07 setembro 2010

Açores na Segunda Guerra Mundial - Fotos

Um policia da RAF (à esquerda), e um sargento Português, de plantão á entrada do aeroporto das Lages.

Um Sargento Intérprete da RAF discute pormenores com mulheres portuguesas que se comprometeram no trabalho de lavandaria para o pessoal da RAF nas Lages.

Pilotos da 84ª Unidade de Embarque marcham sobre a ponte do Castelinho de São Sebastião, uma fortaleza do século XVI, em Angra do Heroísmo, onde estavam aquartelados.

Royal Engineers e trabalhadores portugueses a trabalhar na construção das novas pistas das Lages, aqui compartilhando uma pausa junto a uma pilha de tapetes Marston.

Uma Fortaleza Voadora Boieng Mark II em testes a passar por um carro-de-bois português nas Lages.

Vista aérea do aeródromo das Lages, onde se vê aeronaves estacionadas do Comando Costeiro ai baseado e também B-25 da Força Aérea Americana que faziam transporte Norte de África - Estados Unidos.

Vickers Warwick ASR Mark I, HK-E ', n º BV356 do 269º Esquadrão da RAF baseado nas Lages - Açores, num voo sobre a Terceira.

Foto aérea do aeródromo de Lages, na ilha Terceira - Açores, a partir de leste.

´Um carro blindado da RAF e um carro-de-bois no aérodromo dos Açores.


Sousa Lopes - O Pintor do CEP

«Adriano de Sousa Lopes frequentou a Academia de Belas-Artes de Lisboa e, em 1903, foi para Paris.
A partir de 1920 desenvolveu uma dimensão expressionista na sua pintura essencialmente paisagista e retratista.
Em 1927 foi director do Museu Nacional de Arte Contemporânea.
Em 1929, recuperou um estilo mais académico tardio que veio a consolidar nas pinturas a fresco que executou, com influência da técnica italiana, no Salão Nobre do Palácio de São Bento.
Perdida a espontaneidade da juventude com o ritmo crescente de encomendas oficiais e suas exigências, entregou-se a um modernismo convencional oficioso traduzido num excesso cromático e de movimento.» 1


«Sousa Lopes foi o único pintor a acompanhar o Corpo Expedicionário Português na Primeira Guerra Mundial. Foi ele quem pediu ao ministro da Guerra que o deixasse ir para a frente francesa e, lá chegado, foi a custo que se instalou nas trincheiras. A Rendição é a sua obra maior.

Em Agosto de 1917, num país agitado pela mobilização da guerra, o pintor Adriano Sousa Lopes é nomeado pelo governo da República oficial-artista do Corpo Expedicionário Português (CEP), na frente ocidental da Grande Guerra. Desde Fevereiro que sucessivos contingentes de soldados portugueses chegavam ao Norte de França, para defender uma área situada na planície do rio Lys, sector militar que não excedia os 18 quilómetros na primeira linha, e que se integrava autonomamente na frente do Primeiro Exército Britânico.

É o seu grande quadro, A Rendição: "Soldados vindos das linhas, cobertos com peles que os protegem do frio, enlameados, as caras mal rapadas, um ar de esmagadora fadiga... Esta saída da trincheira, o primeiro cotovelo que lhe descortinamos ao fundo e estes homens que saem, quase definem as linhas e a sua vida." Na versão final, é uma composição com mais de 12 metros de comprimento, terminada em 1923, hoje visível no Museu Militar de Lisboa. É uma obra- chave, que faz a síntese da experiência do pintor em França, confrontado com a dura realidade que o CEP vivia no sector português.»2


Nasceu em Vidigal, Leiria, em 20 de Fevereiro de 1879;
morreu em Lisboa em 21 de Abril de 1944.



O almoço do Pintor


Eu dissera ao meu companheiro:

- Ora oxalá não nos suceda alguma.

E revolvia na ideia aquele nosso jantar daqui há dias.

Estávamos a meio e vieram dizer que tinham trazido um morto ali da estrada. Fomos ver. Como era escuro já, tiveram que alumiar. Lá estava o soldado deitado na lama. Quando seguia, aqui perto, pim! uma bala dum-dum de metralhadora entrou-lhe pela boca e estoirou. Trouxeram-no em braços é deitaram-no ali.

Debrucei-me. A sua cabeça era uma massa sangrenta e chata estendida no chão. Lembrava um destes balões vermelhos de caoutchouc com que as crianças usam brincar e que tivesse estoirado. Perdera de todo a forma primitiva e humana. Este milagre de construção que nós trazemos sobre os ombros, estava ali esborrachado sobre a terra, alastrando carne, miolos, sangue.

No dia seguinte veio outro, tal e qual na mesma. Só a bala entrara pelo temporal.

O certo é que a seguir a gente senta-se para comer e custa a engolir o bocado. Temos no olhar o espectáculo do companheiro morto. Depois não é só isso: sente-se não sei que frio cá dentro e lembramo-nos que aquela bala, – hein! - podia ter entrado em nós. E a ideia de que se pode ficar assim, palavra de honra, não é de abrir o apetite.

Pois é verdade. Ainda não lhes disse. Oferecemos ontem um almoço. Mas dia 13... quarta-feira de cinzas... Não vá o diabo tecer alguma ...

E um almoço a um Pintor. Fazem favor de reparar que é com P grande.E

Era ao nosso Pintor da guerra, Sousa Lopes. Já tinha visto, lá pela Lisboa, uma exposição sua, mais que suficiente para lhe ter amor, como se tem a um grande artista da nossa terra.

Mas também lhes digo: se o não admirasse ainda, começava a admirá-lo agora. Porque enfim para pintar a guerra veio fazer os cartões para as trincheiras. Eu vi, eu vi-o na primeira linha, a setenta, oitenta metros do boche sentar-se. num saco e, imperturbável, apontar de crayon em punho, demoradamente.

E vi já os seus esquissos em que os soldados, apenas debuxados, todavia surgem em sofrimento e alma, mas em alma nova, com aquela centelha de revelação profunda de quem viu a Verdade, o que só a trincheira dá.

Tenham a certeza que não são os Franciscos, os Maneis, os Antónios, muito pândegos e piadistas, e um tanto lamechas que teem por aí aparecido em certas páginas. E tenham também a certeza que se ninguém mais os souber dar, como eles são de verdade, pela pena, pela lira, pelo cinzel, esse soldado, o verdadeiro, há-de ficar a tintas nos painéis de Sousa Lopes.

Ele veio cá, e aqui está, vendo, vivendo, sofrendo, para depois pintar. E os outros... Os outros, o melhor é nem falar neles.

Em termos que eu a mai-lo meu colega quisemos ter à mesa do abrigo o nobre camarada dos painéis.

Logo pela manhã foi uma azáfama. Mandámos às compras. Estudámos combinações culinárias. E, assentado o plano com o cozinheiro, mãos à obra. É que não se tem todos os dias à mesa um grande Pintor português. De mais a mais na guerra.

Por consequência pus o capacete, enverguei a máscara, peguei da bengala e fui à Horta Selvagem.

Porque hão de saber agora: nós descobrimos aqui num recanto da planície bombardeada e que há três anos se não cultiva, uma horta, uma velha horta, que em memória do mimo antigo, ergue aqui e além espontaneamente por entre as ervas comuns seu talo de couve, folhuda e agreste.

E. daí, baptizámo-la assim, à horta, com aquele nome à Júlio Verne.

Entendido: isto fica aqui entre nós, pela razão de, que os invejosos são muitos e as couves poucas.

Que digo eu?... Pouquíssimas!... Imaginem que os homens da engenharia construíram pra ali uma Decauville, uma destas Decauvilles das linhas e cortaram-me a horta ao meio.

Pois, senhores, não só me não pagaram a expropriação, como acarretaram as cóleras boches sobre a já minguada propriedade. Resultado: horta bombardeada, couves de pernas ao ar e poucos talos direitos.

Eis o triste quadro, que os meus olhos foram deparar. Vá lá uma pessoa ser proprietário com vizinhos tais.

Apanhei algumas folhas de couve; deitei um último olhar às ruínas de Cartago... quer dizer, da horta, e retirei-me.

E aqui está como o almoço abria com bacalhau, bacalhau vindo de Portugal, acompanhado de batatas... e couves. Nas linhas é opíparo. Estávamos justamente orgulhosos, e foi com mão solene que inscrevemos no menu aquele prato.

Devemos dizer-lhes que eu e o meu colega fizemos um menu. E em verso.

Abria ele por esta quadra que, se não honra os dois poetas, enobrece o pintor:

Bacalhau à Sousa Lopes,
- O fiel, com batatinhas,
Ao nosso Pintor da Guerra,
Que é fiel, pois veio às linhas.

Seguiam-se os outros pratos, cada um com sua oferta em verso. Diga-se todavia, em abono da verdade: as demais quadras não pindarizavam ninguém. Antes pelo contrário: jogavam graças pesadas, a torto e a direito, o que é muito próprio das linhas. Convêm saber que havia mais convidados. Além do Pintor, em honra de quem se dava o almoço, e dos dois médicos anfitriões, assistiam ainda um poeta e um humorista.

E só, para lhes fazer crescer água na boca, sempre lhes digo o mais que se comeu: carne de porco com feijões, bifes com batatas e salada. A regar, vinho comum, vinho do Porto e café.

O que isto nos custou a conseguir, naquelas paragens, não é fácil contar-se. Daremos uma ideia, se lhes dissermos que um ciclista andou de véspera a fazer compras ri -uma pequena cidade, a duas boas léguas de distância.

A sala, – um abrigo de elefante, onde se não pode estar de pé – tinha sido formosamente engalanada com graciosos festões... de ligaduras:

E, à hora aprazada, apesar de cair a chuva, os convidados compareceram. Almoço animado. 0, cozinheiro, que era o meu impedido, a quem nem esta prenda falta, recebeu os cumprimentos da assistência. E conversou-se muito. Falou-se da guerra, da Arte, de Portugal... De muita, muita coisa.

E não se vá dizer que os artistas comem mal. Oh! não; fizeram as honras ao almoço.

Ora sucedeu que, já no fim do repasto, naquela altura, em que, de perna traçada e abdulia aceso, se prova o Porto e bebe aos goles o café e a conversa se anima e pontevista de fantasia, lá fora, nos rails, a carreta dos feridos raspou, rodando, aqueles guinchos ásperos e lúgubres, que dizem carga pesada.

Eu e o meu colega, por dever de ofício, erguemo-nos instintivamente e sem pedir licença. E os outros seguiram-nos.

A carreta veio de lá rolando e guinchando, té que parou mesmo em frente da porta.

Acaso, não eram feridos.

Estendidos nos dois andares da carreta, estavam três mortos.

Um deles, todo cosido na manta própria, tinha a aparência egípcia de múmia, a nuca em linha direita aos ombros, os ombros em linha direita aos pés. 0 segundo, igualmente cosido no seu invólucro, conservava o mesmo aspecto, com a diferença de que tinha sido inteiramente decepado, rente aos ombros. Do último restavam, dentro duma espécie de saco com a forma e o tamanho dum presunto, qualquer coisa lá dentro que deveria ser como as sobras dum banquete de tigre.

Por muito acostumado que se esteja a estas coisas, de mim senti, talvez também pelo contraste brusco, uma circulação de gelo calafriando o peito e os membros. Os outros não deviam sentir muito menos que isto.

Por seu lado o Pintor estacara ante o quadro trágico. Depois seguiu e andou à volta, olhando fixamente. E olhava, com olhos de quem pinta, mas também com olhos de quem reza.

Os seus olhos brilhavam de piedade, que é a mais alta compreensão; e humedeciam-se de respeito ajoelhado perante as relíquias sagradas do irmão que morreu em combate.

Ao lado, a um curioso, o maqueiro elucidava:

- Foi um morteiro. que caiu no meio dum grupo de homens. Matou oito. O resto inda lá está embrulhado com a lama, na cratera.

Hoje a carreta trouxe mais dois. Pestavam já horrivelmente.

E o maqueiro, encolhendo os ombros, voltou a elucidas:

- Dos outros três, não se aproveita nada. 3


Fontes:
1. Assembleia da Républica - Visita Virtual > Sousa Lopes (1879 - 1944)
2. Público (06/09/2010) - República -Um pintor nas trincheiras - Por Carlos Silveira
3. Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra (1916-1919), in O Portal da História

24 agosto 2010

A Tropa em Vale de Cambra

Do Arquivo Fotográfico do Município de Vale de Cambra, extrai-se as seguintes fotografias dos anos 40 (42 a 45). Provavelmente tropa de Aveiro em treinos pelas nossas serras e consequentes demonstrações (?).




Terra de Ninguém

Nada melhor do que André Brun, (em "A Malta das Trincheiras") para nos descrever a Terra de Ninguém, na Flandres durante a Primeira Guerra Mundial onde o Corpo Expedicionário marcou presença.

«Entre a nossa linha e a sua um terreno vago, cavado de crateras, nesta altura do ano cheio de ervas e onde teimam em medrar alguns arbustos. É a terra que nem é nossa, nem do inimigo, o no man's land dos ingleses, a terra de ninguém. Os poilus de França encontram para a designar um termo de alto pitoresco. Chamam-lhe le billard. (...)

Nos intervalos das ofensivas, nos meses intermináveis da guerra puramente de trincheiras, é na terra da ninguém que se trava toda a luta de infantaria. De dia é serena. Mirada dos postos de observação é uma tranquila faixa de terreno, onde a vegetação ondeia no vento. De longe em longe, a certas horas da tarde, levanta-se nela, após um estampido longínquo e um silvo rápido, um geyser de terra. É uma granada de regulação de tiro, que procura os arames ou refereência ás primeiras linhas. (...)

Mas a noite cai e então a terra de ninguém é cheia de mistérios, povoada de perigos que se não vêem. Cada sombra que nela gira é uma patrulha, cada rumor vago que nela se ouve é um inimigo rastejando, e a morte que espreita, a cilada que se prepara. Cautelosos, aproveitando a escuridão da noite, saem os grupos que vão trabalhar no reforçamento do nosso arame; antes saíram as patrulhas para protecção que cobrem o trabalho com a sua vigilância e, rasando as ervas, batendo o arame, cortando a aresta do parapeito, começam a passar as rajadas das metralhadoras boches. Ao primeiro tiro todos se deitam, se acachapam.

A metralhadora cala-se e, lentamente, evitando o menor ruído que fixe a atenção do vizinho defronte, todos se erguem e o trabalho recomeça, para cessar dali a pouco interrompido por outra metralhadora que estala acima e cujo leque mortífero se abre e se aproxima. (...)

Em certas noites a terra de ninguém animava-se de súbito. Sentiam-se estalar granadas de mão. Duas patrulhas se tinham encontrado, e adivinhava-se na escuridão o corpo-a-corpo, a luta feroz sem quartel. As duas linhas iluminavam-se de fogachos, saíam reforços, angustiosamente se esperava a chegada de um dos combatentes para contar a refrega. Outras vezes o boche chegava aos nossos arames, buscava uma entrada para surpreender uma sentinela, e era o alarme correndo a linha toda, as Lewis fazendo fogo infernal, as granadas de espingarda silvando e estoirando.»

Fonte: A Malta das Trincheiras, André Brun
Imagem: Terra de Ninguém, in Ilustração Portuguesa