16 junho 2010

Monumento Megalítico da Portela da Anta

Por Adelino Almeida*

«Em plena Serra da Freita, na Portela da Anta, situada á cota 1076 m, existe um monumento megalítico e que é reconhecido pelos especialistas como de grande relevo na península, não pelo seu espólio, mas devido ás suas excepcionais dimensões, com um diâmetro de "tumulus", de cerca de 40 metros.
Anta é a designação dado no país para certo tipo de construções em pedra, tendo também o nome de dólmen, sendo já esta designação um galicismo.

O povo da nossa região e em Portugal designa essas construções de "Arca", "Orca", "Casa de Mouros", "Mâmoa" e ainda outros nomes, sendo estes os mais correntes e que se podem, facilmente, encontrar como designações toponímicas de certos locais bem conhecidos de todos.

As antas assinalavam o local de sepulturas, não estando propriamente definido se serviam ou não as personagens importantes daqueles recuados tempos. A localização cronológica é geralmente aceite no período que se convencionou designar por CULTURA MEGALÍTICA, que se estende desde cerca de 2500 anos antes de Cristo, ou seja há 3500 a 4500 anos atrás. A datação é feita, com mais exactidão, caso a caso, baseando-se no respectivo espólio, embora alguns especialistas tomem também em consideração o traçado da respectiva planta, a posição e orientação relativas.

O levantamento arqueológico destes monumentos e doutros das mais recente CULTURA CASTREJA foi feito na região pelo Dr. Alberto Soute, há cerca de 4 dezenas de anos atrás, não tendo lamentavelmente, ficado ou sido divulgados quaisquer elementos na região (concretamente sobre Castro de Chão do Carvalho, Anta do Cercal, Portela da Anta, Outeiro dos Riscos, etc...)

A par de algumas autoridades que na nossa região protegeram este tipo de monumentos (Ex: Padre de "Tondela", pároco de Arões e presidente da C. Municipal de Macieira de Cambra) outros estudaram os referidos documentos mas não deixaram notas sobre os referidos estudos, perdendo também o rumo dos respectivos espólios. Recentemente a Portela da Anta, durante o Verão tem sido estudada por arqueólogos competentes auxiliados por estudantes da Escola Secundária de Arouca.

O dólmen da Portela da Anta é constituído por 9 pedras aprumadas ("esteios") que limitam um espaço quase circular, não possuindo sobre estas a costumada "mesa". O espaço delimitado pelos "esteios", a "Câmara" como é designada. comunica com a parte exterior por um corredor, mais baixo que a "Câmara" e igualmente formado por pedras ao alto ("esteios"), também sem a usual cobertura.
A construção encontra-se numa ligeira elevação de terreno e com o corredor referido apontado para sudeste.

Á volta do monumento e em parte coberto com ele, existe um monte de terra com pequenas pedras, o "tumulus", parte que lhe confere notoriedade pelas invulgares dimensões.
Têm sido várias as sugestões apontadas para a existência desta configuração, desde efeitos da erosão até técnicas de construção para colocação das "tampas".
Resta dizer que é importante o conhecimento e preservação deste património, que é a memória do nosso povo e da nossa cultura.»


* In: Ecos do Povo, Ano 2 - nº2 - Outubro 1992

Fotos:
Município de Arouca
Geocaching

14 junho 2010

Feira dos 16 - Cepelos

[1.]

A Feira Nova da Pontinha

A feira tem de viver
Essa vos afirmo eu,
Tu nunca verás morrer,
Se morrer vai para o céu:
Foi baptizada ao nascer
Pelo Bispo D. Romeu.

Foi nascido na Pontinha
Uma criança alentada
A mãe só comeu galinha,
Noves meses que andou pejada...
Nasceu gorda, muito linda,
Por ali não falta nada...

Vi na Feria da Pontinha
Panos de todas as cores,
Veio a polícia cá acima,
E guardas e doutores,
Todos a ver a criancinha
E a mãe a gritar com dores...

Na feira cinco pensões
P'ra servir toda a gente:
Com pratos em condições,
Pró freguês sair contente
Mas que grandes refeições
De postas e arroz quente.

A feira ganhou raiz
Há dois dias plantada
E todo o povo já diz:
Temos feira ao pé de casa.
Os que têm maior nariz,
Cheiram a maior pitada...

Uma velha de Vilar
Faz a sua propaganda.
Diz: - P'ra vender e comprar
Não preciso ir á Gandra!...
Do que a gente precisar,
Temos de tudo, caramba!...

Na Pontinha, grande centro,
Vão ser feitas grandes obras
Pelos homens de talento,
São estas as grandes provas;
E daqui por pouco tempo
Não faltarão casas novas.

Manuel José Brandão,
A vender mercearia,
E Manuel Pedro, de Gatão,
Encheram-se nesse dia;
Fizeram um negocião
Por terem do melhor qu'havia.

Até o Senhor Ferreira
Fez negócio excelente,
Comprando ovos na feira,
- E comprava a toda a gente -
E não esvaziou a carteira
Porque a trazia quente...

O Senhor Padre Correia
Também pôs uma pensão.
Tinha sempre a sala cheia
P'ra tomar a refeição
E vinho do que "alumeia"
do melhor da Região.

Na feira havia de tudo
Na sua inauguração
E houve negócio taludo.
Só à noite faltou pão;
Mas os padeiros d'Ul
P'ra Fevereiro já cá estão.

De Rôge e de Macieira
De Junqueira e de Arões
Vêm todos á nova feira
Fazer suas transações.
Vêm da Serra e da Ribeira
De Cambra e de Castelões.

O Senhor Paiva lá estava
E o Senhor Padre Correia,
Que queriam ver livre a estrada
P'ra dar passagem à carreira,
Que vinha sempre carregada
De povo p'ra nova feira.

Viva Cepelos de Cambra!
Viva o velho da semente!
De Junqueira viva a banda
Que agradou a toda a gente!
As velhas dançam o samba
Se for que a feira se aguente.

Da autoria de Albino Filipe Pereira da Póvoa de Junqueira, em 20/01/1954, em estilo de conversa.[2.]


Feira dos 16


Inauguração: Conta-nos o Jornal de Cambra, passados quatro dias da inauguração da Feira dos 16 o seguinte:

«Foi invulgar e imprevisto acontecimento nesta freguesia, a inauguração no dia 16 da nova Feira da Pontinha. O sucesso da sua realização ultrapassou tudo quanto imaginariamente era de esperar, mesmo pelas pessoas mais otimistas.(...) Não obstante o largo espaço que ocupava a nova feira, do alto do Cruzeiro á Regadas e da igreja paroquial á residência de Manuel Fernandes de Almeida, todo terreno foi pouco para conter o grande numero de pessoas que naquele local se reuniram, uns para fazer o seu negócio, outros por simples curiosidade.
Fizeram-se na nova feira boas e numerosas transações, especialmente em gado, tanto bovino como suino, vacum, etc. O mercado de mercearia, ferragens, calçado, chapéus e ourivesaria também esteve muito animado. Fazendas e miudezas talves fossem aquelas que menos se venderam devido ao grande numero de concorrentes (...)
Foi excessiva a frequência nas casas de ''comes e bebes". Estiveram sempre á cunha a casa Prata, onde se apreciavam os saborosos rojões e o delecioso vinho de Paiva, a casa Armindo de Pina, a casa Amarela, de Manuel Gonçalves de Sousa, a casa Emídio Dias de Sousa e a casa David Gonçalves de Sousa e Maria Natália, onde se vendia o famoso vinho Zagaia, da Quinta de Vila Nova, propriedade de Adelino Tavares Russo.
A Banda Junqueirense deu entrada no recinto da feira pelas 12 horas executando, com pleno agrado dos ouvintes, durante a tarde, alguns dos melhores números do seu vasto reportório que foram muito apreciados pelos amadores da boa música.
E, para nada faltar até os carteiristas, cuja actuação, por certo, ninguém previa na nova feira, fizeram um bom S. Miguel...
Espera-se que a próxima feira dos 16 de Fevereiro não seja nada inferior á primeira feira de Janeiro.» [3.]

[...] a feira mensal dos 16, a nova feira de Cepelos, no lugar da Pontinha, que em princípios de 1954, foi inaugurada para dar apoio à parte interior/serrana do concelho e tinha duas secções:

1) no Largo das Presas e na Estrada para Gatão, organizavam-se as tendas de venda de mercearia e outros produtos de Feira / Marcado, da época;
2) no Largo por trás do Posto do Leite, realizava-se a Feira do Gado, muitíssimo concorrida pelos, na sua maioria, pobres lavradores da região, a ver se faziam algum dinheiro com a venda de gado, e pelos negociantes de gado, muito «lestos» e espertos a (se) aproveitar da ocasião.

Atingiu alguma notoriedade durante alguns anos nas transacções de géneros alimentícios e gado bovino. [4.]







Publicidade á feira da Pontinha
FEIRA DA PONTINHA
lugar da Pontinha
Feira de Gado Bovino, Suíno, Ovino, Caprino e Cavalar
mercado de frutas, aves e ovos, panos, fazendas e miudezas, ferragens e utensílios domésticos,
peixe, géneros alimentícios, e todos os produtos agrícolas.

POVO do Concelho de Vale de Cambra e Concelhos circunvizinhos!
No vosso próprio interesse vinde até Cepelos, onde com economia de tempo e de dinheiro, encontrareis tudo o que vos é preciso!
Comprar e Vender, eis a ordem.
Á Pontinha, todos os dias 16![5.]

A feira por volta de meados da década de 80 já não se realizava, realizou-se porém na década de 90 e 00 algumas reedições da feira, sendo estas apenas simbólicas, não tendo a dimensão das de outrora.


Fontes:
[1.] Fotos: Arquivo Municipal de Vale de Cambra
[2.] In: Vale de Cambra, meio século de imagens, Vol.II-Transportes, Indústria e Comércio - Fotografias da Família Sousa, Maria da Graça Gaspar Mendes de Pinho da Cruz
[3.] O Jornal de Cambra, 30-01-1954
[4.] Vale de Cambra, meio século de imagens, Vol.II-Transportes, Indústria e Comércio - Fotografias da Família Sousa, Maria da Graça Gaspar Mendes de Pinho da Cruz, e, Tabelião de Cepelos, etc. saga dos 'Alcouces', Barreiros & Compª Lda.
[5.] Ecos do Povo, nº5

11 junho 2010

Monumento aos Mortos da Grande Guerra - Oliveira de Azeméis


Está situado no Jardim Público de Oliveira de Azeméis, tendo sido construído em 1930 sob a égide do escultor Henrique Moreira e do canteiro António Resende e que na sua imponência destaca, entre as Batalhas do século XX, a de La Lys, onde a 09 de Abril de 1918 o solo da Flandres ficou empapado pelo sangue de 7500 portugueses. Esta batalha foi o início da vitória dos aliados.

Foto: Miguel Barreiro
Texto: Liga dos Combatentes

26 maio 2010

Cartazes - Primeira Guerra Mundial

(clicar para ampliar)
A guerra de munições, como a Grã-Bretanha mobilisou as sua industrias.
Cartaz de produção britânica em língua portuguesa. - Reprodução litográfica. - BN - 300 Anos do cartaz em Portugal. Lisboa, 1975, nº 193

Primeira Guerra Mundial, 1914-1918--[Cartazes]

Título impresso na margem superior, ilegível, quase totalmente cortado. - Provável propaganda da preparação do C.E.P.. - Data segundo análise iconográfica e entrada de Portugal na I Guerra Mundial. - Impressão litográfica. - BN - 300 Anos do cartaz em Portugal, 1975,, n.º 133, referido com diferente data e sem a conotação acima indicada. - Em grande plano, sobre círculo limitando relvado onde correm dois jogadores sob céu vermelho, jogador de futebol, equipado mas apresentando ligadura num joelho e luva correctora numa mão, prepara-se para chutar a bola; em 2º plano, soldados e marinheiros, em formatura frente a frente, junto a costa onde se procede a desembarque de navio de guerra

Primeira Guerra Mundial, 1914-1918--[Cartazes]

PORTUGUESES, HONREMOS A MEMORIA DOS NOSSOS HEROIS!
- A batalha de La Lys, também conhecida por batalha de Armentières, foi a principal participação portuguesa na 1ª Guerra Mundial.

Primeira Guerra Mundial, 1914-1918--[Cartazes]

Guerra Colonial - Frases

« Pai nosso que estais no Céu:
protegei-nos dos erros da nossa artilharia e da nossa aviação.»

sarcasmo dos soldados portugueses nos primeiros tempos da guerra em Angola

« Só nos faltava mais essa desgraça.»

Salazar, em 1963, quando lhe comunicam que se fez uma grande descoberta subterrânea em Cabinda.

«Vou passar cinco contos a Luanda» (e não «cinco dias»)

assim se dizia nas matas, a permanência de licença na cidade durava enquanto o dinheiro dura-se

«... porque uma camioneta era mais necessária e mais cara do que um homem um filho faz-se em cinco minutos e de graça não é verdade uma viatura demora semanas a atarraxar parafusos...»

«... prezado doutor Salazar se você estivesse vivo e aqui enfiava-lhe uma granada sem cavilha...»

António Lobo Antunes, Os Cus de Judas

« Vinha-mos nas calmas, meus netos, subindo a rampa, a seguir á ponte, assim meio adormecidos numa guerra onde nunca nos tinha acontecido nada, porque naqueles tempos as guerras eram assim, nunca nada acontecera e tudo acontecia de repente.»

João de Melo, Autópsia de um mar de ruínas

In: Os anos da Guerra 1961-1975, os Portugueses em África, Org: João de Melo.

18 maio 2010

A Rota do Ouro Nazi - Canfranc



«Canfranc podia ser a cena de um filme como Casablanca, embora a história dessa travessia de fronteiras durante a Segunda Guerra Mundial ainda está por se escrever. A rota do ouro nazi para a Península Ibérica, a presença das SS e da Gestapo, a porta para a fuga de muitos judeus e até dos vencidos alemães, e os episódios de contra-espionagem dignos de um romance de John Le Carré. Tudo isto aconteceu em Canfranc entre 1942 e 1945.

A Alfandega internacional foi reaberta após ter sido fechada durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) para impedir uma invasão de França. Pouco depois, em 1942 e 1943, viveu uma actividade que nunca mais foi a mesma até ao seu encerramento em 1970. A suposta neutralidade da Espanha durante o conflito que resultou num período de turbulência na Europa vai chegar para movimentar 1.200 toneladas de mercadorias por mês na rota Alemanha-Suíça-Espanha-Portugal, entre elas 86 de ouro nazi, roubado aos judeus.

Alemanha controlou a Alfandega internacional de Canfranc durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) com um grupo de oficiais da SS e o membros da Gestapo, que viviam no hotel da estação e numa cidade próxima. A Espanha não estava em guerra, mas Franco tinha uma posição de não-beligerância 'sui generis'. Devia devolver a ajuda que Hitler lhe deu na guerra Civil o que se traduziu no envio de toneladas de Volfrâmio de minas na Galiza, um mineral essencial para proteger os seus tanques e canhões. Muitas dessas explorações foram abertas por empresas alemãs que operavam em Espanha através da Sociedade Sofindus(Sociedade Financeira Industrial), uma holding alemã muito bem relacionado com Demetrio Carceller, diretor do Instituto Espanhol de Moeda Estrangeira (IEME), o único órgão que poderia comprar ouro...

Os "Documentos de Canfranc", cujo conteúdo Herald revelou esta semana, provando que em troca do apoio estratégico para o prolongamento da guerra, a Espanha recebeu, no mínimo, 12 toneladas de ouro e 4 de ópio, enquanto Portugal atingiu 74 toneladas de ouro, quatro de prata, 44 armas, 10 relógios e outros itens, o resultado da pilhagem dos judeus. Esses dados podem ser apenas a ponta do iceberg. Os originais desses documentos, enviados para o chefe de tráfego de mercadorias de Madrid, não existem. Portugal foi a porta de entrada de mercadorias da América do Sul e, no final da II Guerra Mundial, a saída de muitos alemães que encontraram refúgio na Argentina, Uruguai, Brasil e Paraguai. Por isso, recebia mais ouro.
"Havia queijos da Argentina, com uma pele muito espessa para suportar a viagem ou o açúcar que chegava a Lisboa", recorda Julio Ara.

Em Irun e Port Bou os nazis permaneceram no outro lado da fronteira, na França ocupada, mas em Canfranc viviam do lado espanhol na estação, localizada na Espanha, havia dupla jurisdição.

Concertos na estação

«Os alemães viviam na estação e realizavam concertos de piano na sala de jantar. Eles eram muito educados. Dançavam Valsa com as meninas de Canfranc e ofereciam-lhes chocolates. Eles eram engenheiros ou químicos e nós ignorantes que tínhamos muita fome durante a guerra, confessa um vizinho de Canfranc que na altura teria 14 anos e agora prefere manter-se no anonimato. Se alguma história de amor foi idealizada, como em Casablanca, não perdurou.

"Embora estivessem a servir no lado francês não havia nenhum problema a passar para o lado espanhol. Alguns viviam na pousada Marraco. Havia seis oficiais fixos e outros á paisana da Gestapo, mas às vezes chegavam grupos de vinte soldados uniformizados que vinham da frente para descansar", acrescenta.

Os vizinhos de Canfranc, abalados ainda pelos efeitos da Guerra Civil fugiram para França, mas agora não podiam atravessar a fronteira. Precisavam de um Salvo Conduto. "Desde Anzánigo, era uma área impermeabilizada", diz um vizinho. Um dos documentos "Canfranc", datado de 24 de maio de 1940 e assinado pelo super intendente da Unidade de Pesquisa e Vigilância, disse que "todo aquele que vivia na área a partir de 18 de Julho de 1936 devia apresentar-se num prazo de oito dias na Esquadra com a relação dos que viviam em sua casa, com os certificados das pessoas e empresas. "O não cumprimento levava ao regresso forçado á sua antiga residência ", avisa.

Os Carabinieri, a Guardia Civil e os oficiais SS eram inflexíveis com o roubo de bens, como relógios, que eram transportados para Portugal. "Roubaram uma caixa e eles procuraram-na. Um rapaz chegou a ser enforcado e outro multado em muito dinheiro ", contam em Canfranc.

A falta de liberdade de movimento juntava-se á fome mitigada pelas mercadorias que eram descarregadas. O salário médio de um trabalhador era de 200 pesetas por mês. Então, sempre se desviava alguma coisa dos comboios para casa. "Sacavam-se latas de sardinha, açúcar, óleo, café ou vinho que enviavam os portugueses da Madeira. Menos mal, pois passava muitas mercadorias e podíamos levar umas coisas, porque havia muita fome ", diz Daniel Sanchez, 87 anos, um dos poucos canfraneros que pode contar que carregou caixas com lingotes de ouro ás suas costas.

O ouro nazi chegava por comboio a Canfranc de acordo com os documentos descobertos pelo francês Jonathan Diaz na estação em novembro do ano passado, após a gravação de um anúncio da loteria de Natal. Entre julho 1942 e dezembro de 1943 atingiu 45 comboios, seis deles com destino a Espanha ("importação" aparece no papel) com 12 toneladas de ouro, e o resto do "trânsito" com destino a Portugal, que recebeu 74 toneladas de metais preciosos. Daniel descarregava o ouro dos comboios suíços pela ponte internacional e colocava-o em camiões suiços que se encarregavam de leva-lo para Madrid e Portugal, através das fronteiras de Badajoz, Valencia de Alcántara e Fuentes de Oñoro.

O historiador Pablo Martín Aceña, director da comissão espanhola que investigou as compras de ouro nazi pela Espanha, disse que a Península Ibérica recebeu estes carregamentos até agosto de 1945, por Hendaya, Port Bou e Canfranc, mas não sabe em que proporção.«Os serviços de inteligência dos aliados contabilizaram 135 saídas da fronteira franco-suíça de Bellegarde para a Península Ibérica», aponta.

Estes comboios transportavam "um total de 300 toneladas ". Portugal comprou muito ouro que saiu da Bélgica e Holanda. O que foi recebido por Espanha (IEME), é evidente a partir das contas que foram investigadas no Reichbank, o Banco Nacional Suíço e o IEME. Outra coisa é que as empresas espanholas na Alemanha cobraram em ouro e depositaram-no em Londres ou Zurique. Calcula-se que 20 toneladas de ouro entraram em Espanha pela troca de Volfrâmio ", assinala Martin Aceña.
Esse Volfrâmio que ainda pode ser visto, 60 anos mais tarde, no cais e nas vias mortas da estação de Canfranc.
Portugal e Espanha exportaram esse minério para a Alemanha, no entanto, em 1944 os aliados pressionaram o regime de Franco e de Salazar parar com as exportações, a fim de acabar com a guerra.» 1

A ultima Visão História (nº8, Portugal e a II Guerra Mundial) escreve também algo muito interessante sobre o tema, referindo-se que muito do ouro vindo para Portugal foi "comprado" pelo Santuário de Fátima entre outros pormenores dos quais se cita o seguinte:

«Os negócios entre o Portugal de Salazar e a Alemanha de Hitler ainda escondem mais do que revelam. E a versão oficial da "Comissão Soares" sobre o ouro nazi deixou uma série de pontas soltas. Lentamente, porém, segredos comprometedores vieram à tona...»

Do livro "Portugal e o Plano Marshall" da historiadora Fernanda Rollo também se extrai o seguinte:

Na ponderação das condicionantes que terão contribuído para determinar a atitude de Portugal em dispensar inicialmente auxílio Marshall colocava-se ainda outro problema: a questão do ouro alemão, cuja legitimidade de posse, tal como referia o Ministro das finanças no Parecer datado de 27 de Agosto de 1947, nos era contestada.

Permanecem porém, muitas divergências quanto á quantidade recebida de ouro "sujo" por parte de Portugal.


Bibliografia:

"Portugal e o Plano Marshall", Fernanda Rollo, Editorial Estampa
1. El oro de Canfranc, Ramón J. Campo - Recomendado
Tejiendo el mundo
- Canfranc

04 maio 2010

Propaganda - Guerra Colonial

(clicar para aumentar)




Os Serviços de Acção Psicossocial surgiram muito tarde no calendário da guerra. Para as nossas tropas, a APSIC preocupava-se com a assistência religiosa e os «espectáculos de variedades». Em relação ao inimigo, as armas eram a propaganda e contrapropaganda, a informação e contra-informação. «Bombardeavam as populações com mensagens sonoras, emitidas de altifalantes montados em aviões, e escritos em panfletos bilingues, como as imagens acima.


In: Marcas da Guerra Colonial, Jorge Ribeiro, Campo das Letras

19 abril 2010

Ponte Tricolado


Fotos dos anos 60

Ponte de Pedra em arco sobre o Rio Caima que liga as freguesias de Cepelos a Rôge no Concelho de Vale de Cambra

Barragem Engº Duarte Pacheco




Construção da Barragem

Planta Topográfica

In: Monografia de Vale de Cambra

Depoimento - Grande Guerra

"De noite é que é o inferno. Ou se vai de patrulha, de gatas, de moca e bomba, caindo aqui, levantando-nos acolá, ou se espera que sejam êles que venham encostar-nos o frio gume da baioneta á gorja, preparando-se nesse caso tudo para a recepção. Mas se é gás e se são tiros, uma tabuzanada de acordar os mortos, logo começa um chinfrim diabólico de latas e campainhas para que a gente se mascare. E os telefones retinem, os estafetas põem-se a andar e o S.O.S sobe ao céu, no vinco luminoso dos very-ligths que ficam iluminando a terra tôda até que se apagam e o mundo é apenas escuridão. À artilharia de lá responde a nossa, e ao longe, há por vezes a sanguinolenta marcha dos incêndios, rosa rubra na boutonniére negra da noite. Ouve-se o crac-crac das metralhadoras que o boche despeja e que nós despejamos. E transida, bafejando as mãos, sem sono, a gente escuta os ecos e o nosso coração doente é como um velho relógio oscilando entre a saudade dos que estão longe e a ideia de morrer ali, armado e equipado, sonolento e triste, como um cão sem forças."

Albino Forjaz Sampaio, IN: Os Portugueses nas Trincheiras: Vivências comportamentais, Isabel Pestana Marques

14 abril 2010

Casa dos Cantoneiros


A casa dos Cantoneiros nas Lameiras, foi praticamente toda construída pelo meu bisavô Adriano (que era da profissão) e por outro cantoneiro do Cercal.

Duas Guerras, Duas Diplomacias

Primeira Guerra Mundial

João chagas escreveu um dia que o inimigo que Portugal tinha no conflito europeu era a Inglaterra. Nada podia ser mais exacto. Chagas e alguns outros, entre os quais se inclui o Coronel Freire de Andrade, ministro dos Negócios Estrangeiros em 1914, queriam ver a República a combater na frente ocidental, com a França e a Inglaterra. Havia no entanto um obstáculo no caminho da intervenção portuguesa: a própria Inglaterra.

A posição oficial Portuguesa foi a de, estando em paz com todas as potências, estar também pronto a corresponder incondicionalmente aos seus «deveres» para com a Inglaterra. Á primeira leitura desta declaração de amizade - que em França, por exemplo, se interpretou como um acto de hostilidade á Alemanha - , os ingleses ficaram irritados.
A ideia de terem Portugal a combater do seu lado causava-lhes uma repugnância absoluta. A diplomacia Inglesa chegava mesmo a pensar que tinha que suportar as despesas de intervenção Portuguesa vistas as dificuldades da pequena República. Desagradava-lhe ainda ficar limitada com compromissos com Portugal em eventuais negociações de paz.

Churchill aliás achava mesmo que se deveria preferir a aliança de Espanha, e até mesmo facilitar a anexação de Portugal, se fosse essa a condição para ter os Espanhóis do lado Inglês. Mas...

Por detrás do menosprezo estava uma realista avaliação estratégica de Portugal: a única coisa importante para a Inglaterra era que Portugal só tinha valor estratégico para a Alemanha, caso esta pudesse estabelecer uma esquadra no Tejo. Por isso o único interesse que a Inglaterra tinha em relação a Portugal era mante-lo neutral.

No entanto, em Setembro de 1914, o desgaste dos Aliados levou o comando Francês a interessar-se pelo que Portugal pudesse oferecer em Artilharia e Infantaria.

Foi assim que Grey, sem qualquer entusiasmo, convidou o Governo Português, a 10 de Outubro, a juntar-se aos aliados. Em Fevereiro de 1916, Costa conseguiu finalmente amarcar á Inglaterra uma "nota verbal" em que se reestabelecia o convite de 10 de Outubro de 1914. As causas foi a ânsia inglesa de se apoderar dos barcos alemães refugiados em portos Portugueses e o direito de Portugal (ao combater activamente no Conflito) participar na futura Conferência de Paz que regularia a organização da sociedade europeia e mundial no Pós-Guerra.

Segunda Guerra Mundial

Imediatamente após o ataque Alemão á Polónia, um Portugal mais "organizado" e mais "ciente" define a sua politica de Neutralidade numa nota oficiosa a 1 de Setembro de 1939.

Então as diferenças das duas guerras assentavam em:
- Uma declaração «unilateral« de neutralidade, isto é, uma tomada de posição da iniciativa de Lisboa, ainda que com consulta ao Foreign Office, mas não por sugestão deste ou em resposta a um pedido nesse sentido de um Governo sem saber que atitude adoptar, como acontecera com o Ministério de Bernardino Machado, em Agosto de 1914.
- Uma declaração de neutralidade e não de «não beligerência», como também sucedera com o Governo Português na I Guerra. Ou seja um posicionamento de maior distância e autonomia relativamente á Grã-Bretanha. Mas, sobretudo no plano da guerra económica, sobejaria a margem da ambiguidade suficiente para o Governo Português - para desespero do Ministry f Economic Warfare Britânico - entender tal neutralidade de forma geométrica ou mais colaborante, ao sabor das conjunturas do momento, e, sobretudo, dos fabulosos negócios em perspectiva com ambos os campos beligerentes,

As caracteristicas e funções da neutralidade portuguesa, aliadas ao facto de, após a queda da França, em Junho de 1940, Portugal se transformar no porto pacífico de entrada e saída da Europa ocupada e em guerra, e a excepcional valorização estratégica das ilhas atlânticas (especialmente os Açores), conferiram ao Governo de Lisboa um papel e uma proeminência internacionais sem precedentes na história do País.

Em suma ganha-mos muito mais na Segunda que na Primeira e Salazar (inteligente) soube tirar, e muito bem os dividendos políticos internos desse período áureo, tendo a posição evoluído ao sabor das diversas conjunturas e fases da guerra e sob a pressão dos interesses contraditórios dos beligerentes.

Imagens: 1ª - Pintura de Sousa Lopes na Sala da Grande Guerra no Museu Militar
2ª - Cartoon - Portugal vende Volfrâmio á Alemanha

Fontes:
História de Portugal, 6º Volume, A Segunda Fundação, Circulo de Leitores
História de Portugal, 7º Volume, O Estado Novo, Circulo de Leitores
Portugal na Conferência da Paz, Paris 1919, José Medeiros Ferreira


09 abril 2010

Foram estes os homens que lutaram em 1914-18


Porque é o meu jornal preferido, recupero aqui uma notícia num evento onde marquei presença.

«A I Guerra Mundial foi particularmente dura para os portugueses. Nas trincheiras, pouco antes da derrota histórica de Abril de 1918, na batalha de La Lys, a situação era desesperada, o moral das tropas era baixissimo. A muito aguardada substituição dos soldados portugueses pelas tropas inglesas há muito que vinha sendo adiada. E a agitação política em Portugal não ajudava. Os soldados sentiam-se esquecidos na Flandres frente a um Exército alemão que avançava em direcção a eles.

Entre estes homens encontrava-se Arnaldo Rodrigues Garcez, fotógrafo, nascido em Santarém em 1885. Quando a guerra começou, Garcez já se tinha mudado para Lisboa, onde começara a trabalhar como freelancer para alguns jornais. Foi convidado para registar treinos militares dos soldados que se preparavam para partir para a frente de batalha e, mais tarde, seguiu o mesmo caminho, sendo enviado para a Flandres com o posto de “alferes equiparado” para fazer a cobertura fotográfica no teatro de guerra.

Mais de 100 destas fotografi as podem ser vistas até dia 22 no Palácio do Gelo Shopping, em Viseu, numa exposição organizada em conjunto com o Regimento de Infantaria nº 14. Trata-se de imagens recentemente reunidas pelo Exército Português para o livro Exército Português - Imagens da I Guerra Mundial.

São rostos e momentos que Garcez captou nas trincheiras e no meio dos campos de batalha, em França e outros países europeus. Depois do conflito ter terminado, em 1918 – e de os portugueses terem perdido dois mil homens, e terem ficado com 5000 feridos e 6000 prisioneiros – Garcez ainda permaneceu em França, onde fotografou as celebrações da vitória.

De regresso a Portugal, em 1921, acompanhou as cerimónias de transladação dos corpos do Soldado Desconhecido para o Mosteiro da Batalha. Arnaldo Garcez morreu em 1974 com 78
anos.»


In: Público, P2 , de 13-03-2009

08 abril 2010

O Fado do Cavanço

Nas Trincheiras Portuguezas: Em descanso


Numa noite de Outono de 1917, Cunha Leal, recentemente chegado ao sector português da Flandres, ouviu o famoso «fado do cavanço» cantado ás escondidas por três soldados do CEP. Entenda-se pelo pomposamente designado Corpo Expedicionário Português, designação imitar de BEF (British Expeditionary Force), cuja sigla (CEP) os espirituosos de Lisboa traduziam por «Carneiros de Exportação Portuguesa».

«Nesta vida de Cavanço
A cava, como se vê,
Se os boches dão um avanço
Cava todo o CEP



Fontes:
História de Portugal, 6º Volume, A Segunda Fundação, Circulo de Leitores
Imagem: Capa da Ilustração Portugueza II série, nº603, in Ilustração Portuguesa

25 março 2010

Desastre de Cheche

Público:
«O então brigadeiro António de Spínola, chegado à Guiné em 1968 como novo governador e comandante-chefe, decidiu avançar na estratégia de retirar as tropas do Leste do país, pouco povoado e, no seu entender, com pouco para defender. Para a retirada do quartel de Madina do Boé, uma tabanca, ou aldeia, com pouco mais de meia dúzia de cubatas, perto da fronteira com a Guiné-Conacri e constantemente sob ataque do PAIGC de Amílcar Cabral, foi desencadeada a operação "Mabecos Bravios" (cães selvagens).

Era a companhia de Caçadores 1790 que estava em retirada de Madina do Boé, e homens de outras companhias tinham vindo em apoio desta grande operação. Tropas, viaturas e todo o material de guerra percorreram os 22 quilómetros da picada entre Madina do Boé e Cheche, já na margem do rio.

Chegados ali, começaram a transpor os 200 metros de uma margem à outra em duas jangadas, na tarde de 5 de Fevereiro de 1969. Fizeram-no vezes sem conta, passando 28 viaturas pesadas, mais 100 toneladas de munições e equipamentos, três auto-metralhadoras Daimler e cerca de 500 homens. Ao início da manhã de 6 de Fevereiro, só restava na margem sul um grupo de homens: dois pelotões da companhia de apoio 2405, outros dois da que estava em retirada. Seriam 100 a 120 homens.

Entraram todos na mesma jangada, que passou a levar o dobro da sua capacidade de segurança. A meio do rio, a jangada adornou para um lado e atirou vários homens à água, balançou para o outro e cuspiu outros tantos. Carregados com a espingarda, a cartucheira à cintura, as botas, muitos afundaram-se como pregos no rio, pacífico na estação seca, de Novembro a Maio. Sem gritos, sem esbracejares. Naquele momento, a dimensão do acidente passou despercebida.

Só quando a jangada chegou à outra margem se percebeu a tragédia. Faltavam cerca de 50 homens (quase todos da metrópole). Este acontecimento ficou conhecido como o desastre de Cheche.

Quando a coluna em retirada tinha alcançado Cheche, antes da travessia do rio, os homens da companhia 1790 devem ter sentido alívio. Tinham aguentado 13 meses debaixo de fogo dos independentistas do PAIGC, que se escondia nas colinas em redor de Madina do Boé, e todos tinham escapado com vida. No fim dos 22 quilómetros de estrada de terra, que nos dias actuais, pedregosa, aos solavancos, consome hora e meia de viagem, Cheche significava o adeus a um pesadelo. Na época das chuvas, a estrada ficava intransitável, pelo que só de avião podia abastecer-se o quartel, agora pouco mais do que umas paredes em ruína.

Ainda hoje na aldeia de Cheche as casas são quase todas tradicionais e habitadas por famílias alargadas e não falta um campo de futebol, que se resume às balizas de paus num descampado. Entre os 300 habitantes, da etnia fula, encontram-se alguns que se viram no meio dos acontecimentos de 6 de Fevereiro de 1969. Alfa Umaro Djaló, muçulmano com três mulheres, nove filhos, seis netos, era soldado do Exército português em Madina do Boé. Na retirada, ia à frente a picar o terreno, não fosse haver minas, e na travessia do Corubal seguia na última jangada. Caiu à água. "Isso não vai apagar-se da memória. Morreram cinco africanos." Quando se senta com os filhos e os netos à noite, às vezes falam daquele momento: "Os netos reclamam por que não fui a Lisboa buscar os meus direitos. Não temos meios para ir." Os direitos ambicionados são uma pensão por ter combatido por Portugal.

Também Mamadu Bari, outro habitante de Cheche, conta como enfrentou o Corubal naquele dia. Tal como Alfa Umaro Djaló, foi atirado ao rio. "Faltou pouco para morrer. Despi a roupa e nadei." Ironia da vida: tornou-se depois jangadeiro de profissão na travessia do Corubal, mas há cerca de uma década, como atestam os calos, que vive do cultivo de arroz e milho.

Cerca de duas semanas depois do acidente, fuzileiros e mergulhadores da Marinha organizaram uma operação de recolha dos corpos, já em estado avançado de decomposição. Muitos tinham desaparecido. Na série de documentários A Guerra - Colonial, do Ultramar, de Libertação, de Joaquim Furtado, podem ver-se imagens aéreas de alguns corpos a boiar, recolhidas pelo então tenente (agora general) José Nico, piloto da Força Aérea. Joaquim Furtado relata que os corpos recuperados foram sepultados nas margens do rio, com as honras militares próprias. Antes, o jornalista mostrou imagens dos sobreviventes na jangada, também recolhidas por José Nico, e alguns dos companheiros nas margens a tentar ajudá-los.

Aquela jangada, um estrado de madeira assente em canoas e bidões de gasóleo vazios, era puxada por um pequeno barco com motor fora de borda. E agora, como se fará a travessia?

No dia em que Mussa Djaló caçava, a sede conduziu-o até ao Corubal e foi então que se deparou com a operação de recolha dos corpos. "Eu vi e não disse nada." O que diz ter visto foi um buraco perto da margem norte e um helicóptero a transportar os corpos até um descampado.

Há uns meses, Mussa Djaló e a Liga dos Combatentes cruzaram-se em Gabú. Mal souberam que a Liga andava no terreno, a palavra foi passada entre os antigos soldados guineenses das Forças Armadas portuguesas, que têm uma associação na Guiné. Eles aparecem e prestam informações, que podem ajudar a localizar os restos mortais de militares portugueses espalhados pela Guiné, para identificação e concentração no cemitério de Bissau (nas quatro intervenções anteriores, iniciadas em 2008, exumaram-se 50 combatentes da metrópole, nove dos quais foram trasladados para Portugal por vontade das famílias). Em Novembro do ano passado, Mussa Djaló levou o general Fernando Aguda, vice-presidente da Liga, e os tenentes-coronéis Álvaro Diogo e Carlos Correia, da mesma instituição, até ao local onde afirma ter visto a vala em Fevereiro de 1969.

Com eles ia o geofísico Hélder Tareco, da Universidade de Aveiro, que entrou em acção com a sua máquina de prospecção do subsolo. Precisamente no sítio indicado por Mussa Djaló, o geo-radar de Hélder Tareco sugeria uma diferença de densidade no solo, compatível com terra remexida e a presença de ossos. Portanto, os testemunhos locais e a prospecção geofísica coincidiam: ali deveriam estar sepultados alguns dos náufragos do desastre de Cheche. As coordenadas geográficas referidas num relatório da Marinha, consultado pela Liga, apontavam igualmente para aquela zona.

Quatro décadas depois, continua a existir uma jangada em frente a Cheche. É agora moderna, tem motor próprio e serve para a travessia de carros apenas. O resto, pessoas, bicicletas, motas, vai de piroga, e há várias. Imperturbável, o Corubal é tranquilo nesta época do ano, a mesma do acidente, e a água, um tanto esverdeada, é ladeada por margens íngremes cobertas por árvores e vegetação densa. Ao sítio da travessia, com Cheche do lado de lá, chega-se por uma estrada larga, depois de uma sucessão de tabancas na berma de um caminho de terra, ponto de encontro de quem está à pesca, de quem lava a roupa e a estende no chão, de quem toma banho ou de quem simplesmente passa por ali.»

In:
Público - A última jangada no rio CorubalOs mortos de Cheche

16 março 2010

De Portugal a França


Primeira Guerra Mundial
CEP
-França-

Na hora da partida. A ultima mão cheia de castanhas.

Apoz desembarque. A primeira sopa no meio da neve.

Na amurada d'um transporte, os portuguezes sorriem á vista da terra Franceza.


A "Portugueza" em França. 15º abaixo de zero.


In: Portugal na Guerra, Revista Quinzenal Ilustrada, nº1, 1917 [Hemeroteca Municipal de Lisboa]

14 março 2010

Cepelos: um Lugar, duas Fotografias

1950


Lugar de Cepelos ("de Baixo"), Foto da década de 50 (Autor: Manuel Tavares de Sousa)

2010
Lugar de Cepelos (na mesma perspectiva) nos dias de hoje.

A diferença de datas é mais ao menos 60 anos, pelo facto de que a data da primeira é de 1950 a 1959, mas outras diferenças saltam-nos á vista: pelo que me informaram na 1ª foto a energia eléctrica não existia, já na segunda vemos um poste de electricidade. As placas de sinalização mudaram de um cimento rústico para umas modernas chapas. O lugar cresceu, novas estradas surgiram, mas nem por isso, este está mais novo, cada vez há menos jovens e a maioria da população está a envelhecer.

1ª Foto: Arquivo Municipal de Vale de Cambra
2ª Foto: Autor

10 março 2010

A Preparação do Soldado Portuguez

Primeira Guerra Mundial
CEP
-França-



Munidos com as mascaras especiaes, os soldados portuguezes penetram na casa dos gazes.

O emprego da mascara contra os gazes requer precisão e presteza. Os nossos soldados adextram-se em conjunto.

O final dum exercício de ataque á bayoneta.

Os nossos soldados começam a esgrima de bayoneta, logo de manhã cedo.

Um sargento instructor explica o emprego das granadas de mão.


Fotografias de Arnaldo Garcez (provavelmente, e como indica o boletim informativo da revista onde foram publicadas).

In: Portugal na Guerra, Revista Quinzenal Ilustrada, nº4, 1917 [Hemeroteca Municipal de Lisboa]

09 março 2010

V=42n


Custo de um Soldado - História de uma Formula

As dificuldades orçamentais das Forças Armadas Levaram o Exército a estudar o custo mínimo para as forças em campanha. Com base nas despesas já efectuadas, concluiu-se que o custo diário médio de um combatente era, em 1965, de 105$00 para a Guiné, 115$00 para Angola e 125$00 para Moçambique.
No caso de Angola, a distribuição era a seguinte:

Vencimento e subsídio de campanha..........................................35$00
Alimentação....................................................................................23$00
Fardamento......................................................................................5$00
Transporte (via marítima)...........................................................10$00
Restantes encargos........................................................................42$00

Estes «restantes encargos» incluíam a compra de todo o armamento, equipamento, material de aquartelamento, combustíveis e lubrificantes, serviços (água, luz, correio, telefone), alojamento e assistência religiosa, sanitária e social.

Englobava, por exemplo, os seguintes custos mínimos para um exercito em operações:

Munições (dois cartuchos de espingarda/homem dia......3$00
Combustível...........................................................................2$50
Sobressalentes.......................................................................4$00

Traduzida em termos anuais, esta despesa diária (per capita) correspondia a cerca de 42 contos, daí tendo derivado a fórmula V=42n (sendo n o numero de homens).

Assim em 1965, para os 97000 homens em campanha nos três Teatros de Operações era necessários para o Exército cerca de 4 120 000 contos, estando apenas orçamentados 2 000 000 de contos para os três ramos das Forças Armadas, embora estivessem já previstos 3 450 000 contos. Ainda que todas as despesas tivessem sido pagas no fim do ano, este exemplo dá a medida das dificuldades financeiras com que se debatiam as Forças Armadas, neste caso o Exército.

In: Guerra Colonial, Aniceto Afonso, Carlos de Matos Gomes, por José Rosário Simões

03 fevereiro 2010

Winston Churchill: Prisioneiro de Guerra

imagem:DAILY TELEGRAPH 25 Novembro de1899, famosa fotografia de Churchill de pé com outros prisioneiros de guerra capturados pelos Boers após o incidente do comboio blindado.

Quando li a biografia oficial de Winston Churchill (Homem pelo qual tenho grande admiração) deparei-me com uma passagem na vida dele de que gostei muito (para além de outras tantas ainda melhores), tendo essa passagem um desfecho que inclui o então território português, Moçambique.

Winston Churchill chegou a Estcourt no Natal de 1899 com 25 anos de idade. Chegou como repórter de guerra (Guerra dos Boers) para o London Morning Post. As tropas britânicas estavam á espera para marchar sobre Ladysmith. Churchill descreveu mais tarde Ladysmith como "a pobre cidade perseguida, famosa até aos confins do mundo ".

Em Novembro do mesmo ano Churchill juntou-se a um reconhecimento em comboio blindado tomando a direcção Norte, onde haviam patrulhas Boers. Essas mesmas patrulhas Boers emboscaram o comboio. Uma pedra enorme bloqueou a linha. Quando o comboio bateu, descarrilou. O General Joubert PJ decidiu que Churchill desempenhou um papel muito activo na luta de resistência contra aos seus Boers. Depois de se render, ele foi levado para Pretória (perto de Joanesburgo) onde foi preso.

No entanto Churchill não permaneceu em cativeiro durante muito tempo. Ao fim de dois meses fugiu e escondeu-se num comboio de carvão que ia para leste em direcção a Moçambique. Na noite seguinte, o comboio parou em Clewer perto de Witbank. Churchill decidiu então bater de porta em porta á procura de comida.

A sorte definitivamente favorece os audazes e numa das portas que ele escolheu para pedir comida foi dar com John Howard. Era um inglês e gerente do Transvaal e de uma mina na região. Churchill foi bem alimentado e depois escondido nos estábulos subterrâneos da mina. As forças Boer procuravam-no por todo lado. Mais tarde ele escondeu-se atrás de uns caixotes nos escritórios das minas.

O General Joubert não estava muito preocupado com a fuga de Churchill. Na verdade, ele ofereceu de recompensa pela captura de Churchill menos dinheiro (27 shilling's) do que os oficiais britânicos estavam a pagar por uma garrafa de uísque. "Ele é pouco mais que um jornalista" foi o parecer de Joubert sobre o homem que mais tarde se tornaria primeiro-ministro britânico e um dos melhores estadistas de todos os tempos.

Seis dias depois da sua chegada a Clewer, escondeu-se num comboio carregado de lã com destino a Moçambique. O comboio finalmente chegou ao destino dois dias depois, a 21 de dezembro. O cônsul britânico em Moçambique não se convenceu logo da identidade de Churchill, mas passados dois dias transmitiu uma mensagem para as autoridades britânicas sobre a chegada de Churchill. A mensagem dizia: "Produto chegou com segurança".

O Nelson Evening Mail da Nova Zelândia a 2 de janeiro de 1900 fez a seguinte cobertura á fuga de Churchill:

"Tenente Churchill foge.

Tenente Winston Churchill, o correspondente de guerra do "Morning Post", que acaba de escapar pela segunda vez da guarda dos Boers, afirma que conseguiu fugir dos seus guardas durante a noite, e escalando um muro foi capaz de se afastar para muito longe deles. Ele embarcou num dos comboios que vão de Pretoria para Delagoa Bay, e escondeu-se sob sacos de carvão. À chegada a Delagoa Bay obteve passagem de vapor para Durban. Por vários dias alimentou-se simplesmente com chocolate. "

Winston Churchill, Prémio Nobel da Literatura conta todos os pormenores da captura e fuga no seu livro: Os Meus Primeiros Anos 1874-1908.


Bibliografia:
Genealogy World, Boers War, Capture of Winston Churchill
Encounter South Africa - Online Travel Magazine