20 abril 2009

O Tardo - Lendas e Passagens

O que é?
«O tardo é uma espécie de duende, um ser mítico do folclore popular português. O tardo também se chama de pesadelo ou tardo moleiro. O tardo vai importunar as pessoas que estão a dormir na cama que depois acordam com um grande pesadelo O tardo pode aparecer na figura de um animal e frequentemente aparece na figura de um cão, gato ou cabra. O tardo quando aparece nos caminhos, nos regatos e nas encruzilhadas tenta deixar as pessoas intardadas (desorientadas) sem saber qual caminho seguir, mijando nas pernas das pessoas.

Uma criança pode se transformar num tardo e correr o fado se o padrinho durante o baptizado não disser as palavras certas. A transformação terá lugar antes da idade da comunhão, aos sete anos. A criança antes de se transformar pendura a roupa na árvore mais alta de uma encruzilhada e transforma-se num animal. Se durante sete anos não lhe quebrarem o fado transforma-se em lobisomem.

José Leite de Vasconcelos. Tradições populares de Portugal. Biblioteca Ethnografica Portuguesa.



"O Tardo na minha Terra"

Conta a minha avó que quando era pequena havia um vizinho que era um exímio contador de histórias, chamava-se "Ti Evaristo" e começava as suas histórias com um "Era uma vez..." fascinante devido á sua pronuncia e ao seu tom de voz engraçado.
A história que se segue segundo o próprio é verídica, e gostava de a começar da mesma forma que a pessoa que a contava á cerca 60 anos atrás.
Era uma vez o Ti Evaristo nascido em Cepelos, coveiro e de certeza devido aos factos da história agricultor. Numa certa madrugada ia a personagem da história, de Cepelos "varrer" o moinho a um sitio perto da barragem engº Duarte Pacheco e do actual Viveiro da Trutas que tem por nome "Cunhedo", com uma "lanternazita".
Ao seguir por um caminho no meio do pinhal, ouviu muita lenha a "estalar" e a cair ao chão e disse: "Bota pra baixo que amanha venho-te buscar".
Chegou ao moinho, entrou, fechou a porta e começou a "varrer" a farinha para vir embora para casa.
Para seu espanto e susto começam "faiscas" de fogo a entrar pela "frincha" debaixo da porta do moinho.
O "Ti Evaristo" nem acabou de "varrer" a farinha do moinho e só voltou para o lugar quando raiou o dia.
Culpou o Tardo pelo sucedido e visto que não tinha sido assustado pelo "estalar" da lenha, troçando ainda com isso, assustou-se com as "faiscas" deveras, e jurou para nunca mais troçar com o Tardo.

A "Ponte Fantasma" (en227) baptizada assim certamente por aqui aparecer o tardo segundo o que contava o meu Bisavô.
Quando a estrada N227 se construía e também a ponte em questão, havia um Guarda que ia para lá de noite guardar as ferramentas que de dia eram utilizadas nas obras referidas.
Uma certa noite esse guarda assistiu a uma cena que atribuiu ao tardo, que foi o seguinte: ouviu alavancas e ferros tipo numa "avalanche de som" pelo riacho abaixo que passava por baixo da ponte.

Contava também o meu bisavô outra história:
O Zé da Cega que era de um lugar vizinho (Gatão) ao que trabalhava (Cepelos), ia no fim do seu trabalho dormir a sua casa, deslocando-se assim ao escurecer sempre de um para outro.
A meio do caminho num sitio que se chama "Algar", diz-se que aparecia o tardo.
Num certo dia em alturas próximas do Natal, já de noite o Zé da Cega ia no seu percurso habitual
com rumo certamente á sua cama, mas nesse sitio acima referido deparou-se com uma bela, reluzente e enfeitada árvore de Natal. Não se assustou. Pegou-lhe e levou-a para casa, mas esta cada vez era mais pesada. Ao chegar a casa pousou a árvore em cima de uma caixa e foi-se deitar. De manhã não tinha nada sobre a caixa, tendo a árvore desaparecido sem deixar rasto algum. A sua explicação para este acontecimento foi a seguinte: "Era o tardo para lhe pôr medo, mas como ele não teve e para mais ainda levou a árvore para casa, esta desapareceu visto que não tinha causado qualquer medo".

A estas histórias/lendas sobre o tardo opõe-se outras histórias que se julgavam ser o tardo, mas que afinal tinham outra explicação e que passo a apresentar.

Esta contou quem a viveu, que era a "rapaziada" do tempo do meu Bisavô: a mocidade de Cepelos ia ao "serão" (bailes) a Paçô (terra vizinha a Cepelos). Iam a caminhar e vinham.
Uma noite no fim do "serão" vinham por um "carreiro" que vinha dar á Ponte a Porto Cavalos (ponte romana).
Essa mesma ponte tinha umas "beiras" (murais) cheias de Erias (árvore ou planta).
Nessa noite tinha caído bastante orvalho e para além disso estava uma noite de Luar, onde a lua reluzia directamente na Eria.
A rapaziada a vir do "serão" viu o tal fenómeno e exclamaram todos: Está ali um Caixão aberto.
Mas uma mais corajoso ou talvez mais inconsciente disse: vamos ver!
Á medida que iam para a frente o caixão deixava de ter a forma deste, e quando chegaram mesmo perto aperceberam-se que era uma ilusão óptica causada pela junção da Eria com o Orvalho e com o Luar.
Assim ficou explicado o precoce susto, e este fenómeno não ficou ligado ao Tardo.

Conta o meu bisavô outra passagem: Antigamente quando morria alguém no lugar de Cepelos ia um Senhor a Gatão buscar o Caixão para enterrar o morto. Naquele tempo os caixões eram simples tábuas.
Assim sendo, morreu uma pessoa no lugar e lá foi o respectivo a Gatão buscar o caixão, á vinda para baixo já com o dia escuro e parou no sitio de "Algar" para ir "servir o corpo" ao mato ali perto. Claro que este ao ir deixou o caixão na berma da estrada, pensando que não passaria ninguém aquela hora naquele sitio. Outro homem que vinha de Gatão para baixo instantes depois deparou com o caixão na berma da estrada e claro está assustou-se (naquele sitio falava-se então que aparecia o tardo) e foi para trás, voltando á sua rota no dia seguinte somente.
Mais tarde lá se veio a esclarecer a história, não cabendo esta peripécia do "caixão" ao tardo.


Em suma, poderá nunca ter existido tal fenómeno chamado de Tardo, e este poderá ter acontecido antigamente por várias razões, como coincidências acima demonstradas, fraca visibilidade nocturna, visto não haver electricidade publica nem estradas como existem nos dias de hoje. Mas no entanto a nível pessoal acredito na seguinte máxima e aplico-a a este caso, que é a seguinte: "Eu não acredito em bruxas, nas que as há, há".