22 setembro 2013

Henrique Evangelista Dias Tavares - Um Valecambrense na Segunda Guerra Mundial


Natural de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra nasceu em plena Primeira Guerra Mundial (16.9.1916).
Combateu na Frente Leste, integrado na Divisão Azul da Wehrmacht onde participou na maior operação militar de todos os tempos: a invasão da União Soviética pelas forças Nazis de Hitler.

Estes soldados de Hilter nascidos entre o Minho e o Algarve faziam parte do corpo de tropas que o ditador espanhol Franco enviava para apoiar a guerra de Hitler na imensidão das estepes das florestas russas.

Fez então parte dos 159 voluntários portugueses que combateram, comprovadamente, por Hitler na frente russa, estes homens foram permeáveis ao ambiente político de uma época favorável aos regimes ditatoriais, mas também se alistaram aventureiros e mercenários para tomar parte na "cruzada antibolchevique" apregoada pelos fascismos

Para conhecer melhor a história destes bravos portugueses aconselha-se a consulta do nº 21 da Visão História.

07 novembro 2012

Os Espiões da Segunda Guerra Mundial

Atrás das Linhas do Inimigo

Os Espiões do Dia D

Sabotagem Atómica

Treinados para matar

01 junho 2012

Escola de Cepelos

* por Adelino Almeida



A primeira escola funcionou na “Casa do Cartim”, em Paçô, onde hoje deparamos com  novo edifício de habitação do falecido Eduardo Bastos e viúva Leonilde Bastos.


O Professor Aveiro chegou a Paçô em 1889 para ser o primeiro regente da cadeira de Instrução primária da freguesia de Cepelos, do então concelho de Macieira de Cambra. Francisco Cruz Aveiro de seu nome foi natural de Ílhavo onde terá nascido em 1855, vindo a falecer em Paçô, da freguesa de Cepelos, a 5 de Dezembro de 1939.

A freguesia de Cepelos carecia de instalações condignas para funcionamento da Escola e a 26 de Dezembro de 1915 a Junta Paroquial de Cepelos, em sua sessão ordinária pelo seu Presidente Emídio Dias de Sousa “foi declarado que tendo esta freguesia  sido dotada com um subsídio de mil escudos, para a construção duma casa de escola, como se vê no Diário de Governo de 25 de Outubro deste ano e sendo esta paróquia muito pobre não pode concorrer para a construção da escola, senão com madeiras e construção de pedras, por isso propunha à Sr.ª Junta que se comunicasse ao Ex. m.º Ministro da Instrução, a fim de ele autorizar a construção do referido edifício apenas com aquele auxílio da Junta...”

A Junta de Freguesia concorda com a proposta do seu Presidente, reafirmando a necessidade e pertinência do melhoramento, informando já ter remetido ao Ministério da Instrução o respetivo projeto.
A 25 de Janeiro de 1916 o Presidente apresenta o projeto e a aprovação orçamental do Ministério da Instrução, deliberando-se colocar a obra a arrematação no dia 27 de Fevereiro desse ano.

Concorrem Abel de Almeida Martins de Vila Chã e Joaquim Tavares Gonçalves de Vilar de Cepelos, que arremata por 999 escudos e 50 centavos e a quem é entregue a empreitada, o qual vai posteriormente pedindo sucessivos adiamento de prazo de entrega arrastando a obra até ao início da década de vinte a que não é estranho o fenómeno da I guerra mundial. De permeio a Junta de Freguesia recebe mais 500 escudos do Governo para ajudar às despesas da construção.

É o Professor Francisco Cruz Aveiro que toma posse na nova escola mista de Cepelos, aposentando-se em 1926, pese embora ter continuado a dar aulas particulares e grátis a muitos estudantes na sua casa em Paçô, vendo o seu nome justamente inscrito na toponímia do lugar.

Muitos foram outros os alunos, docentes e funcionários nesta escola, mas marcante pelas boas e más razões, foi a Professora Maria da Costa Macedo, natural de Póvoa de Lanhoso que durante décadas habitou a parte do edifício reservado ao professor titular. Foi casada com Armando Albergaria, ajudante de Notário, sendo ambos assinalados como opositores ao regime político, tendo mesmo ele sido afastado das suas funções.

O casal nunca teve filhos o que somado às desconfianças políticas que suscitava lhe exigia um cumprimento rigoroso e dedicado ao ensino o que levou ao extremo de cumprir um horário escolar de sol a sol. Foi professora de muitas e muitas gerações de cepelenses que eram “forçados” a brilhar nas provas de exame da quarta classe. A rotina escolar diária só terminava com a chegada do Sr. Albergaria na camioneta da CP pelas 20 horas.
Todos se lembram:
‑ “Manda-me essas crianças embora!
‑ Lá vem o protector dos animais!”, ‑ retorquia a D. Maria.

O monumental edifício escolar que tanto custou a erguer testemunhou a génese ao seu lado direito de um novo edifício escolar na década de 70 do século passado, enquadrado na arquitectura típica dos “Plano Centenário”, típico do Estado Novo e acolheu ainda durante anos o Jardim-de-Infância de Cepelos.
Na mesma década funcionou em 2 pavilhões pré-fabricados próximos a Escola do Ensino Básico Mediatizado nº 299 de Cepelos que ministrou o segundo ciclo por cerca de década e meia até à sua extinção em 2004.

Sem glória nem memória é demolido na década de oitenta (1988), construindo-se no espaço o Centro Cívico de Cepelos, onde funcionou o Pré-Escolar.
A freguesia de Cepelos dispôs ainda das Escolas Básicas de Vilar, de Tabaçó, Merlães e Irijó e respetivos Jardins-de-Infância, que paulatinamente têm vindo a encerrar frutos das fortes alterações demográficas que entretanto ocorreram no concelho e freguesia. A EB1 de Merlães foi a última a encerrar em 2006.


14 março 2012

Henrique Batista de Oliveira


Soldado nº 465 da 1ª companhia do 1º Batalhão da Infantaria nº24 do CEP.
Filho de Custódio Batista de Oliveira e de Maria Ferreira de Jesus, natural de Lourosa - Macieira de Cambra.

Embarcou em Lisboa a 23 de Fevereiro de 1917 rumo à Flandres.

Faleceu na 1ª linha, por virtude de ferimentos recebidos em combate, em 15 de Julho de 1917, sendo sepultado no cemitério de Vieille-Chapelle, coval F5.

Pensão de Preço de Sangue solicitada pela mãe, Maria Ferreira de Jesus a 15-06-1923.

Fonte: Serviço de Estatística do Corpo Expedicionário Português / Arquivo Histórico Militar
Foto: Postal do Cemitério de Vieille-Chapelle

11 março 2012

António Moreira Maia


Soldado nº 183 do 1º Grupo de Metralhadoras da 2ª Bateria do CEP.

Filho de Manuel António Moreira e de Maria de Jesus, natural de Cepelos - Macieira de Cambra.

Embarcou com o Corpo Expedicionário Português em Lisboa a 22 de Fevereiro de 1917 rumo á Flandres.

Da sua ficha militar resume-se o seguinte:

«Punido em 28-01-1918 pelo comandante da Bateria com 10 dias de detenção por ter escrito uma carta destinada a Portugal em que dizia noticias falsas, e fazia intimações descabidas e falsas a serviços com referência a superiores.

Punido em 20-02-1918 pelo comandante da Bateria com 2 dias de detenção por ter faltado ontem à instrução sem motivo justificado apresentando-se ás 16h 15m infringindo o nº5 do art.º 4 do R.D.E.

Desaparecido em 9 de Abril de 1918. Por comunicação da comissão de Prisioneiros de Guerra foi feito prisioneiro sendo internado no Campo de Friedrichsfeld.
Presente em 14 de Janeiro de 1919.

Desembarcou em Lisboa a 28 de Janeiro de 1919.»

_ _ _ _ _ _ _ _ _

Fonte: Serviço de Estatística do Corpo Expedicionário Português / Arquivo Histórico Militar
Foto: Portugueses presos após a batalha do Lys no campo de Friedrichsfeld - Bundesarchiv

03 janeiro 2012

Adelino Tavares


Soldado Servente nº 432 da 4ª Bateria do Regimento de Artilharia nº2, nasceu a 21 de Abril de 1895 filho de Salvador Tavares e de Mequelina Rosa de Jesus, natural de Junqueira (Póvoa) - Macieira de Cambra.

Embarcou com o Corpo Expedicionário Português de Lisboa a 20 de Janeiro de 1917 rumo à Flandres.

Louvado pela serenidade e frieza pela ocasião do combate de 6/7 de Junho de 1917 quando uma granada alemã derrubou sobre a peça e guarnição da mesma que fazia parte, uma grande pernada de árvore que o feriu sem que tal facto fizesse interromper o serviço e pela decisão e energia com que contribuiu para a extinção do incêndio que uma outra granada fez atear nos panos que mascaravam a peça, enquanto outros seus camaradas tratavam de retirar as munições que se achavam perto.

Condecorado com a Cruz de Guerra de 3ª Classe por decreto de 5 de Novembro, publicado na O E nº16 (2ª serie) de 15 do mesmo mês.

Encontra-se de licença de campanha e foi colocado no D. Artilharia C. em 19 de Setembro de 1918.

Aumentado ao efectivo do D. Artilharia C. e à 3ª Secção com o nº 371 em 19-9-1918 nos termos da O. C. nº 200 de 24-7-1918.

Abatido ao efectivo do D. Artª C. em 31-1-1919 (encontra-se ausente).

Desembarcou em Lisboa a 4 de Outubro de 1919.



_ _ _ _ _ _ _ _ _

Fonte: Serviço de Estatística do Corpo Expedicionário Português / Arquivo Histórico Militar

23 outubro 2011

Grande Guerra - Cruz de Mérito de 3ª Classe

Cruz de Guerra de 3ª classe do soldado valecambrense Adelino Tavares pertencente ao Regimento de Artilharia nº 2 do CEP, natural da freguesia de Junqueira, ganha por mérito em França durante a 1ª Guerra Mundial.





20 fevereiro 2011

A Batalha subterrânea de Messines


"Senhores, nós amanha podemos não fazer história, mas vamos certamente mudar a geografia".1


Ingleses, Canadianos, Neozelandeses e Australianos, escavaram em 1917 na região de Ypres (Batalha de Messines) vários túneis por baixo das trincheiras alemãs onde a terra era bastante enlameada e colocaram 22 minas que totalizavam 456 toneladas de explosivo de amónio.
Graças ao árduo trabalho dos geólogos (visto a solo ter muita água) esta operação iria ser um sucesso.

A uma distância considerável das trincheiras alemãs começavam os túneis (perfaziam mais de 5 km) que iriam desaguar mesmo por baixo do terreno onde se encontravam os alemães e onde iria ser colocada toda a carga.

Os ingleses fizeram notar aos alemães que iriam fazer uma ofensiva em larga escala, para que estes se reforçassem em numero de homens e de material, e assim quando houvesse a detonação o numero de vitimas e de destruição fosse o máximo.

A 7 de Junho de 1917 deu-se a explosão de todas as cargas matando aproximadamente 10.000 alemães e destruindo todas as fortificações bem como a própria cidade de Messines.

A maior das 22 minas apelidada de Lone Tree Crater e posteriormente rebatizada para "Piscina da Paz" , estava num sitio chamado Spanbroekmolen e quando esta explodiu formou-se uma cratera com 80 metros de diâmetro e 12 metros de profundidade. Esta mina consistia em 41 toneladas de amónio que estava 27 metros abaixo do solo alemão.

Para se ter a noção da potência das detonações na Batalha de Messines estas foram as maiores de sempre realizadas pelo ser humano até ás Bombas Atómicas de 1945, sendo a maior explosão não-nuclear de todos os tempos. Com os cerca de 10.000 mortos, a explosão de Messines foi a que causou, através de acção humana, o maior numero de mortos não-nucleares até aos dias de hoje.

A explosão foi sentida em Londres e Dublin.


Em questão de meses o alemães reconquistaram o território destruído pela explosão que tinha caído nas mãos dos aliados.

Esta história é contada sob ponto de vista australiano no filme BENEATH HILL 60. (recomenda-se)


1. Comentário do General Plumer na noite anterior á detonação.

Imagem: cratera da Piscina da Paz nos dias de hoje

Bibliografia:
Beneath Hill 60 (filme)
firstworldwar.com

26 janeiro 2011

" a Avenida Afonso Costa "


« A terra de ninguém era apelidada, de «Avenida Afonso Costa» como meio de os militares exteriorizarem a ira pelo facto de serem obrigados a sujeitarem-se a esse espaço de horror, personalizando no Primeiro-Ministro todo o ressentimento que sentiam. »


in: Isabel Pestana Marques - Das Trincheiras, Com Saudade

Foto: (a entrar na terra de ninguém) - The Imperial War Museum

25 janeiro 2011

A lição do Livro da 3ª classe (anos 40)*


A Papoila e o Trigo


A papoila dizia ao trigo: - como sou linda oh meu amigo, encarnadinha, bela e viçosa. Sou mais bonita que uma rosa.

Diz o trigo à papoila: - tu não tens pena de me veres assim, de teres nascido ao pé de mim?

E nisto passa o Lavrador...

Vai-se à papoila e corta a flor.
Ao trigo, pão dos seu filhinhos, enche-os de fago e de carinhos.

Filhas é vão ter formosura mas ser vaidosa não traz ventura.

E era assim que se educava no Estado Novo.

*contado pela minha avó (nascida nos anos 30)


25 novembro 2010

Casa da Tulha


Enquadramento

Rural, isolado, no interior de recinto murado que limita a E. com EM, para onde tem a fachada principal, e dos outros lados com terrenos agrícolas; no interior do recinto, do lado SO., tem outra casa rural de dois pisos, paredes de granito, em mau estado de conservação; implanta-se na encosta sobranceira ao vale do rio Caima, à entrada do principal núcleo de casas da sede da freguesia.

Descrição

Planta trapezoidal composta por volume único com cobertura em telhado de 3 águas. Alçados de 2 pavimentos em dois dos lados (N. e O.) e de 1 pavimento do lado E., que é o principal, onde o piso inferior adossa ao declive do terreno, e do lado S., onde existe apenas o piso inferior. Paredes de alvenaria de granito. Fachada principal com portal moldurado, de entablamento, cartela sobre a verga da porta e o friso do entablamento, com data ilegível e decorada por motivos de concheado; remate com fogaréus sobre pedestais, decorados numa das faces com florão, que enquadram cruz sobre pedestal, no qual tem esculpidos os signos papais da tiara pontifical sobreposta a duas chaves cruzadas; pano de parede à direita com segundo portal, simples, que partilha degrau com o primeiro; pano de parede à esquerda, recortado superiormente pela empena do telhado e breve recuo no flanco sobre o qual tem outro portal simples. Fachada N. com escada adossada de granito, no primeiro piso, e alpendre com grande arco de volta plena sobre pés-direitos salientes, para onde abre porta moldurada; no piso superior, ao lado esquerdo, tem alpendre sob telhado, com guarda de balaustrada de granito, para onde abrem porta moldurada ladeada de pequena janela; ao outro lado, sobre o arco do piso inferior, abre-se na parede óculo circular moldurado. Alçado O. com vão rectangular ao lado esquerdo do primeiro piso, abrindo para o alpendre, e porta simples ladeada de fresta vertical, junto do flanco da direita; duas janelas no piso superior, de peito e moldurada a que encima o vão rectangular sendo a colocada à direita também moldurada mas de avental e de duas mísulas aos lados. INTERIOR: porta moldurada, com a padieira recortada e enrolamentos aos centro, abrindo para o alpendre do piso superior; neste piso, sala ampla, com janela de conversadeiras, que mostra ter sido anteriormente dividida tendo metade do espaço coberto por tecto artesoado de plano octogonal, com duas séries de caixotões trapezoidais de madeira convergindo ao centro num octogono, enquanto a outra metade exibe tecto simples de madeira; pavimento de soalho; no piso inferior lagar com prensa de madeira.



Cronologia

1760, antes de - construção do corpo original da casa de dois pisos e planta trapezoidal; 1760 - adaptação para dependência do Mosteiro de Arouca como tulha ou celeiro destinada a recolher e guardar os foros das terras da freguesia e que eram foreiras do mosteiro tendo sido ampliado do lado NE. e construído o portal decorado; séc. 19 ou 20 (conjectural) - ampliação do lado SO. para instalação de lagar; 1992 - pedido de classificação como imóvel de valor concelhio ao IPPAR pela Câmara Municipal de Vale de Cambra; 1995 - o proprietário Adelino Soares de Oliveira (Cepelos, Vale de Cambra) propõe à CMVC a compra por 2000 c.; 1996, 22 de Fevereiro - contrato de compra e venda; 1996 - obra de recuperação proposta à ADRIMAG; 1996, 18 de Dezembro - foi aprovado o projecto de obra pela ADRIMAG; 1997, 3 de Junho - parecer do IPPAR; 1997 - abertura do concurso público da obra; 2000, Junho - foi proposta em reunião de Câmara a transformação da Casa da Tulha em anexo da Biblioteca Municipal e em núcleo museológico etnográfico.



Tipologia

Arquitectura civil, barroca. Celeiro e lagar de planta quadrangular, volume único e alçados de 2 pisos com paredes de alvenaria de granito. Alçado principal com portal moldurado, de entablamento, cartela decorada por motivos de concheado e remate com fogaréus que enquadram cruz; no interior, porta moldurada com a padieira recortada e com enrolamentos aos centro, tecto artesoado de plano octogonal com caixotões de madeira e lagar com prensa de madeira.



Características Particulares

Foi dependência do Mosteiro de Arouca enquanto tulha ou celeiro destinada a recolher e guardar os foros das terras da freguesia e que eram foreiras do mosteiro.



Intervenção Realizada

Camara Municipal de Vale de Cambra: 1999, Outubro - início da obra; 2000, Abril - conclusão da obra que inclui a renovação das coberturas (telhado e vigamentos), caixilharias, tectos e soalhos (mantendo-se as madeiras antigas), limpeza e restauro das cantarias e elementos arquitectónicos, renovação da rede eléctrica, construção de uma instalação sanitária e arranjos exteriores.

Fonte: monumentos.pt - Paulo Dordio, 2001

10 outubro 2010

A Guerra



Se o Pe António Vieira nos diz isto sobre a guerra:

“É a guerra aquele monstro (...)
O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, e até Deus nos templos e sacrários não está seguro.»

Ao que Jaime Cortesão depois de ter vivido os horrores da Grande Guerra ao serviço do Corpo Expedicionário Português acrescenta que nem os mortos nas suas sepulturas estão seguros, visto os bombardeamentos dos boches terem "desenterrado" os mortos num cemitério relativamente próximo do front que pôs á derivada caixões e corpos em valas cheias de águas verdes e amarelas.


Imagem: Ilustração Portugueza, No. 485, Junho 7 1915 - 17 in Ilustração Portuguesa

22 setembro 2010

Cepelos - entrega de bens à corporação encarregada do culto













Fonte: Secretaria-Geral do Ministério das Finanças e da Administração Interna > Biblioteca e Arquivo Digital

Egas Moniz - o diplomata

imagem: delegados aliados para a Conferência da Paz em Paris onde se vê Egas Moniz como representante de Portugal

«Egas Moniz, responsável pela pasta dos Estrangeiros, parte para Londres a 5 de Dezembro(1918), na sua qualidade de presidente da Delegação Portuguesa á Conferência de Paz, para que fora nomeado a 20 de Novembro. E a 10 de Dezembro é recebido por Balfour, o ministro dos Estrangeiros britânico.

Desta primeira reunião, como indica José Medeiros Ferreira em Portugal na Conferência da Paz, são retirados os objectivos iniciais de Egas Moniz, os quais divergem em parte dos de Sidónio Pais. Nas duas semanas que antecedem o início da conferência, Egas Moniz tem intensa actividade em Paris onde se reúne com o seu homologo francês.

No livro que acima se refere, deduz-se que existe uma grande desorientação da Delegação Portuguesa, que tanto se preocupa com os grandes objectivos a alcançar na Conferência (domínio colonial, indemnizações de guerra, repartição de meios de guerra) como se preocupa com o numero de delegados, gastando nesta última questão parte do tempo precioso que antecedeu a abertura oficial da Conferência de Paz. Posteriormente, Canto e Castro envia para Paris um documento no qual compendia os objectivos portugueses na Conferência de Paz.

Desde a partida de Egas Moniz de Lisboa, a 5 de Dezembro de 1918, que os acontecimentos em Portugal haviam evoluído por forma assaz desfavorável para a força política, ou meramente representativa, «do primeiro presidente da Delegação Portuguesa à Conferência de Paz». Assim, a 14 de Dezembro foi assassinado Sidónio Pais e a 16 era eleito, no Parlamento, o contra-almirante Canto e Castro. Este nomeia presidente do Governo o tenente-coronel João Tamagnini Barbosa, que mantém Egas Moniz na pasta do Estrangeiros.

Agita-se o elemento militar. As Juntas Militares, de cariz monárquico, pretendem interferir na composição do Governo e opõem-se em particular à continuação de Egas Moniz. Revolta-se João Almeida, «o herói dos Dembos», no próprio dia da tomada de posso do Governo. Das negociações que se seguiram entre Tamagnini Barbosa e João Almeida resulta a substituição do gabinete formado a 23 de Dezembro por outro, que toma posse a 27 de Janeiro de 1919. A 11 de Janeiro dá-se uma revolta republicana em Santarém. A 19, as Juntas proclamam a Monarquia do Norte; a 23 desse mês os monárquicos ocupam Monsanto e a 24 são desalojados por forças fiéis à República. A 27 de Janeiro um novo Governo, desta vez presidido pelo democrático Domingos Pereira, onde não participavam sidonistas. Era o regresso em plena força da República Velha».

Afonso Costa, nessa emergência, será o responsável máximo pelas negociações de Paris, a fim de rematar da melhor maneira possível a participação de Portugal na Grande Guerra. E a partir de 17 de Março de 1919 a presidência da Delegação Portuguesa à Conferência da Paz pertence-lhe. Mais: a verdadeira chefia da diplomacia portuguesa passa-lhe para as mãos, como grande parte da política governamental.

O afastamento de Egas Moniz deveu-se de certa forma á sua participação no Sidonismo e aos acontecimentos de Dezembro e Janeiro de 18/19. Abandona a política e torna-se passado alguns anos o primeiro Prémio Nobel português.»


Base do Texto: Portugal na Conferência da Paz - Paris,1919 - José Medeiros Ferreira
Imagem: The War of the Nations (New York), December 31, 1919, in The Library of Congress > American Memory

O afastamento do futuro Prémio Nobel da Medicina prendeu-se, antes de mais, com a sua participação no sidonismo.

O afastamento do futuro Prémio Nobel da Medicina prendeu-se, antes de mais, com a sua participação no sidonismo.

07 setembro 2010

O Corpo Expedicionário Português no New York Times

O New York Times de 11 de Março de 1917 dava a notícia que o Corpo Expedicionário Português (CEP) desembarcava em Brest rumo á frente de combate.


fotografia da notícia
Tropas portuguesas destinadas á frente francesa atravessando Brest, tendo desembarcado á pouco no porto dessa cidade.(Lê-se na legenda á fotografia no Jornal)

Diz-nos também o jornal, que tanto quanto sabe a fotografia em cima é a primeira fotografia de um corpo considerável de soldados portugueses em solo francês.

Foto de Kadel & Herbert


Fonte: New York Times 11-03-1917, in The Library of Congress > American Memory

Açores na Segunda Guerra Mundial - Fotos

Um policia da RAF (à esquerda), e um sargento Português, de plantão á entrada do aeroporto das Lages.

Um Sargento Intérprete da RAF discute pormenores com mulheres portuguesas que se comprometeram no trabalho de lavandaria para o pessoal da RAF nas Lages.

Pilotos da 84ª Unidade de Embarque marcham sobre a ponte do Castelinho de São Sebastião, uma fortaleza do século XVI, em Angra do Heroísmo, onde estavam aquartelados.

Royal Engineers e trabalhadores portugueses a trabalhar na construção das novas pistas das Lages, aqui compartilhando uma pausa junto a uma pilha de tapetes Marston.

Uma Fortaleza Voadora Boieng Mark II em testes a passar por um carro-de-bois português nas Lages.

Vista aérea do aeródromo das Lages, onde se vê aeronaves estacionadas do Comando Costeiro ai baseado e também B-25 da Força Aérea Americana que faziam transporte Norte de África - Estados Unidos.

Vickers Warwick ASR Mark I, HK-E ', n º BV356 do 269º Esquadrão da RAF baseado nas Lages - Açores, num voo sobre a Terceira.

Foto aérea do aeródromo de Lages, na ilha Terceira - Açores, a partir de leste.

´Um carro blindado da RAF e um carro-de-bois no aérodromo dos Açores.


Sousa Lopes - O Pintor do CEP

«Adriano de Sousa Lopes frequentou a Academia de Belas-Artes de Lisboa e, em 1903, foi para Paris.
A partir de 1920 desenvolveu uma dimensão expressionista na sua pintura essencialmente paisagista e retratista.
Em 1927 foi director do Museu Nacional de Arte Contemporânea.
Em 1929, recuperou um estilo mais académico tardio que veio a consolidar nas pinturas a fresco que executou, com influência da técnica italiana, no Salão Nobre do Palácio de São Bento.
Perdida a espontaneidade da juventude com o ritmo crescente de encomendas oficiais e suas exigências, entregou-se a um modernismo convencional oficioso traduzido num excesso cromático e de movimento.» 1


«Sousa Lopes foi o único pintor a acompanhar o Corpo Expedicionário Português na Primeira Guerra Mundial. Foi ele quem pediu ao ministro da Guerra que o deixasse ir para a frente francesa e, lá chegado, foi a custo que se instalou nas trincheiras. A Rendição é a sua obra maior.

Em Agosto de 1917, num país agitado pela mobilização da guerra, o pintor Adriano Sousa Lopes é nomeado pelo governo da República oficial-artista do Corpo Expedicionário Português (CEP), na frente ocidental da Grande Guerra. Desde Fevereiro que sucessivos contingentes de soldados portugueses chegavam ao Norte de França, para defender uma área situada na planície do rio Lys, sector militar que não excedia os 18 quilómetros na primeira linha, e que se integrava autonomamente na frente do Primeiro Exército Britânico.

É o seu grande quadro, A Rendição: "Soldados vindos das linhas, cobertos com peles que os protegem do frio, enlameados, as caras mal rapadas, um ar de esmagadora fadiga... Esta saída da trincheira, o primeiro cotovelo que lhe descortinamos ao fundo e estes homens que saem, quase definem as linhas e a sua vida." Na versão final, é uma composição com mais de 12 metros de comprimento, terminada em 1923, hoje visível no Museu Militar de Lisboa. É uma obra- chave, que faz a síntese da experiência do pintor em França, confrontado com a dura realidade que o CEP vivia no sector português.»2


Nasceu em Vidigal, Leiria, em 20 de Fevereiro de 1879;
morreu em Lisboa em 21 de Abril de 1944.



O almoço do Pintor


Eu dissera ao meu companheiro:

- Ora oxalá não nos suceda alguma.

E revolvia na ideia aquele nosso jantar daqui há dias.

Estávamos a meio e vieram dizer que tinham trazido um morto ali da estrada. Fomos ver. Como era escuro já, tiveram que alumiar. Lá estava o soldado deitado na lama. Quando seguia, aqui perto, pim! uma bala dum-dum de metralhadora entrou-lhe pela boca e estoirou. Trouxeram-no em braços é deitaram-no ali.

Debrucei-me. A sua cabeça era uma massa sangrenta e chata estendida no chão. Lembrava um destes balões vermelhos de caoutchouc com que as crianças usam brincar e que tivesse estoirado. Perdera de todo a forma primitiva e humana. Este milagre de construção que nós trazemos sobre os ombros, estava ali esborrachado sobre a terra, alastrando carne, miolos, sangue.

No dia seguinte veio outro, tal e qual na mesma. Só a bala entrara pelo temporal.

O certo é que a seguir a gente senta-se para comer e custa a engolir o bocado. Temos no olhar o espectáculo do companheiro morto. Depois não é só isso: sente-se não sei que frio cá dentro e lembramo-nos que aquela bala, – hein! - podia ter entrado em nós. E a ideia de que se pode ficar assim, palavra de honra, não é de abrir o apetite.

Pois é verdade. Ainda não lhes disse. Oferecemos ontem um almoço. Mas dia 13... quarta-feira de cinzas... Não vá o diabo tecer alguma ...

E um almoço a um Pintor. Fazem favor de reparar que é com P grande.E

Era ao nosso Pintor da guerra, Sousa Lopes. Já tinha visto, lá pela Lisboa, uma exposição sua, mais que suficiente para lhe ter amor, como se tem a um grande artista da nossa terra.

Mas também lhes digo: se o não admirasse ainda, começava a admirá-lo agora. Porque enfim para pintar a guerra veio fazer os cartões para as trincheiras. Eu vi, eu vi-o na primeira linha, a setenta, oitenta metros do boche sentar-se. num saco e, imperturbável, apontar de crayon em punho, demoradamente.

E vi já os seus esquissos em que os soldados, apenas debuxados, todavia surgem em sofrimento e alma, mas em alma nova, com aquela centelha de revelação profunda de quem viu a Verdade, o que só a trincheira dá.

Tenham a certeza que não são os Franciscos, os Maneis, os Antónios, muito pândegos e piadistas, e um tanto lamechas que teem por aí aparecido em certas páginas. E tenham também a certeza que se ninguém mais os souber dar, como eles são de verdade, pela pena, pela lira, pelo cinzel, esse soldado, o verdadeiro, há-de ficar a tintas nos painéis de Sousa Lopes.

Ele veio cá, e aqui está, vendo, vivendo, sofrendo, para depois pintar. E os outros... Os outros, o melhor é nem falar neles.

Em termos que eu a mai-lo meu colega quisemos ter à mesa do abrigo o nobre camarada dos painéis.

Logo pela manhã foi uma azáfama. Mandámos às compras. Estudámos combinações culinárias. E, assentado o plano com o cozinheiro, mãos à obra. É que não se tem todos os dias à mesa um grande Pintor português. De mais a mais na guerra.

Por consequência pus o capacete, enverguei a máscara, peguei da bengala e fui à Horta Selvagem.

Porque hão de saber agora: nós descobrimos aqui num recanto da planície bombardeada e que há três anos se não cultiva, uma horta, uma velha horta, que em memória do mimo antigo, ergue aqui e além espontaneamente por entre as ervas comuns seu talo de couve, folhuda e agreste.

E. daí, baptizámo-la assim, à horta, com aquele nome à Júlio Verne.

Entendido: isto fica aqui entre nós, pela razão de, que os invejosos são muitos e as couves poucas.

Que digo eu?... Pouquíssimas!... Imaginem que os homens da engenharia construíram pra ali uma Decauville, uma destas Decauvilles das linhas e cortaram-me a horta ao meio.

Pois, senhores, não só me não pagaram a expropriação, como acarretaram as cóleras boches sobre a já minguada propriedade. Resultado: horta bombardeada, couves de pernas ao ar e poucos talos direitos.

Eis o triste quadro, que os meus olhos foram deparar. Vá lá uma pessoa ser proprietário com vizinhos tais.

Apanhei algumas folhas de couve; deitei um último olhar às ruínas de Cartago... quer dizer, da horta, e retirei-me.

E aqui está como o almoço abria com bacalhau, bacalhau vindo de Portugal, acompanhado de batatas... e couves. Nas linhas é opíparo. Estávamos justamente orgulhosos, e foi com mão solene que inscrevemos no menu aquele prato.

Devemos dizer-lhes que eu e o meu colega fizemos um menu. E em verso.

Abria ele por esta quadra que, se não honra os dois poetas, enobrece o pintor:

Bacalhau à Sousa Lopes,
- O fiel, com batatinhas,
Ao nosso Pintor da Guerra,
Que é fiel, pois veio às linhas.

Seguiam-se os outros pratos, cada um com sua oferta em verso. Diga-se todavia, em abono da verdade: as demais quadras não pindarizavam ninguém. Antes pelo contrário: jogavam graças pesadas, a torto e a direito, o que é muito próprio das linhas. Convêm saber que havia mais convidados. Além do Pintor, em honra de quem se dava o almoço, e dos dois médicos anfitriões, assistiam ainda um poeta e um humorista.

E só, para lhes fazer crescer água na boca, sempre lhes digo o mais que se comeu: carne de porco com feijões, bifes com batatas e salada. A regar, vinho comum, vinho do Porto e café.

O que isto nos custou a conseguir, naquelas paragens, não é fácil contar-se. Daremos uma ideia, se lhes dissermos que um ciclista andou de véspera a fazer compras ri -uma pequena cidade, a duas boas léguas de distância.

A sala, – um abrigo de elefante, onde se não pode estar de pé – tinha sido formosamente engalanada com graciosos festões... de ligaduras:

E, à hora aprazada, apesar de cair a chuva, os convidados compareceram. Almoço animado. 0, cozinheiro, que era o meu impedido, a quem nem esta prenda falta, recebeu os cumprimentos da assistência. E conversou-se muito. Falou-se da guerra, da Arte, de Portugal... De muita, muita coisa.

E não se vá dizer que os artistas comem mal. Oh! não; fizeram as honras ao almoço.

Ora sucedeu que, já no fim do repasto, naquela altura, em que, de perna traçada e abdulia aceso, se prova o Porto e bebe aos goles o café e a conversa se anima e pontevista de fantasia, lá fora, nos rails, a carreta dos feridos raspou, rodando, aqueles guinchos ásperos e lúgubres, que dizem carga pesada.

Eu e o meu colega, por dever de ofício, erguemo-nos instintivamente e sem pedir licença. E os outros seguiram-nos.

A carreta veio de lá rolando e guinchando, té que parou mesmo em frente da porta.

Acaso, não eram feridos.

Estendidos nos dois andares da carreta, estavam três mortos.

Um deles, todo cosido na manta própria, tinha a aparência egípcia de múmia, a nuca em linha direita aos ombros, os ombros em linha direita aos pés. 0 segundo, igualmente cosido no seu invólucro, conservava o mesmo aspecto, com a diferença de que tinha sido inteiramente decepado, rente aos ombros. Do último restavam, dentro duma espécie de saco com a forma e o tamanho dum presunto, qualquer coisa lá dentro que deveria ser como as sobras dum banquete de tigre.

Por muito acostumado que se esteja a estas coisas, de mim senti, talvez também pelo contraste brusco, uma circulação de gelo calafriando o peito e os membros. Os outros não deviam sentir muito menos que isto.

Por seu lado o Pintor estacara ante o quadro trágico. Depois seguiu e andou à volta, olhando fixamente. E olhava, com olhos de quem pinta, mas também com olhos de quem reza.

Os seus olhos brilhavam de piedade, que é a mais alta compreensão; e humedeciam-se de respeito ajoelhado perante as relíquias sagradas do irmão que morreu em combate.

Ao lado, a um curioso, o maqueiro elucidava:

- Foi um morteiro. que caiu no meio dum grupo de homens. Matou oito. O resto inda lá está embrulhado com a lama, na cratera.

Hoje a carreta trouxe mais dois. Pestavam já horrivelmente.

E o maqueiro, encolhendo os ombros, voltou a elucidas:

- Dos outros três, não se aproveita nada. 3


Fontes:
1. Assembleia da Républica - Visita Virtual > Sousa Lopes (1879 - 1944)
2. Público (06/09/2010) - República -Um pintor nas trincheiras - Por Carlos Silveira
3. Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra (1916-1919), in O Portal da História

24 agosto 2010

A Tropa em Vale de Cambra

Do Arquivo Fotográfico do Município de Vale de Cambra, extrai-se as seguintes fotografias dos anos 40 (42 a 45). Provavelmente tropa de Aveiro em treinos pelas nossas serras e consequentes demonstrações (?).




Terra de Ninguém

Nada melhor do que André Brun, (em "A Malta das Trincheiras") para nos descrever a Terra de Ninguém, na Flandres durante a Primeira Guerra Mundial onde o Corpo Expedicionário marcou presença.

«Entre a nossa linha e a sua um terreno vago, cavado de crateras, nesta altura do ano cheio de ervas e onde teimam em medrar alguns arbustos. É a terra que nem é nossa, nem do inimigo, o no man's land dos ingleses, a terra de ninguém. Os poilus de França encontram para a designar um termo de alto pitoresco. Chamam-lhe le billard. (...)

Nos intervalos das ofensivas, nos meses intermináveis da guerra puramente de trincheiras, é na terra da ninguém que se trava toda a luta de infantaria. De dia é serena. Mirada dos postos de observação é uma tranquila faixa de terreno, onde a vegetação ondeia no vento. De longe em longe, a certas horas da tarde, levanta-se nela, após um estampido longínquo e um silvo rápido, um geyser de terra. É uma granada de regulação de tiro, que procura os arames ou refereência ás primeiras linhas. (...)

Mas a noite cai e então a terra de ninguém é cheia de mistérios, povoada de perigos que se não vêem. Cada sombra que nela gira é uma patrulha, cada rumor vago que nela se ouve é um inimigo rastejando, e a morte que espreita, a cilada que se prepara. Cautelosos, aproveitando a escuridão da noite, saem os grupos que vão trabalhar no reforçamento do nosso arame; antes saíram as patrulhas para protecção que cobrem o trabalho com a sua vigilância e, rasando as ervas, batendo o arame, cortando a aresta do parapeito, começam a passar as rajadas das metralhadoras boches. Ao primeiro tiro todos se deitam, se acachapam.

A metralhadora cala-se e, lentamente, evitando o menor ruído que fixe a atenção do vizinho defronte, todos se erguem e o trabalho recomeça, para cessar dali a pouco interrompido por outra metralhadora que estala acima e cujo leque mortífero se abre e se aproxima. (...)

Em certas noites a terra de ninguém animava-se de súbito. Sentiam-se estalar granadas de mão. Duas patrulhas se tinham encontrado, e adivinhava-se na escuridão o corpo-a-corpo, a luta feroz sem quartel. As duas linhas iluminavam-se de fogachos, saíam reforços, angustiosamente se esperava a chegada de um dos combatentes para contar a refrega. Outras vezes o boche chegava aos nossos arames, buscava uma entrada para surpreender uma sentinela, e era o alarme correndo a linha toda, as Lewis fazendo fogo infernal, as granadas de espingarda silvando e estoirando.»

Fonte: A Malta das Trincheiras, André Brun
Imagem: Terra de Ninguém, in Ilustração Portuguesa