvos, tácticas de assassinio e de eficácia. Devido à natureza secreta da operação, alguns detalhes são verificáveis para além de uma única fonte, incluindo a história de um israelita que afirma ter liderado um esquadrão da morte.

Várias denominações surgiram para os grupos formados pela Mossad, que realizaram a campanha de assassinios. É possível que diferentes grupos fossem formados para objectivos diferentes, e estes existem em diferentes períodos de tempo, o que pode explicar a grande variedade de relatórios. Certeza existe unicamente sobre os assassinatos que de facto ocorreram, embora a informação seja baseada em fontes limitadas.

Sabe-se também que o agente da Mossad, Michael Harari levou à criação e direcção das equipas, embora algumas podiam não estar sempre sob a responsabilidade do governo. Simon Reeve, explica como consistia uma equipa da Mossad:

... quinze pessoas divididos em cinco pelotões: "Aleph": dois assassinos treinados; "Bet": dois guardas que seriam a sombra dos "Alephs"; "Hete": dois agentes, que cobriam o restante da equipa alugando quartos de hotel , apartamentos, carros, e assim por diante; "Ayin," que inclua, entre seis e oito agentes que formavam a espinha dorsal da operação, o sombreamento de provas e criava todas as rotas de fuga para os "Alephs" e para os "Bet"; "Qoph", dois agentes especializados em comunicações.

Uma outro testemunho totalmente diferente, no livro Vengeance (A Vingança), afirma que o conjunto da Mossad, uma unidade de cinco homens de pessoal treinado que operou na Europa estava fora do controlo directo do governo, e que as suas comunicações eram feitas apenas com Harari.

Principais Operações


1972


A primeira morte ocorreu a 16 de outubro de 1972, quando o palestiniano Wael Abdel Zwaiter foi baleado 11 vezes no seu apartamento em Roma. Dois agentes israelitas esperaram-no quando este voltava de jantar e, após os disparos foram levados para uma casa segura. Israel acreditava que Zwaiter era o representante da OLP em Itália, e que este era um membro do Setembro Negro e estava envolvido num plano fracassado contra um avião da El Al, membros da OLP alegaram que ele não estava de nenhuma forma conectado e que este era totalmente contra o terrorismo.

O segundo alvo da Mossad foi o Dr. Mahmoud Hamshari, que era o representante da OLP em França. Usando o disfarce de jornalista um agente da Mossad conseguiu uma entrevista no seu apartamento em Paris para permitir que uma equipa de explosivos conseguisse instalar uma bomba debaixo da mesa de telefone. Em 8 de dezembro de 1972 ocorreu o atentado mas Hamshari não foi imediatamente morto pela explosão, mas morreu ao cabo de um mês, dos ferimentos. Israel escolheu-o como alvo, porque acreditava que ele era o líder do Setembro Negro na França.

1973

Na noite de 24 de janeiro de 1973, Hussein Al Bashir, o representante da Fatah no Chipre, desligou as luzes do seu quarto de hotel em Nicósia. Momentos depois, uma bomba colocada debaixo da cama pela Mossad remotamente controlada foi detonada, matando o alvo e destruindo totalmente o quarto. Israel acredita que ele fosse o chefe do Setembro Negro no Chipre, embora uma outra razão apontada para o seu assassinato fosse os seus vínculos estreitos com o KGB.

Paris, 6 de abril de 1973, Dr. Basil al-Kubaissi, professor de Direito na Universidade Americana de Beirute, suspeito de fornecer armas e logística para o Setembro Negro, bem como estar envolvido em outros assuntos palestinianos, foi morto a tiro quando voltava para casa de jantar. Como em assassinios anteriores, foi baleado 12 vezes por dois agentes israelitas.


Ali Hassan Salameh

A Mossad continuou no cerco a Ali Hassan Salameh, apelidado de "Príncipe Vermelho", que era o chefe da «Força 17» (Unidade de Elite da Autoridade Nacional Palestiniana) e um dos mais importantes operativos do Setembro Negro sendo considerado por Israel o cérebro do massacre de Munique. Essa crença foi contestada por altos funcionários do Setembro Negro.
Quase um ano depois de Munique, a Mossad acreditava que tinha finalmente Salameh localizado na pequena cidade norueguesa de Lillehammer. A 21 de Julho de 1973, no que viria a ser conhecido como o caso de Lillehammer, uma equipa de agentes da Mossad matou (com informações falas) Ahmed Bouchiki, um garçon marroquino não relacionado com o ataque de Munique nem com Setembro Negro. Seis agentes da Mossad, incluindo duas mulheres, foram capturados pelas autoridades norueguesas, enquanto outros, incluindo o líder Mike Harari, conseguiu fugir para Israel. Cinco dos capturados foram condenados por assassinio e presos, mas foram libertados e voltaram para Israel em 1975. Victor Ostrovsky considera que o proprio Salameh foi crucial ao conduzir a Mossad para fora do seu curso, dando as informações falsas sobre o paradeiro dele.



Vengeance (A vingança)

O livro Vengeance 1984 (A vingança): A Verdadeira História de uma Equipa Contra-Terrorista Israelita, do jornalista George Jonas, conta a história de um esquadrão de morte israelita do ponto de vista de um agente da Mossad e ex-líder de um esquadrão, Avner. Avner desde então tem sido revelado como um pseudônimo para Yuval Aviv, um israelita que agora dirige uma agência de investigação privada, em Nova Iorque, no entanto este não confirma esta tese. Após a sua publicação em 1984, o livro tornou-se um best-seller.

Desde o seu lançamento, dois filmes foram baseados em Vengeance. Em 1986, Michael Anderson dirigiu o filme HBO Sword of Gideon. Steven Spielberg lançou um segundo filme baseado no livro, em Dezembro de 2005, intitulado Munique. Ambos os filmes usam pseudônimo Yuval Aviv Avner para terem uma certa "licença artística".

"Avner" era um vulgar agente da Mossad quando, com apenas vinte e seis anos de idade, foi pessoalmente escolhido por Golda Meir para liderar uma equipa de agentes especializados, com a missão de localizar, perseguir e eliminar os responsáveis pelo massacre de onze atletas israelitas, perpetrado durante os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. "Munique – A Vingança" é a espantosa descrição de que como toda essa operação foi montada, e revela o modo impiedoso e extraordinariamente eficaz como o grupo levou a cabo essa sua missão, perseguindo os seus alvos palestinianos e executando-os com timings perfeitos. Trata-se de um relato profundamente humano, uma história real de espionagem que leva o leitor a entrar no obscuro mundo do terrorismo e política internacional. Mas este livro torna também evidente a outra face dessa mesma moeda: o terrível paradoxo que emerge sempre que aqueles que detêm o poder resolvem enfrentar o terrorismo utilizando as mesmas tácticas.

Filme MUNICH

Munich é um filme de 2005 realizado por Steven Spielberg sobre os acontecimentos que se seguiram ao Massacre de Munique de 1972. Ele segue um equipa da Mossad que tem por missão caçar e matar os arquitectos do Setembro Negro responsáveis pelo assassinato dos atletas israelitas e o fardo que isso foi para a equipa. O filme é parcialmente baseado no livro Vengeance ( Vingança) de George Jonas. O Filme foi indicado para cinco Óscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador. Foi também indicado para dois Globos de Ouro, incluindo o de Melhor Realizador.







05 outubro 2009

Diário de Campanha II - Primeira Guerra Mundial



DIARIO DE CAMPANHA

Do Capitão X...

Quarta-feira, 2 de Maio. Acordo pelas sete horas da manha. Sento-me sobre o meu leito de campanha, ponho em movimento as articulações e vejo, a um palmo do meu nariz, um prato onde uma talhada de prezunto fraternisa com um ovo estrellado. É o first-breakfast, que um tenente me estende. Devoro-o, bem como uma tapioca com assucar que sobrevem, regando-os com optima ceraveja. Uma chavena de chá, umas torradas, uma cachimbada de tabaco louro e o dia começa.
Cá fora da toca o sol está explendido. Passaritos cantam no terrapleno, soldados inglezes fazem a barba e nós oficiaes procedemos á nossa toilette. Nunca, nem mesmo nas trincheiras, um subdito de Sua Magestade britanica deixaria de se barbear todos os dias. Barbeiam-se de côr, sem espelho, com navalhas ageis e delgadas que passam como uma caricia sobre pelles maravilhosas de frescura e de côr.

D'alli a pouco partimos para a ronda da manhã. O mesmo itinerario da véspera, mas agora á luz clara do sol. Reconheço locaes entrevistos de noite, cruzo a cada passo os meus homens, que andam de parceria com os seus camaradas, fazendo a limpeza das trincheiras, esgotando agua á bomba, cavando regueiras, concertando parapeitos, isto emquanto outros nos postos de serviço entreteem o tempo limpando as armas. A desposição dos meus rapazes é excellente. Encontro-os a conversar no melhor portuguez com os inglezes que os escutam muitos sérios e como se entendem não sei. Ha frases que ouço a meúdo:
- « Quand guerre finish, bonne ! dizem os inglezes.
- « Yess! yess ! respondem os nossos.
- « Boches, pas bonnes...
- « Yess, yess, concordam os portuguezes.
De vez em quando um inglez toca no braço d'um soldado nosso e diz-lhe:
- « Come on. Promemade !
E lá vão os dois a uma fachina qualquer. Pergunto aos meus camaradas britanicos que impressão teem dos nossos soldados. Em cada posto peço ao capitão que consulte os seus sargentos e cabos. E, felizmente para mim e para honra de Portugal, a resposta é sempre a mesma.
- « Solids ! Bonnes !
Direi mesmo que para cavar e dar á bomba um portuguez valle bem dois inglezes. Quanto á sua serenidade sob fogo, basta que registe o espanto de um sargento inglez, que não podia perceber como, na ocasião do bombardeio, os nossos soldados ahiam dos abrigos para ir espreitar por cima dos parapeitos.
- « Para ver d'onde ellas vinham, meu capitão », explica-me um dos meus rapazes.
Um pouco de inconsciencia talvez, mas muita valentia afinal.
No fim da nossa ronda palmilhamos mais uns kilometros de trincheiras e chegamos ao posto de comando do batalhão.

Ahi, como sempre, o major e o comandante da brigada, que alli veiu de visita, me acolhem com toda a gentileza. Dentro da zona ingleza ha cerveja, cigarros e tabaco para cachimbo permanentes. O coronel e o major indagam do capitão o que se passou de noite e pedem noticias dos portuguezes. As companhias que me precederam deixaram boa impressão e a minha não desmerece da opinião formada. Visitamos o posto de socorro, primeiro escalão da assistência médica. Ha um major medico curiosissimo, fallando admiravelmente o francez e que passeiou o seu nariz exorbitante por Gallipolis e pelo Egypto antes de vir para França onde se sente felicissimo, sem querer largar o serviço das trincheiras.
Falla-se da duração da guerra. Acaba este anno, dizem todos.
O coronel diz-me que os portuguezes devem ser bons soldados. Respondo-lhe que a história da guerra peninsular, alem de outros documentos, é garantia das qualidades militares da nossa raça.
Shake hands fraternal e alliado, cerveja, cigarrada.

Regressamos, o capitão G. e eu ao nosso abrigo e já é hora de nova refeição. Continuo com um apetite admiravel. Um sargento informa-nos de que não há novidade. Apenas a arthilharia grossa continua o seu duêto. Sobre as nossas cabeças passam silvando granadas que, segundo consta, vão escavacar o acantonamento de onde saimos hontem. Um aeroplano inglez tenta voar sobre as linhas allemãs. Fazem-lhe uma barragem aerea e elle brinca, volta sobre as asas, sig-zagueia até voltar para trás. Faz calor e o captain senta-se á chineza sobre a cama e começa a escrever uma carta à que há-de ser M.me G., peut-être, apres la guerre...Tiro do meu saco La philosophie de Georges Courteline e leio algumas saborosas paginas. Pela porta aberta do abrigo, enquanto o sol escalda cá fora, passam soldados inglezes e portuguezes e busco adivinhar as preocupações d'estes. Vejo-os serenos, girando n'aquelle dedalo de caminhos enterrados como se estivessem n'uma parada de quartel, insensiveis ao perigo que nos ameaça a cada segundo. Chamo um e outro. Que tal? Uns estiveram de noite na primeira linha e acabam de ser rendidos. Contam a rir as suas impressões, enquanto os Tommies em volta os escutam interessados.

Ao cahir da tarde recomeça a musica. Os caminhos da rectaguarda e os da segunda linha principiam a levar a sua conta de metralha . E a pesca cega ao homem, dezenas de projecteis de artilharia e de balas de metralhadoras desperdiçadas para apanhar uma vida aqui, outra alem. E a Morte a entreter-se emquanto não chega a hora dos grandes golpes de fouce.
Entramos na segunda noite. O capitão G... já sabe a minha vida e eu já sei a d'elle. Era chemist antes da guerra e tenciona deixar o exercito mal ella acabe. Sabendo que ha de figurar n'uma cronica minha, pede que lhe envie o jornal. Quer alem d'isso no seu livro de guerra um autografo meu em francez: Escrevo este pensamento lapidar: - « Les boches sont des cochons et le capitaine G... est un frére. » Vamos dar outra volta
Ao atrevessarmos um caminho da B. Line, crepita ao longe uma metralhadora; sobre as nossas cabeças, na rama das arvores, silvam as balas. - «Pas bon!» - exclama o meu companheiro estugando o passo até á proxima trincheira cahiu cerca de um abrigo deserto. Tudo está a postos. Uma équipe que tenta ir collocar arame farpado tem de regressar e os meus portuguezes que a acompanham voltam furiosos por terem sido descobertos.

Vamo-nos deitar. De tempos a tempos um oficial ou um sargento de ronda vem fazer o seu relatório. No meio da noite acordo. Um rato dança o cake-walk sobre a minha barriga.
- «What is this? pergunta um capitão, que está acordado.
Explico-lhe de que se trata.
- « No confortable, diz-me elle na escuridão.
Readormeço, passados instantes.

PORTUGAL NA GUERRA - Revista Quinzenal Ilustrada nº 1 - 1 de Junho de 1917; Colunista Capitão X, que por motivos óbvios mantém sigilosa a sua identificação

27 setembro 2009

Esquadrilha Lafayette

A história do Esquadrão Lafayette é a história de um dos mais desconhecidos, mas mais gloriosos episódios da Primeira Guerra Mundial. Em agosto de 1914, quando rebentou a guerra entre a França e a Alemanha, muitos cidadãos americanos residiam em França. Muitos deles vieram de famílias ricas, que viviam uma vida de luxo, que participavam em competições com os seus iates ou aviões. Uma declaração do escritor suíço Blaise Cendrars, apareceu no jornal francês "LeFigaro", convidando todos os residentes estrangeiros para se alistar no exército francês.

Todos aqueles jovens aventureiros americanos estavam prontos para lutar pela França a fim de defender a sua liberdade. Mas nem tudo foi tão simples como parecia. Os Estados Unidos não estavam envolvidos na guerra contra a Alemanha e qualquer cidadão americano servindo num exército estrangeiro perderia os seus direitos constitucionais e de cidadania. Os jovens decidiram fazer uma visita ao Embaixador dos Estados unidos em Paris, onde encontraram uma solução em que eles deveriam se alistar na Legião Estrangeira Francesa ou no Corpo de Ambulâncias. Dito e feito.

Inicialmente chamado "Escadrille l'an Américaine", o nome foi mudado para l'Escadrille La Fayette na sequência de um protesto diplomático alemão ao Governo dos estados Unidos da América. Dois oficiais franceses, o capitãoThenault e o tenente Alfred de Laage de Meux foram nomeados para comandar os sete americanos selecionados. Eram eles: Prince, Thaw e Cowdin, Victor Chapman,Kiffin Rockwell, James McConnell e Bert Hall.
A nova esquadra foi organizada em Luxeuil-les-Bains perto da frente de combate no sopé das montanhas de Vosges.

A primeira vitória do Esquadrão foi ganha por Kiffin Rockwell, em 20 de Maio de 1916 onde ele abateu um avião de observação alemão de dois lugares ao pé da Hartmanns-willerkopf, na Alsácia. O esquadrão foi, então, condenado a Verdun a mais violenta batalha da guerra.

Durante 1916 e 1917, outros voluntários americanos continuaram a chegar, de modo que, apesar das perdas, as fileiras do La Fayette Escadrille nunca foram esgotados. O transbordamento do recém-formados pilotos americanos foi enviado para outras unidades francês. Como resultado, o La Fayette Escadrille tornou-se parte de uma organização muito maior chamado Lafayette Flying Corps.

Em agosto de 1917, o La Fayette Escadrille ganhou quatro Legiões de Honra, sete Medailles Militaire e trinta e uma citações, cada um acompanhado por uma citação Croix de Guerre. Pilotos americanos em outros esquadrões também foram ganhando a sua quota de medalhas.

A esquadrilha tinha uma reputação de ousadia, imprudência, e uma atmosfera de festa. Dois filhotes de leão, chamado "Whiskey" e "Soda", foram feitas mascotes do esquadrão.

A La Fayette Escadrille deixou de existir em 18 de Fevereiro de 1918, quando se tornou o primeiro esquadrão de busca norte-americano, "S103". Este manteve os aviões francês e a mecânica. Dos 265 voluntários americanos na Força Aérea Francesa 225 receberam asas de voo e voaram em 180 missões de combate na frente da batalha de uniforme francês. Cinquenta e um morreram em acção, seis morreram em acidentes de formação e mais seis morreram de doença. Os pilotos americanos foram creditados com noventa e nove vitórias aéreas.

Cartoons publicados pela Hall of Fame of the Air na década de 30 demonstrando as façanhas dos pilotos americanos durante a I Guerra Mundial

(clicar para ampliar)



Na fotografia:
"A Esquadrilha Lafayette combate de novo nos ares da Tunisia. O general de Divisão Carlos Spantz (ao centro) falando com dois oficiais franceses da famosa Esquadrilha"




Filme FLYBOYS (trailer) que retrata alguns aspectos da Esquadrilha Lafayette





20 setembro 2009

Diário de Campanha - Primeira Guerra Mundial



DIARIO DE CAMPANHA

Do Capitão X...


«Terça-feira, 1 de Maio. - Esta manhã, sou acordado em sobresalto na mess de officiaes inglezes, onde fui aboletado e acolhido com a mais idalga gentileza, pelas detonações precipitadas de uma bateria proxima. Na soleira da porta um grupo de alferes e tenentes britanicos miram o ceu azul sem uma nuvem. Um aeroplano allemão segue por cima das nossas linhas. No ar, em volta d'êle e sem ó atingirem, estalam granadas. Elle passa. Dez minutos depois deslisa a toda a velocidade, n'uma estrada perto, uma bateria automovel de anti-aeros, a que deixou escapar a presa. Vamos ter novidade.

Pelo meio dia a brigada ingleza a que a minha companhia está adida communica-me que devemos estar formados ao cahir da tarde sobre a estrada e em pequenos grupos para seguirmos para as trincheiras. Pouco antes da hora marcada a estrada que havemos de seguir, começa a ser bombardeada com violencia. Consequencia das informações recolhidas de manhã pelo laube. Chega-nos a todo galope da sua mula um chefe de carro a communicar-nos que uma granada atingiu as viaturas que seguiam para o parque de transportes. Um morto, dois feridos de outra companhia portugueza que partilha o nosso acantonamento e hade partilhar o nosso sector. Começo a dividir e a ordenar a minha gente. Continua o fogo de barragem allemão. A noite vae cahindo e aproxima-se a hora. Surge de automovel uma banda de musica ingleza e, quando os primeiros grupos se põem em marcha pela estrada bombardeada, rompe a Portuguêsa.
Momento impressionante, Officiaes e soldados inglezes veem desejar-nos boa sorte.

Os grupos marcham espaçados, mantendo as distancias, condusidos por guias Inglezes. Um pouco antes da barragem cortamos pelo campo perpendicularmente á estrada e vamos atingir uma outra paralela. Vêem-se estalar as granadas perto e, á luz poente, nos campos e sob a metralha, continuam a sua faina agricola os habitantes que ainda permanecem n'esta região. Um grande cavallo preto arrasta um arado sobre o qual se senta, tranquilamente cachimbando, um velho de cabellos brancos. Na estrada junto de nós passam carros de aprovisionamento. À nossa esquerda uma bateria, escondida n'um arvoredo, riposta ao fogo allemão. A certa altura fazemos alto para colocar em posição as mascaras contra os gazes asphixiantes. Continuamos a marcha e não tarda que deixemos a estrada para seguir um caminho coberto á margem d'ela. Estamos já na terceira linha ingleza e vamos calcando as passadeiras de madeira de que havemos de calcar kilometros. Tornamos a atravessar a estrada e entramos finalmente n'uma trincheira de communicação. E então uma longa, interminável marcha n'um corredor onde só cabemos a um de fundo e que de cinco em cinco metros muda de direcção. De quando em quando a trincheira alarga e tem uma banqueta. Outras vezes descobre-se a abertura de um abrigo. O sol dos ultimos dias ainda não secou toda a água do Inverno e na escuridão succede fugir-nos um pé da passadeira e enterrarmo-nos na lama até ao tornozelo. Passam alguns ratos galopando assustados. Sobre as nossas cabeças o ceu é cheio de estrellas e, em volta de nós, as espingardas automáticas e as metralhadoras, procuram com o seu tiro indirecto ir apanhar nos caminhos descobertos, a esta hora classiea de render serviços, os grupos de homens passam por acaso. Estamos chegando á segunda linha e ahi os grupos vão ficando distribuidos pelos abrigos e pelos postos inglezes. Um dos meus pelotões segue para a primeira linha. Mais trincheiras sempre eguaes.

Um sargento inglez, a certa altura, detem-me e com um gesto diz-me na mesela de inglez e mau francez, que é o nosso idioma n'estas paragens:
- « Captain ! Promenade avec moi...
Sigo-o. Caminha-mos dez minutos ainda. Chegamos a um terrapleno. Cortámos á esquina de uma rua - Hun's Street - e paramos defronte de um abrigo que tem uma taboleta á porta: Comanding officer. Estou no posto de comando. Baixo-me para entrar. À luz das velas, dentro d'um casinhoto de tres metros de largo por outros tantos de fundo, dois olhos claros me sorriem n'uma face rosada e moça, uma mão solida se estende para a minha e uma voz alegre com um forte sotaque sauda-me:
- « Bonsoir, Monsieur.
E o captain G... de um regimento que usa o nome de duas bellas cidades inglezas. Falla a very litlle de francez. Eu fallo outro tanto de inglez. Havemos de nos entender perfeitamente. N'um canto da caverna está dobrado em varias partes para poder caber o alferes R... O capitão tem vinte e quatro annos. O alferes vinte e um. Ambos dois annos de guerra e presentes no Somme o anno passado. Perguntam-me se jantei. Passados cinco minutos estou jantando. Apenas corta o silencio de vez em quando o tie-tae seco das espingardas e das metralhadoras. Conversamos. È a primeira vez que o capitain G... tem tropas portuguezas no seu sector de companhia. Explica-me que os meus homens já estão todos distribuidos pelos varios postos e que farão todo o serviço dos soldados inglezes. Tomado o chá e acêso um cigarro, peço para percorrer as trincheiras e ver a minha gente.

È cedo ainda: a ronda do capitão começa á meia noite e são onze se tanto. Examino então no mapa das trincheiras a disposição do sector e o meu camarada explica-me a posição dos postos especiaes, o raio de acção dos postos de observação, o campo das nossa metralhadoras. O chão que pisamos é historico. Em*** travou-se n'este local uma grande batalha. As nossas trincheiras serpenteiam atravez das ruinas do que foi uma pequena e linda cidade da qual não restam senão montes de pedra e de tijolo e algumas paredes ainda de pé, onde se organisaram abrigos e postos.
Chegou a meia noite. Sahimos e começamos a caminhar, a caminhar. De longe em longe, taboletas. As trincheiras tem nomes, alguns mesmo illustres, muito illustres: Oxford-street, por exemplo. Cortamos a Churche-road, ao Caminho da Egreja. Da egreja da cidade resta apenas um monte de escombros e um Christo que já andou em illustrações e magazines. Alguns santos, uma virgem, estão postos sobre campas de soldados inglezes. No que talvez tivesse sido uma capela florida, está um ninho de metralhadoras. Subo ás escuras os degraus d'uma escada de mão. Sobre o cano negro das armas desbruça-se a vigilancia dos serventes e por uma estreita abertura ve-se o campo mutio claro e lá adeante, a cem metros se tanto, a linha de trincheiras allemãs. Outras vidas alli palpitam, outros olhos nos espiam e nos esperam.

Para a nossa direira erepita uma espingarda automatica. Retumba um obus de trincheira. Ouve-se o silvo muito especial da granada. Cahiu perto, muito perto, na nossa primeira linha, diz-me o capitão. Esperamos. Outras detonações, sete n'um quarto de hora. Algum signal tiveram na trinchiera fronteira que lhes indicou um objectivo. Prosseguimos. Passamos a um posto de observação; um dos meus soldados espreita pelo periscopio emquanto um soldado inglez sorri. Colhemos informções. As granadas cahiram mais adeante. Continuamos. Espreito nos abrigos. Os meus homens lá estão e nos que não cabe a vigilancia, esses dormem tranquilamente ao lado dos seus camaradas. Cruzamos mais adeante fachinas inglezes e portuguezes condusindo chá quente, Indago. Andaram debaixo do fogo. Chegamos finalmente ao ponto bombardeado.

Um tenente de ronda conta que as granadas cahiram em volta. Uma acertou n'um charco alli visinho e encgeu-o de lama. Mostra-nos o seu uniforme todo salpicado.
Pergunto que tal se portaram os meus soldados adidos ao posto.
- « Splendid ! Very well ! No panie...
Entrevisto a minha gente.
- « Ah ! meu capitão ! Elles mandaram ahi umas garrafas de litro; mas cá a gente não cortou prego...
A quem ignore o portuguez da zona guerra, direi que os projecteis são dividos conforme o tamanho em barris de almude, garrafas de litro e copas de meio litro. Cortar prego é ter medo.
Sorrio satisfeito. É a primeira vez que os meus soldados, como eu de resto, estamos tão em contacto com o perigo. A experiencia é satisfatoria.
O capitão segue de mãos nos bolsos e cachimbo na bocca.
A certa altura pergunta-me se quero sahir da trincheira e ir fora do parapeito a um posto de observação collocado n'umas ruinas. Respondo-lhe que irei onde êle fôr. Caminhamos atravez da noite clara uns trinta passos.

Dois homens apenas cabem no abrigo que só é ocupado de noite. Espreitamos pela vigia. Na nossa frente temos um bosque, cuja historia singular e tétrica o capitão me conta com toda a sua fleugma. Voltarmos para as trincheiras e, apoz duas horas e meia de marcha, tendo pisado kilometros de passadeira, conversado varias vezes sentados a descançar sobre banquetas desertas, regressamos ao posto de commando. Ha duas camas: rectangulos de madeira sobre os quaes se estendeu rede de arame e que assentam a tres palmos do chão sobre caixotes.
Deito sobre mim o meu capote, o capitão enfia-se no saco da sua valise, apagam-se as velas depois de uns goles de whisky e adormeço d'alli a pouco, admirado de ter somno.»



PORTUGAL NA GUERRA - Revista Quinzenal Ilustrada
nº 1 - 1 de Junho de 1917; Colunista Capitão X, que por motivos óbvios mantém sigilosa a sua identificação