24 agosto 2010

A Tropa em Vale de Cambra

Do Arquivo Fotográfico do Município de Vale de Cambra, extrai-se as seguintes fotografias dos anos 40 (42 a 45). Provavelmente tropa de Aveiro em treinos pelas nossas serras e consequentes demonstrações (?).




Terra de Ninguém

Nada melhor do que André Brun, (em "A Malta das Trincheiras") para nos descrever a Terra de Ninguém, na Flandres durante a Primeira Guerra Mundial onde o Corpo Expedicionário marcou presença.

«Entre a nossa linha e a sua um terreno vago, cavado de crateras, nesta altura do ano cheio de ervas e onde teimam em medrar alguns arbustos. É a terra que nem é nossa, nem do inimigo, o no man's land dos ingleses, a terra de ninguém. Os poilus de França encontram para a designar um termo de alto pitoresco. Chamam-lhe le billard. (...)

Nos intervalos das ofensivas, nos meses intermináveis da guerra puramente de trincheiras, é na terra da ninguém que se trava toda a luta de infantaria. De dia é serena. Mirada dos postos de observação é uma tranquila faixa de terreno, onde a vegetação ondeia no vento. De longe em longe, a certas horas da tarde, levanta-se nela, após um estampido longínquo e um silvo rápido, um geyser de terra. É uma granada de regulação de tiro, que procura os arames ou refereência ás primeiras linhas. (...)

Mas a noite cai e então a terra de ninguém é cheia de mistérios, povoada de perigos que se não vêem. Cada sombra que nela gira é uma patrulha, cada rumor vago que nela se ouve é um inimigo rastejando, e a morte que espreita, a cilada que se prepara. Cautelosos, aproveitando a escuridão da noite, saem os grupos que vão trabalhar no reforçamento do nosso arame; antes saíram as patrulhas para protecção que cobrem o trabalho com a sua vigilância e, rasando as ervas, batendo o arame, cortando a aresta do parapeito, começam a passar as rajadas das metralhadoras boches. Ao primeiro tiro todos se deitam, se acachapam.

A metralhadora cala-se e, lentamente, evitando o menor ruído que fixe a atenção do vizinho defronte, todos se erguem e o trabalho recomeça, para cessar dali a pouco interrompido por outra metralhadora que estala acima e cujo leque mortífero se abre e se aproxima. (...)

Em certas noites a terra de ninguém animava-se de súbito. Sentiam-se estalar granadas de mão. Duas patrulhas se tinham encontrado, e adivinhava-se na escuridão o corpo-a-corpo, a luta feroz sem quartel. As duas linhas iluminavam-se de fogachos, saíam reforços, angustiosamente se esperava a chegada de um dos combatentes para contar a refrega. Outras vezes o boche chegava aos nossos arames, buscava uma entrada para surpreender uma sentinela, e era o alarme correndo a linha toda, as Lewis fazendo fogo infernal, as granadas de espingarda silvando e estoirando.»

Fonte: A Malta das Trincheiras, André Brun
Imagem: Terra de Ninguém, in Ilustração Portuguesa

16 junho 2010

Monumento Megalítico da Portela da Anta

Por Adelino Almeida*

«Em plena Serra da Freita, na Portela da Anta, situada á cota 1076 m, existe um monumento megalítico e que é reconhecido pelos especialistas como de grande relevo na península, não pelo seu espólio, mas devido ás suas excepcionais dimensões, com um diâmetro de "tumulus", de cerca de 40 metros.
Anta é a designação dado no país para certo tipo de construções em pedra, tendo também o nome de dólmen, sendo já esta designação um galicismo.

O povo da nossa região e em Portugal designa essas construções de "Arca", "Orca", "Casa de Mouros", "Mâmoa" e ainda outros nomes, sendo estes os mais correntes e que se podem, facilmente, encontrar como designações toponímicas de certos locais bem conhecidos de todos.

As antas assinalavam o local de sepulturas, não estando propriamente definido se serviam ou não as personagens importantes daqueles recuados tempos. A localização cronológica é geralmente aceite no período que se convencionou designar por CULTURA MEGALÍTICA, que se estende desde cerca de 2500 anos antes de Cristo, ou seja há 3500 a 4500 anos atrás. A datação é feita, com mais exactidão, caso a caso, baseando-se no respectivo espólio, embora alguns especialistas tomem também em consideração o traçado da respectiva planta, a posição e orientação relativas.

O levantamento arqueológico destes monumentos e doutros das mais recente CULTURA CASTREJA foi feito na região pelo Dr. Alberto Soute, há cerca de 4 dezenas de anos atrás, não tendo lamentavelmente, ficado ou sido divulgados quaisquer elementos na região (concretamente sobre Castro de Chão do Carvalho, Anta do Cercal, Portela da Anta, Outeiro dos Riscos, etc...)

A par de algumas autoridades que na nossa região protegeram este tipo de monumentos (Ex: Padre de "Tondela", pároco de Arões e presidente da C. Municipal de Macieira de Cambra) outros estudaram os referidos documentos mas não deixaram notas sobre os referidos estudos, perdendo também o rumo dos respectivos espólios. Recentemente a Portela da Anta, durante o Verão tem sido estudada por arqueólogos competentes auxiliados por estudantes da Escola Secundária de Arouca.

O dólmen da Portela da Anta é constituído por 9 pedras aprumadas ("esteios") que limitam um espaço quase circular, não possuindo sobre estas a costumada "mesa". O espaço delimitado pelos "esteios", a "Câmara" como é designada. comunica com a parte exterior por um corredor, mais baixo que a "Câmara" e igualmente formado por pedras ao alto ("esteios"), também sem a usual cobertura.
A construção encontra-se numa ligeira elevação de terreno e com o corredor referido apontado para sudeste.

Á volta do monumento e em parte coberto com ele, existe um monte de terra com pequenas pedras, o "tumulus", parte que lhe confere notoriedade pelas invulgares dimensões.
Têm sido várias as sugestões apontadas para a existência desta configuração, desde efeitos da erosão até técnicas de construção para colocação das "tampas".
Resta dizer que é importante o conhecimento e preservação deste património, que é a memória do nosso povo e da nossa cultura.»


* In: Ecos do Povo, Ano 2 - nº2 - Outubro 1992

Fotos:
Município de Arouca
Geocaching

14 junho 2010

Feira dos 16 - Cepelos

[1.]

A Feira Nova da Pontinha

A feira tem de viver
Essa vos afirmo eu,
Tu nunca verás morrer,
Se morrer vai para o céu:
Foi baptizada ao nascer
Pelo Bispo D. Romeu.

Foi nascido na Pontinha
Uma criança alentada
A mãe só comeu galinha,
Noves meses que andou pejada...
Nasceu gorda, muito linda,
Por ali não falta nada...

Vi na Feria da Pontinha
Panos de todas as cores,
Veio a polícia cá acima,
E guardas e doutores,
Todos a ver a criancinha
E a mãe a gritar com dores...

Na feira cinco pensões
P'ra servir toda a gente:
Com pratos em condições,
Pró freguês sair contente
Mas que grandes refeições
De postas e arroz quente.

A feira ganhou raiz
Há dois dias plantada
E todo o povo já diz:
Temos feira ao pé de casa.
Os que têm maior nariz,
Cheiram a maior pitada...

Uma velha de Vilar
Faz a sua propaganda.
Diz: - P'ra vender e comprar
Não preciso ir á Gandra!...
Do que a gente precisar,
Temos de tudo, caramba!...

Na Pontinha, grande centro,
Vão ser feitas grandes obras
Pelos homens de talento,
São estas as grandes provas;
E daqui por pouco tempo
Não faltarão casas novas.

Manuel José Brandão,
A vender mercearia,
E Manuel Pedro, de Gatão,
Encheram-se nesse dia;
Fizeram um negocião
Por terem do melhor qu'havia.

Até o Senhor Ferreira
Fez negócio excelente,
Comprando ovos na feira,
- E comprava a toda a gente -
E não esvaziou a carteira
Porque a trazia quente...

O Senhor Padre Correia
Também pôs uma pensão.
Tinha sempre a sala cheia
P'ra tomar a refeição
E vinho do que "alumeia"
do melhor da Região.

Na feira havia de tudo
Na sua inauguração
E houve negócio taludo.
Só à noite faltou pão;
Mas os padeiros d'Ul
P'ra Fevereiro já cá estão.

De Rôge e de Macieira
De Junqueira e de Arões
Vêm todos á nova feira
Fazer suas transações.
Vêm da Serra e da Ribeira
De Cambra e de Castelões.

O Senhor Paiva lá estava
E o Senhor Padre Correia,
Que queriam ver livre a estrada
P'ra dar passagem à carreira,
Que vinha sempre carregada
De povo p'ra nova feira.

Viva Cepelos de Cambra!
Viva o velho da semente!
De Junqueira viva a banda
Que agradou a toda a gente!
As velhas dançam o samba
Se for que a feira se aguente.

Da autoria de Albino Filipe Pereira da Póvoa de Junqueira, em 20/01/1954, em estilo de conversa.[2.]


Feira dos 16


Inauguração: Conta-nos o Jornal de Cambra, passados quatro dias da inauguração da Feira dos 16 o seguinte:

«Foi invulgar e imprevisto acontecimento nesta freguesia, a inauguração no dia 16 da nova Feira da Pontinha. O sucesso da sua realização ultrapassou tudo quanto imaginariamente era de esperar, mesmo pelas pessoas mais otimistas.(...) Não obstante o largo espaço que ocupava a nova feira, do alto do Cruzeiro á Regadas e da igreja paroquial á residência de Manuel Fernandes de Almeida, todo terreno foi pouco para conter o grande numero de pessoas que naquele local se reuniram, uns para fazer o seu negócio, outros por simples curiosidade.
Fizeram-se na nova feira boas e numerosas transações, especialmente em gado, tanto bovino como suino, vacum, etc. O mercado de mercearia, ferragens, calçado, chapéus e ourivesaria também esteve muito animado. Fazendas e miudezas talves fossem aquelas que menos se venderam devido ao grande numero de concorrentes (...)
Foi excessiva a frequência nas casas de ''comes e bebes". Estiveram sempre á cunha a casa Prata, onde se apreciavam os saborosos rojões e o delecioso vinho de Paiva, a casa Armindo de Pina, a casa Amarela, de Manuel Gonçalves de Sousa, a casa Emídio Dias de Sousa e a casa David Gonçalves de Sousa e Maria Natália, onde se vendia o famoso vinho Zagaia, da Quinta de Vila Nova, propriedade de Adelino Tavares Russo.
A Banda Junqueirense deu entrada no recinto da feira pelas 12 horas executando, com pleno agrado dos ouvintes, durante a tarde, alguns dos melhores números do seu vasto reportório que foram muito apreciados pelos amadores da boa música.
E, para nada faltar até os carteiristas, cuja actuação, por certo, ninguém previa na nova feira, fizeram um bom S. Miguel...
Espera-se que a próxima feira dos 16 de Fevereiro não seja nada inferior á primeira feira de Janeiro.» [3.]

[...] a feira mensal dos 16, a nova feira de Cepelos, no lugar da Pontinha, que em princípios de 1954, foi inaugurada para dar apoio à parte interior/serrana do concelho e tinha duas secções:

1) no Largo das Presas e na Estrada para Gatão, organizavam-se as tendas de venda de mercearia e outros produtos de Feira / Marcado, da época;
2) no Largo por trás do Posto do Leite, realizava-se a Feira do Gado, muitíssimo concorrida pelos, na sua maioria, pobres lavradores da região, a ver se faziam algum dinheiro com a venda de gado, e pelos negociantes de gado, muito «lestos» e espertos a (se) aproveitar da ocasião.

Atingiu alguma notoriedade durante alguns anos nas transacções de géneros alimentícios e gado bovino. [4.]







Publicidade á feira da Pontinha
FEIRA DA PONTINHA
lugar da Pontinha
Feira de Gado Bovino, Suíno, Ovino, Caprino e Cavalar
mercado de frutas, aves e ovos, panos, fazendas e miudezas, ferragens e utensílios domésticos,
peixe, géneros alimentícios, e todos os produtos agrícolas.

POVO do Concelho de Vale de Cambra e Concelhos circunvizinhos!
No vosso próprio interesse vinde até Cepelos, onde com economia de tempo e de dinheiro, encontrareis tudo o que vos é preciso!
Comprar e Vender, eis a ordem.
Á Pontinha, todos os dias 16![5.]

A feira por volta de meados da década de 80 já não se realizava, realizou-se porém na década de 90 e 00 algumas reedições da feira, sendo estas apenas simbólicas, não tendo a dimensão das de outrora.


Fontes:
[1.] Fotos: Arquivo Municipal de Vale de Cambra
[2.] In: Vale de Cambra, meio século de imagens, Vol.II-Transportes, Indústria e Comércio - Fotografias da Família Sousa, Maria da Graça Gaspar Mendes de Pinho da Cruz
[3.] O Jornal de Cambra, 30-01-1954
[4.] Vale de Cambra, meio século de imagens, Vol.II-Transportes, Indústria e Comércio - Fotografias da Família Sousa, Maria da Graça Gaspar Mendes de Pinho da Cruz, e, Tabelião de Cepelos, etc. saga dos 'Alcouces', Barreiros & Compª Lda.
[5.] Ecos do Povo, nº5